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Siddhartha Mukherjee: "prevenir é prioridade para tratar câncer"

2 out 2018 - 13h28
(atualizado em 2/10/2018 às 18h30)
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Na mais recente edição do ciclo de palestras e debates Fronteiras do Pensamento, em São Paulo, o médico e escritor Siddhartha Mukherjee apresentou uma palestra sobre a história, as causas e os possíveis tratamentos do câncer. A médica geriatra e especialista em cuidados paliativos e suporte ao luto Ana Claudia Quintana Arantes mediou o evento. Neste ano, os eventos promovidos pelo Fronteiras do Pensamento têm como tema central: "mundo em desacordo, democracia e guerras culturais". A palestra de Siddhartha tinha como objetivo traduzir em linguagem compreensível as muitas variáveis da doença.

Foto: DINO / DINO

Nascido em Nova Delhi, capital da Índia, Siddhartha estudou biologia na Universidade Stanford, imunologia na Universidade Oxford e se formou em medicina na Universidade Harvard. Especialista em oncologia, é médico e professor assistente no centro médico da Universidade Columbia. Seu livro O imperador de todos os males: uma biografia do câncer (Companhia das Letras, 2012) foi um sucesso de vendas e vencedor do Prêmio Pulitzer de 2011. Escreveu também The Laws of Medicine (TED Books, 2015) e O gene: uma história íntima (Companhia das Letras, 2016).

"Muita gente conhece alguém que passou por uma quimioterapia. Vocês que já viveram isso, sabem que todos fazem a mesma pergunta: por que eu? Ou por que minha mãe ou por que o meu filho?", disse Siddhartha ao abrir sua palestra. "Nós estamos começando a entender esta resposta em um nível mais detalhado, celular e molecular. O que já temos compreensão é que há uma enorme diversidade de cânceres possíveis: não há dois iguais no mundo, todo tipo de câncer é único", explica.

O MEDO DO CÂNCER E A PROLIFERAÇÃO DOS PRÉ-VIVENTES

"Em 1986, estive em uma audiência onde foi perguntado quais eram as palavras que mais davam medo nas pessoas. Venceram tubarão e câncer", relembra Siddhartha. Para ele, o medo do câncer e todos os sentimentos que o envolvem correm o risco de serem normatizados em nossa cultura. E o efeito desse fenômeno é ambíguo.

Siddhartha sugere que em um futuro próximo, todos nós poderemos ser pré-viventes do câncer. Na linguagem médica, trata-se de uma palavra associada ao vocabulário do câncer para o sobrevivente de uma doença que ainda não aconteceu. Este termo geralmente se refere a pacientes que sobreviveram a um primeiro câncer e estão, portanto, em situação de risco para o surgimento de uma segunda versão da doença.

Uma eventual atenção excessiva aos riscos do câncer pode representar sobrecarga emocional, mas ela é uma grande aliada no combate à doença. Siddhartha explica que o modelo ideal de enfrentamento ao câncer deve ser pensado como uma pirâmide, na qual a base é composta pela prevenção, ou seja, pela identificação de estados cancerígenos, como obesidade e tabagismo. No centro e no topo desta pirâmide estão, respectivamente, a detecção precoce (possível cada vez mais pessoas com o uso de novas tecnologias) e o tratamento de precisão (que combina o uso de conhecimentos da genética e na fisiologia para criar novos paradigmas de ação). "O problema do tratamento é que algumas sociedades não têm como arcar com seus custos. Nos EUA, o valor pode chegar a US$ 400 mil", informa o médico. "Por isso, o foco deve ser a base da pirâmide".

A ORIGEM DA DOENÇA - NO CORPO E NA HISTÓRIA

"Muita gente pensa que o câncer é uma doença nova, moderna, mas ela é uma das mais antigas conhecidas da humanidade", afirma o indiano. Ele argumenta que, hoje, há mais incidência de câncer porque nossa espécie vive mais tempo e, portanto, aprendemos a eliminar outras formas de morte.

O autor do livro O imperador de todos os males: uma biografia do câncer apontou que há registros históricos que demonstram a existência de uma doença com características similares 2,5 mil anos antes de Cristo e que a moléstia recebeu o nome de câncer do filósofo grego Hipócrates (460 a.C. a 370 a.C.), que associou a imagem dos tumores à imagem de caranguejos sob a pele.

Durante séculos, afirma Siddhartha, médicos trabalharam com a hipótese de que a causa do câncer estava ligada exclusivamente a fatores externos. Apenas no século 19, os médicos perceberam que se tratava de um crescimento anormal das células. "Ficou claro que o tumor parte de uma célula normal que, de repente, não sabe mais quando parar de crescer e vira cancerígena", explica o médico.

"A quais sinais a célula observa para parar de crescer? E por que a célula cancerígena não nota esse sinal? Não sabemos o porquê ainda, mas é algo fundamental para o estudo da fisiologia celular, que está em crescimento", relata.

As teses contemporâneas que explicam, ao menos em parte, o câncer tiveram entre seus expoentes o médico oftalmologista brasileiro Hilário Gouveia. Hilário observou que em determinadas famílias o câncer era uma doença que atravessava gerações e alegou que um de seus fatores seria a hereditariedade.

Outros elementos foram somados à questão hereditária. Primeiro, notou-se que elementos externos contribuem para o surgimento da doença - um médico inglês observou a reincidência do câncer entre crianças que limpavam chaminés em Londres. Depois, somaram-se a isso o fator aleatoriedade e até a correlação com alguns tipos de vírus.

"Hoje, há forte evidência de que o fator mais determinante é o genético, mas todos os demais fatores interferem: o acaso age para criar mutações genéticas, vírus podem penetrar a célula e mudar a descrição genética - e comportamentos como tabagismo também colaboram", elenca Siddhartha.

Leia mais em: http://bluevisionbraskem.com/desenvolvimento-humano/fronteiras-prevenir-e-prioridade-para-tratar-cancer-diz-siddhartha

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