Se a ordem mundial liberal acabou, o que pode vir depois?
Do domínio hemisférico a uma ordem "multiplex", analistas discutem caminhos possíveis após décadas de desgaste do sistema internacional baseado em regras e instituições que vigorou desde o pós-guerra.Uma guerra sem justificativa clara. Um presidente que ameaça: "Uma civilização inteira vai morrer esta noite". Para muitos, a recente guerra entre os EUA, Israel e Irã marca uma deterioração ainda maior das relações internacionais. "Estamos vivendo um momento particularmente crítico para a ordem baseada em regras", disse à DW Stacie Goddard, professora de ciência política no Wellesley College, nos EUA.
A ordem baseada em regras é geralmente definida como um conjunto de normas e instituições estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial e que ganhou novo significado com o fim da Guerra Fria. "É uma ordem baseada em um conjunto de regras, muitas vezes definidas como regras liberais, projetadas para criar padrões e regular as relações internacionais", explicou Goddard. "A ideia é criar um sistema que realmente limite os Estados e a forma como eles podem se comportar uns em relação aos outros".
Objetivos e falhas
Após os horrores de duas guerras mundiais no século 20, o objetivo era ajudar a criar um mundo mais estável, livre e próspero. Instituições internacionais como as Nações Unidas e a Organização Mundial do Comércio foram fundadas; os Estados-membros concordaram em se abster de atos de agressão contra outros membros e reconheceram o direito à autodefesa em resposta a ataques.
"Não há dúvida, pelo menos na minha visão, de que as aspirações da ordem liberal e da ordem baseada em regras eram universais. Mas, obviamente, isso nunca funciona assim na prática. Trata-se de um sistema excludente; hierárquico. As ações de muitos de seus apoiadores, incluindo os EUA, são hipócritas, explorando as regras em detrimento de outros", afirmou Goddard.
Países do chamado Sul Global sentem há muito tempo que as proteções criadas pelo Ocidente para defender a ordem baseada em regras nunca realmente os beneficiaram de forma significativa.
"Era um clube muito seletivo. Beneficiava principalmente os Estados Unidos e seus aliados ocidentais", disse à DW Amitav Acharya, professor da School of International Service da American University, em Washington, e autor do livro The Once and Future World Order ("A antiga e futura ordem mundial", em tradução livre). Segundo ele, há uma percepção antiga nos países do Sul Global de que "as regras são feitas para prejudicá-los. Eles se beneficiaram até certo ponto, mas nunca tiveram agência de fato. Nunca conquistaram um lugar ao sol, por assim dizer".
Um exemplo frequentemente citado é o Tribunal Penal Internacional (TPI), que líderes africanos e advogados de direitos humanos acusam de visar de forma desproporcional líderes do continente. Um relatório da Anistia Internacional de 2024 aponta que, dos 54 indivíduos indiciados pelo TPI até hoje, 47 são africanos.
Erosão da ordem baseada em regras
A última década assistiu a uma erosão ainda maior da confiança na ordem baseada em regras. Como exemplo, a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e a invasão em grande escala da Ucrânia em 2022 desafiaram o princípio da soberania.
Então, se a era de uma ordem baseada em regras está perto do fim, o que pode vir a seguir?
Cenário 1: Domínio hemisférico
Um cenário discutido por muitos estudiosos de geopolítica é o retorno do domínio hemisférico. Parte da política externa do presidente dos EUA, Donald Trump, foi chamada de "Doutrina Donroe", em referência à Doutrina Monroe do século 19, que buscava enfraquecer a influência europeia no Hemisfério Ocidental.
Hoje, quando Trump se refere a essa doutrina, parece estar falando de dominação dos EUA na região. A tentativa de derrubar Nicolás Maduro na Venezuela e as ameaças dos EUA à Groenlândia são exemplos disso.
Superpotências dividindo o mundo em esferas de influência poderiam significar que a China reforçaria seu controle sobre o Sul da Ásia, com implicações para Taiwan, e que a Rússia teria carta branca no Leste Europeu. Resultados como esses são as versões mais sombrias do cenário de domínio hemisférico. Mas esse também é um dos cenários menos prováveis.
Na visão de Goddard, "isso traria uma quantidade enorme de reações adversas de Estados soberanos que não entendem muito bem por que foram colocados em uma esfera de influência […] - em que momento alguém decidiu que o Japão fazia parte da esfera de influência da China, por exemplo, ou a Coreia do Sul, nesse caso?"
Além disso, para Goddard, atores como Vladimir Putin ou Donald Trump não agem necessariamente no interesse de suas respectivas nações, o que seria central para um conceito hemisférico. "Eles estão interessados em engrandecer a si mesmos e a seus aliados leais nesse sistema internacional, o que explica por que vemos tantos comportamentos realmente desconcertantes na política internacional", disse.
Ela e colegas da Universidade de Georgetown cunharam o termo "neo-royalismo" para descrever um afastamento da ordem baseada em regras em direção a aglomerados de poder elitistas, não muito diferentes de sistemas monárquicos históricos, nos quais pequenos grupos moldam a política internacional em benefício próprio e de seus aliados.
Cenário 2: ordem "multiplex" em vez de hegemônica
A alternativa mais marcante a esse cenário é uma ordem multipolar ou, como Acharya define, uma ordem mundial multiplex. "Em uma ordem multiplex, você não tem uma ou duas ou um pequeno grupo de grandes potências. Uma ordem multiplex é muito mais complexa. Existem potências médias; existem potências regionais; existem atores não estatais, sociedade civil."
A cooperação ocorreria em nível global, como no caso da ONU, e também em nível regional. Não se trata apenas da distribuição de poder, mas também do compartilhamento de ideias e conhecimento e da adoção de normas comuns.
Nesse cenário, muito depende das chamadas potências médias, grupo ao qual alguns analistas dizem que a União Europeia pertence. Ou, nas palavras de Acharya, "haverá a Indonésia no Sudeste Asiático, haverá a África do Sul na África. Então vejo um mundo com uma variedade de atores em nível global, mas também regional".
Mas uma ordem multiplex, segundo Acharya, não seria perfeita. Ele acredita que ainda haveria conflitos e instabilidade, mas menos ligados a potências hegemônicas.
Cenário 3: Colapso total?
Por fim, há o cenário em que o caos e a anarquia substituem a ordem mundial baseada em regras. Um mundo à beira de outra guerra global. Acharya afirma que esse cenário é temido por muitos, mas que não é provável no momento. Goddard também argumenta que as pessoas conhecem bem demais o preço de uma era marcada por múltiplas guerras intercontinentais para querer pagá-lo novamente.
Ela também espera que as potências médias desempenhem um papel crucial. "O que acontece com a ordem baseada em regras depende do que acontece com aqueles que ainda a consideram valiosa e que têm algum poder para fazer as coisas acontecerem. Na medida em que estejam dispostos a reagir contra esses outros elementos, mesmo que reagir tenha um custo."
Então, a União Europeia e países como Japão, Coreia do Sul e Índia farão seus próprios acordos comerciais, vão se tornar mais independentes militarmente dos EUA e, ao mesmo tempo, respeitarão princípios baseados em regras?
Esse pode ser o fator decisivo para o surgimento de uma nova ordem mundial, uma que não seja projetada exclusivamente pelas potências ocidentais.