Questão nuclear é apenas uma das razões para guerra dos EUA e Israel contra o Irã
Ofensiva resulta de uma combinação de fatores econômicos e políticos ligados à preservação da centralidade do dólar, a contenção da influência da China e os desafios recentes da economia estadunidense
No último sábado, dia 28, o Irã sofreu uma série de ataques aéreos numa operação conjunta entre os Estados Unidos e Israel. A ofensiva atingiu Teerã e outras cidades do país, e o rastro de violência e morte já começa a aparecer. Após o fracasso de uma nova rodada de negociações entre os Estados Unidos e o Irã, a justificativa para o ataque, como era de se esperar, foi a questão nuclear.
Há anos o Irã tem sido acusado pelos Estados Unidos e por Israel de desenvolver armas nucleares. A esse discurso de segurança soma-se outro, de natureza moral, segundo o qual os ataques poderiam acelerar a deposição do regime iraniano, cuja repressão já produziu milhares de mortos. Esse argumento ganha força e desperta simpatia em parte da população iraniana, especialmente diante do saldo alarmante de vítimas decorrente das recentes insurgências do povo persa contra o governo.
Embora a narrativa oficial esteja centrada na ameaça nuclear iraniana e, em certa medida, no apelo moral contra a violência do regime dos aiatolás, essa explicação é insuficiente. O ataque ao Irã parece ter menos a ver com o programa nuclear do país e, menos ainda, com a intenção de derrubar seu regime teocrático. A ofensiva resulta, ao que parece, de uma combinação de fatores econômicos e políticos ligados aos interesses norte-americanos que vão muito além da questão nuclear, como a preservação da centralidade do dólar, a contenção da influência da China e os desafios recentes da economia estadunidense.
A parceria estratégica entre Irã e China
A ofensiva contra o Irã ocorre num cenário geopolítico de profunda complexidade. Desde o conflito envolvendo Israel, os Estados Unidos e o Irã, em junho de 2025, a tensão entre esses países sobre a questão nuclear vem se intensificando. Para além da dimensão nuclear, porém, há um pano de fundo estrutural igualmente relevante: a crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, alimentada principalmente por um forte discurso anti-China do governo Trump e de seus aliados, e pelo aprofundamento da cooperação entre Pequim e Teerã.
Em março de 2021, por exemplo, China e Irã assinaram um acordo de cooperação com duração de 25 anos. Embora Washington argumente que os investimentos chineses ainda não atingiram as metas previstas, segundo relatório da US-China Economic and Security Review Commission, o acordo é classificado como uma iniciativa "antiamericana".
O que preocupa os Estados Unidos na relação China-Irã é que a China, na prática, tornou-se um dos principais financiadores do Estado iraniano, que há muito vive sob sanções econômicas. Apesar das restrições, a China compra cerca de 90% do petróleo iraniano destinado à exportação. Para furar o bloqueio, navios iranianos desligam seus sistemas de rastreamento e transferem a carga em alto-mar, permitindo que o petróleo chegue à Ásia sem identificação de origem.
Esse esquema rende ao Irã cerca de 50 bilhões de dólares, que, por sua vez, sustentam setores estratégicos da economia persa - de projetos de construção civil à indústria petroquímica -, a maioria dos quais é controlada por empresas vinculadas à força militar iraniana, a chamada Guarda Revolucionária. É dessa complexa estrutura que provém a maior parte da receita que financia o programa de mísseis, a força militar iraniana, bem como o próprio regime teocrático que governa o país.
Para os Estados Unidos, mais grave do que financiar o regime iraniano é o que esse arranjo representa para o domínio geopolítico norte-americano numa área de extrema importância para o sistema energético global. O Irã ocupa uma posição estratégica dupla. Em primeiro lugar, aproximadamente 20% de todo o petróleo e do gás natural comercializados no mundo transitam diariamente pelo Estreito de Ormuz, onde o país exerce forte controle militar. Em segundo lugar, o Irã detém a terceira maior reserva de petróleo do mundo.
Apesar de os Estados Unidos não dependerem diretamente do petróleo iraniano ou do Oriente Médio, num contexto em que os laços econômicos entre Teerã e Pequim se estreitam, é a própria arquitetura financeira que sustenta a hegemonia norte-americana que passa a ser colocada à prova. Não se trata apenas de acesso à commodity, mas de assegurar o domínio geopolítico ancorado pelo sistema financeiro.
O dólar e o avanço dos BRICS
Para compreender a possível motivação econômica por trás do ataque ao Irã, é preciso entender o papel do dólar na manutenção do domínio norte-americano na economia mundial. Desde o acordo de Bretton Woods e, sobretudo, a partir do colapso do padrão-ouro nos anos 1970, o dólar tornou-se a moeda-referência do sistema financeiro global. É em dólares que se negocia o petróleo, que se estabelecem as reservas internacionais dos bancos centrais dos países e que se efetuam a maior parte das transações comerciais e financeiras no mundo. Essa centralidade da moeda norte-americana garante aos Estados Unidos a capacidade de financiar sua imensa dívida com a própria moeda e de aplicar sanções financeiras a países "inimigos".
Assim como o Irã, os demais países dos BRICS, além da Venezuela e de vários países africanos, mantêm relações crescentes de cooperação energética e comercial com a China. A Venezuela, por exemplo, até recentemente - assim como o Irã -, desafiava as sanções norte-americanas à exportação de petróleo para a China.
Num cenário mais amplo, se o que já ocorre entre Irã, China e Venezuela se consolidasse numa convergência econômica mais sólida entre países sancionados, juntamente com os BRICS e países africanos, haveria potencial real para o surgimento de uma rede alternativa de circulação comercial e de combustíveis que ameaçaria fortemente o domínio norte-americano em pelo menos duas frentes.
Primeiro, corroendo a capacidade dos Estados Unidos de utilizar o sistema financeiro como instrumento de pressão geopolítica; segundo, desencadeando um processo mais concreto de desdolarização do sistema energético global. Em outras palavras, poderia desenhar-se um quadro de erosão gradual e silenciosa do "petrodólar".
Nesse contexto, é importante notar o que vem ocorrendo com a China e os demais países dos BRICS, que hoje já representam cerca de 39% do PIB global (segundo a métrica PPP). A China, por exemplo, desenvolveu um sistema de pagamentos interbancários, o CIPS, como alternativa ao SWIFT e expandiu o uso do yuan em transações internacionais.
Nos últimos anos, China e Arábia Saudita ampliaram sua cooperação, abrindo caminho para negociações diretamente em yuan. Além disso, recentemente foi anunciado o BRICS Pay, um sistema de pagamentos alternativo que permite transações financeiras entre os países-membros do bloco, sem depender do dólar.
É, portanto, o privilégio da moeda americana que o estreitamento comercial entre os BRICS ameaça desestabilizar. A cada transação efetuada fora do sistema dolarizado, a cada vez que um banco central decide aumentar suas reservas em detrimento dos títulos do Tesouro americano, corroem-se silenciosamente o poder financeiro e geopolítico dos Estados Unidos. E o Irã, assim como a Venezuela, está no centro desse arranjo alternativo há anos.
Ambos são importantes atores no sistema energético global que se reorganizaram para operar, com o apoio da China, fora das sanções norte-americanas, servindo como verdadeiros laboratórios de uma possível desdolarização em larga escala. Não é de surpreender, portanto, que o Irã, e antes dele, a Venezuela, estejam sob a mira de Washington. Parece-me que há mais em jogo do que apenas ogivas e centrífugas.
A guerra também tem dimensões internas
Por fim, há os desafios econômicos enfrentados pelos Estados Unidos nos últimos anos. Apesar de ainda ser robusto, em 2025 o PIB dos Estados Unidos cresceu apenas 2,2%, o menor ritmo desde 2020. A dívida pública ultrapassou US$ 37 trilhões, com um déficit fiscal anual de US$ 1,8 trilhão. Além disso, a inflação permanece acima da meta do Federal Reserve e, só em 2025, o mercado de trabalho apresentou um dos piores desempenhos na geração de empregos desde 2020.
Ao atacar o Irã, os Estados Unidos promovem, a curto prazo, uma espécie de "estímulo" econômico em alguns setores importantes da economia americana. Ao desestabilizar as operações petrolíferas no Estreito de Ormuz e no Oriente Médio, os preços do petróleo tendem a subir. Como um dos maiores produtores de petróleo do planeta, parte do setor energético norte-americano se beneficia da alta da commodity.
Embora os Estados Unidos consumam grande parte do petróleo que produzem - o que pode elevar o custo de vida e gerar pressões inflacionárias -, isso também movimenta o setor energético do país. Além disso, em momentos de conflito, investidores tendem a aumentar a procura por dólares e por títulos do Tesouro americano, o que fortalece tanto o poder econômico quanto o geopolítico da moeda norte-americana e beneficia o país na gestão de sua dívida pública.
E há também a dimensão política. A indústria de petróleo e gás dos EUA está fortemente concentrada nos chamados "red states", que são um dos pilares da coalizão eleitoral republicana. Uma desestabilização do mercado de petróleo tende a beneficiar os produtores norte-americanos, estimulando investimentos na economia regional exatamente nos estados que elegeram Trump.
Ao mesmo tempo, a narrativa de um país em guerra contra um "inimigo", como ocorreu durante a Guerra do Iraque (2003-2011), funciona como catalisador da polarização política estadunidense e também de apoio ao governo, deslocando o debate público do eixo econômico para a política partidária e a segurança nacional.
E como fica o Brasil nesse cenário?
Se o ataque ao Irã pode ser lido como uma manobra que serve a múltiplas frentes de interesse norte-americano e não apenas à questão nuclear, ao Brasil seria importante adotar uma posição cautelosa diante do conflito. A guerra contra o Irã ocorre num período em que o Brasil e os Estados Unidos se reaproximam após o desgaste político causado pela arbitrariedade do "tarifaço" de Trump, ao mesmo tempo em que se fortalecem as relações entre os BRICS, já divididos quanto ao conflito. Nesse cenário, não seria vantajoso para o Brasil gerar hostilidades com nenhum desses parceiros estratégicos.
Como sinalizei anteriormente, durante a escalada das tensões entre Irã, Israel e os Estados Unidos em junho de 2025, diante de conflitos dessa magnitude, o Brasil precisa adotar uma posição de maior neutralidade, valendo-se de sua reconhecida força mediadora perante crises globais. Internamente, o país atravessa um momento igualmente delicado que, em ano eleitoral, tende a amplificar a instabilidade interna.
Tomar um lado claro na ofensiva contra o Irã poderá acirrar não só a polarização política no país, mas também estimular o crescimento de movimentos antidemocráticos e contaminar o debate eleitoral com questões puramente ideológicas, exonerando partidos e candidatos de tratar com mais seriedade a inflação, o desemprego, a crise do INSS, o uso de IA na educação, a violência, entre outros. Esse, sim, talvez seja um dos efeitos mais nefastos que esse conflito poderia nos causar.
Priscilla Cagnoni Garcia não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.