Quem é a Cellcentric, a empresa que uniu Mercedes, Volvo e Toyota?
Três montadoras compartilham tecnologia para impulsionar motores elétricos movidos por hidrogênio em veículos pesados
Algo comum na indústria é a colaboração entre empresas quando pinta no horizonte a necessidade de investir - muito - em algo que novo que, no futuro, será a bola da vez. Hoje, no setor automotivo essa bola gira em torno das novas energias, uma demanda que fez três grandes nomes da indústria se unirem: a Daimler, dona da Mercedes-Benz, a Volvo e a Toyota.
As três empresas dividem o capital da Cellcentric, uma companhia que produz células combustível para veículos pesados na Alemanha. Esse componente - que você poderá ler por aí como célula de combustível, o que acadêmicos refutam como algo impreciso - é considerado chave porque representa alternativa barata e, possivelmente, viável do ponto de vista tecnológico para a redução das emissões de poluentes em veículos comerciais.
Como funciona a célula combustível
De forma resumida, a solução funciona assim: um pacote de células - que são feitas de diversos materiais, do papel ao grafite, por exemplo - converte hidrogênio e oxigênio na eletricidade que move o motor do veículo.
O processo é eletroquímico e, portanto, não envolve combustão. Há quem diga que tudo isso, em outras palavras, pode exercer o mesmo papel de uma pilha. Por isso a defesa do "célula combustível", e não "de combustível".
De todo modo, o conjunto é interessante porque mitiga o grande problema visto como responsável pelo atraso da eletrificação na frota de caminhões e ônibus, no caso, a rede de postos de recarga.
O caminhão elétrico hoje precisa restringir a sua circulação a regiões que contam com ponto de recarga. Na teoria, o oferta de hidrogênio que faz o veículo gerar a eletricidade que consome pode ser muito maior e mais simples de se criar onde não existe tal estrutura.
Célula hidrogênio para o segmento de caminhões
Na última edição do IAA Transportation, maior feira de veículos comerciais do mundo, realizada em 2024, em Hannover, a grande discussão foi justamente essa - o fato de todas as montadoras estarem ali expondo seus caminhões elétricos sem que a Europa tenha condições mínimas para que eles possam cruzar longas distâncias no continente sem a preocupação acerca da falta de ponto de recarga.
Uma das vozes que defendeu na oportunidade uma intervenção do estado nessa questão foi Karin Rådström, CEO da Daimler Truck. E foi justamente a executiva que, na terça-feira, 31, postou uma foto em rede social na qual aparece ao lado dos CEOs da Volvo e da Toyota, Martin Lundstedt e Koji Sato, celebrando a entrada da montadora japonesa nos negócios da Cellcentric.
"Se juntando à Cellcentric, a Toyota nos permitirá fortalecer e ampliar ainda mais a tecnologia de hidrogênio, que acreditamos complementar os propulsores elétricos a bateria na descarbonização do transporte. E isso trará um verdadeiro impulso para o movimento geral do hidrogênio e nos ajudará a dar vida a toda a sociedade do hidrogênio", escreveu Karin na postagem.
Toyota acelera Cellcentric
A entrada da Toyota é estratégica. Enquanto o mundo automotivo despendia tempo e recursos no powertrain elétrico plug-in, a montadora escolheu outro caminho e se debruçou sobre projetos que envolviam carros híbridos ou elétricos que utilizam o sistema de célula combustível baseado na eletricidade via hidrogênio. Não estava de todo equivocada, como diziam seus acionistas anos atrás, se considerarmos que hoje o motor híbrido ganhou força em muitos mercados.
De forma que a Toyota chega na Cellcentric com um know-how considerável a respeito do desenvolvimento e aplicação dessas células no powertrain elétrico. Foram anos de testes com o sedã Mirai, por exemplo, que a credenciaram nesse papel de especialista no assunto. Era o parceiro que faltava para as fabricantes Daimler e Volvo no negócio.
A Cellcentric surgiu em março de 2021 desenvolvendo protótipos com base em plataformas de motores da Volvo e da Daimler. Dentre suas metas está o fornecimento em série de propulsores elétricos equipados com células até o final da década.
A empresa desenvolveu um primeiro motor, o BZA150, que chamou a atenção por viabilizar autonomia para longas distâncias. Depois veio a plataforma NextGen, que é menor e consome 20% menos hidrogênio no processo de geração de energia. Com a Toyota na mesa, a evolução deve seguir.