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Recorde de exportações mascara velho problema: vender commodities e comprar tecnologia trava desenvolvimento

Enquanto exportarmos a matéria-prima, o valor, o conhecimento e os empregos qualificados vão continuar se acumulando em outros lugares. Ou seja, à medida que o PIB trimestral engorda, o PIB potencial da década murcha

20 ago 2026 - 09h33
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Recentemente vimos nos jornais, simultaneamente, duas notícias que pareciam se contradizer. De um lado, Washington confirmou mais uma rodada de tarifas sobre produtos brasileiros: 25%, colocando o Brasil na desconfortável posição de segundo país mais tarifado do planeta, atrás apenas da China.

De outro, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) comemorou o melhor primeiro semestre da história das exportações brasileiras: US$ 184 bilhões embarcados, com superávit de US$ 42 bilhões e projeção de US$ 90 bilhões no ano, o que seria o segundo maior saldo comercial já registrado.

A leitura dominante na imprensa foi a de que o Brasil "driblou" o tarifaço. As vendas para a China cresceram 22% no semestre, enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram 13%. Os chineses já respondem por 31,6% de tudo o que vendemos ao exterior. Os americanos, por 9,4%, o piso da série histórica. Parece mesmo ter sido um lance de copa do mundo. Mas cabe a pergunta: driblamos o adversário ou nós mesmos?

O navio que vai e o navio que chega

Olhemos a fotografia do comércio bilateral com a China no primeiro semestre. Do lado das nossas vendas, os destaques foram petróleo bruto, carne bovina, carne de frango, ferroligas e minério de cobre. Do lado das nossas compras, o pódio é outro: carros elétricos (+322%), carros híbridos (+239%), chips de memória (+218%), híbridos plug-in e fertilizantes, dos quais inclusive temos dependência estrutural e perigosa.

Essa assimetria dispensa análises aprofundadas. Assim como nas negociações com os EUA, mantemos o padrão de exportar o boi, o barril e o minério; importamos a bateria, o chip e o carro pronto. Enquanto vendemos toneladas, compramos tecnologia, e há quem diga que isso se chama vantagem comparativa.

O Brasil já viveu essa história em capítulos: pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, café, borracha. Cada ciclo prometia prosperidade, entregava divisas por algumas décadas e terminava com o país exportando a matéria-prima enquanto o valor, o conhecimento e os empregos qualificados se acumulavam em outro lugar. Nesse ritmo, os próximos ciclos serão os do hidrogênio e dos minerais críticos e terras raras.

O risco de repetir o passado

O Brasil encara o imperativo da transição energética com um trunfo de uma matriz elétrica com cerca de 88% de fontes renováveis, fruto de investimentos históricos em hidrelétricas, biossoluções e, mais recentemente, energia eólica e solar. A questão agora é o que fazer com esse patrimônio.

Se usarmos nossa eletricidade limpa e barata apenas para produzir, por exemplo, hidrogênio de baixas emissões e despachá-lo em navios, repetiremos o padrão de exportar insumos sem agregação de valor - energia proveniente de sol, vento e água.

Por outro lado, o hidrogênio pode ser usado aqui, por exemplo, para produção de aço com baixas emissões, garantindo oferta de um bem industrial de alta relevância, geração de empregos verdes de qualidade, bens de capital e serviços de engenharia, além aproveitar localmente nossos minérios de alto teor de pureza.

O mesmo raciocínio vale para os minerais críticos e estratégicos, como o silício. O Brasil é um dos maiores exportadores do material em grau metalúrgico. O refino e a purificação acontecem lá fora, principalmente na China, de onde volta na forma de polissilício, wafers e módulos fotovoltaicos para sustentar nossa expansão da geração solar.

Idem para grafite, lítio, nióbio e terras raras: exportar concentrado a preço de commodity e importar ímãs e baterias a preço de tecnologia. Quando seremos donos de elos mais relevantes dessas cadeias? Onde residem inovação, valor agregado e maiores salários?

No entanto, sob essa inércia primária-exportadora, o superávit é real. O câmbio e os índices de preços se acalmam. E é justamente aí que mora a armadilha: superávits baseados em commodities que apreciam o câmbio e barateiam as importações podem produzir resultados falsamente bons, nos quais as contas externas melhoram.

Mas, enquanto isso, a estrutura produtiva se deprime, sem adensamento, incorporação tecnológica, novas patentes, formação de cadeias e serviços sofisticados que demandem mais qualificação e puxem a qualidade dos elos a montante e a jusante. Ou seja, à medida que o PIB trimestral engorda, o PIB potencial da década murcha.

Produzir no Brasil é otimizar com tripla resiliência

A esse modelo, no entanto, existe uma alternativa com lógica econômica global, além de apelo nacional. Quando as emissões de gases de efeito estufa e a busca por confiabilidade perante choques globais entram nas decisões de investimento, a cadeia de suprimento procura novos endereços.

Passa a fazer sentido produzir onde a energia é limpa, abundante e segura: pesquisa com investidores industriais indica que mais de 80% deles apontam o acesso a fontes renováveis como prioridade ao decidir onde investir, localizar cadeias de suprimento ou estabelecer operações.

Por isso, programas como a Agenda Brasil Mais Competitivo, lançada recentemente pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, têm potencial de fomentar otimização regional de cadeias produtivas com resiliência tripla: energética, produtiva e fiscal.

Energética, porque é ancorada em uma das matrizes mais limpas e seguras do mundo. Produtiva, porque pode adensar cadeias, gerar empregos qualificados e reduzir a dependência importações. Fiscal, porque uma base industrial diversificada arrecada mais, depende menos dos preços internacionais e ajuda a estabilizar câmbio e a arrefecer a inflação, aliviando a política monetária e o serviço da dívida. Autonomia produtiva é, no limite, uma política macroeconômica de crescimento.

A Declaração de Belém para a Industrialização Verde, lançada na COP 30 pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) e ratificada por quase 40 países e organizações, aponta exatamente nessa direção. A industrialização verde deve endereçar, e não aprofundar, as desigualdades globais, permitindo que cada país lidere sua própria agenda de descarbonização com empregos de qualidade.

Mas nada disso acontecerá por inércia. O processo exige taxonomias e certificações críveis, planos nacionais de descarbonização industrial, financiamento de longo prazo e investimento em pesquisa e capacitação. Exige, sobretudo, escolha.

Escolher o próprio destino

Ficamos às voltas com diversas perguntas: Quando vamos produzir carros elétricos - ou ao menos parte de suas peças mais relevantes -, cujas importações cresceram mais de 300% no semestre? Quando parte expressiva do aço desses carros será produzido com baixas emissões em siderúrgicas nacionais? Quando o silício que exportamos bruto voltará na forma de uma indústria? A resposta: quando pararmos de confundir recorde de exportação com projeto de desenvolvimento.

O gênio Millôr Fernandes costumava dizer que o Brasil tem um longo passado pela frente. O semestre recorde de 2026 é a manifestação estatística dessa frase. A boa notícia é que ditados podem ser aposentados. Temos energia limpa, minerais, base industrial instalada, capital natural em abundância, instituições sólidas, um mercado interno de dimensão continental e uma diplomacia comercial de primeira linha. Falta um empurrão. Que futuros historiadores possam escrever outra máxima sobre este momento: o Brasil entendeu quem queria ser, e teimou em ser dono do próprio destino.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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