Povos indígenas e vida digital: quando a tecnologia precisa aprender a escutar
Na busca por caminhos mais justos para o uso das tecnologias digitais por populações indígenas, projeto propõe ações como a criação de redes digitais entre aldeias e o fortalecimento da educação digital nas comunidades
A inteligência artificial está ajudando a imaginar o futuro. Mas de quem e para quem é esse futuro?
Quando pedimos a ferramentas de IA, como modelos de inteligência artificial generativa, que mostrem "povos indígenas no futuro", o resultado costuma ser parecido: corpos pintados, florestas intocadas e um tempo que parece congelado. Um imaginário estereotipado, distante da realidade de comunidades que usam celulares, produzem conteúdo e participam de debates políticos on-line.
Essa tensão deu origem a uma pesquisa que realizei em 2025, com a participação de membros de 11 povos indígenas da América Latina. O objetivo era simples, mas profundo: entender o que significa bem viver digital para os povos indígenas na América Latina.
Tudo começou com um experimento. Em 2023, através do projeto IA/AI: Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade, coordenado pelos professores Thea Pitman (University of Leeds) e Andreas Rauh (Dublin City University - DCU) e pelo produtor cultural Sebastian Gerlic (ONG Thydêwá). Para o experimento, um grupo de indígenas foi convidado a criar imagens de como suas comunidades seriam em 50 anos, para tentar ver os viés raciais que as ferramentas tendem a apresentar.
Em vez de cenários futuristas desconectados da natureza, surgiram visões que integravam tecnologia, espiritualidade, território e relações coletivas - que podem ser acessadas no detalhe na publicação Artificial Intelligence, Art and Indigeneity.
Mas logo surgiu uma questão incômoda: de onde vêm os dados usados por essas ferramentas? Quem autorizou o uso dessas imagens? E mais: uma imagem criada por máquina pode representar um conhecimento que não foi compartilhado? Essas perguntas dialogam com debates sobre colonialismo digital e extração de dados em larga escala.
Essas questões levaram ao projeto INDIGENIA: Generative AI for Indigenous futures and 'digital good living', em 2024, liderado pelos mesmos pesquisadores do IA/AI, mas desta vez com apoio do Digital Good Network (DGN). No INDIGENIA, eu contribuí como participante.
Durante cinco dias, líderes, artistas e anciãos se reuniram presencialmente na sede da Associação Indigenista de Maringá (Assindi), no Paraná. A proposta inicial era criar novas imagens com inteligência artificial. Porém, o grupo decidiu não alimentar sistemas cuja origem de dados não era transparente e o debate passou a girar em torno de ética, consentimento e soberania de dados — temas centrais em discussões sobre soberania de dados indígenas (Indigenous Data Sovereignty).
Manifesto pelo bem viver digital
Foi nesse contexto que nasceu um manifesto com princípios para orientar empresas e governos no desenvolvimento de tecnologias que impactam povos indígenas. Porém, os manifestos, por si só, não transformam realidades. Incomodado com isso, passei a me perguntar: como dar poder a um manifesto?
Em 2025, tive a oportunidade de coordenar um avanço da pesquisa a partir de uma bolsa de estudos na Universidade de Sheffield com apoio do DGN. Na ocasião, pude realizar um desdobramento do estudo em conjunto com outros parceiros indígenas de 11 povos da América Latina por meio do projeto Povos Indígenas e o Bem Viver Digital (Indigenous People and Digital Good Living).
Entre os povos participantes estavam: Palta (Equador), Wichí, Tulián (Argentina), Aymara (Bolívia), Mapuche (Chile), Kariña (Venezuela), Potiguara, Kaingang, Tupi Guarani, Kariri-xocó, Guarani Kaiowá (Brasil). Nessa nova etapa, o objetivo era transformar os princípios do manifesto em ação.
Para isso, foi utilizado o método de fogueiras digitais, criado pela Thydêwá para facilitar a conexão nos encontros on-line, com cada participante podendo acender ou usar a representação de uma fogueira e pedindo para os seus seres encantados que os guiem durante a conversa.
A partir dessa metodologia, em conjunto com o método participativo Dragon Dreaming foram realizadas seis "fogueiras digitais" e um encontro presencial na Aldeia Tabaçu Reko Ypy, em Peruíbe, São Paulo. Ao todo, participaram 16 pessoas.
O conceito central das discussões foi imaginar o "bem viver" e a questão-problema que norteou a pesquisa foi: como traduzir os princípios do manifesto criado em 2024 em ações concretas para a construção do bem viver digital indígena?
A questão pode parecer simples, mas, para esses povos, que carregam uma lógica profundamente diferente da visão dominante, ela emerge como uma oportunidade ímpar de trazer à luz alternativas para "adiar o fim do mundo".
O bem viver não é individual. É coletivo. E vai além dos humanos. Não é possível estar bem se a comunidade não está. Não há equilíbrio se a terra está doente. Rios, animais, plantas e ancestrais fazem parte do mesmo sistema de vida.
Alguns povos têm palavras específicas para expressar essa ideia, como Sumak Kawsay (Palta), Suma Qamaña (Aymara) ou Chiquin'la Loloba (Tulián). Outros não possuem um termo único. E isso gerou um debate importante: por que a academia insiste em colocar em caixas visões cosmológicas, buscando traduzir e definir conceitos que, aparentemente, não precisam ser traduzidos?
Forçar uma definição pode ser, também, uma forma de imposição. A partir dessas conversas, realizamos a atualização do manifesto criado em 2024 e construímos um plano de ação com 28 iniciativas. Dessas, cinco foram selecionadas como prioritárias: criar redes digitais entre aldeias, registrar saberes de anciãos, formar multiplicadores, produzir conteúdo acessível e fortalecer a educação digital nas comunidades.
Também surgiu a rede IndiGenAI — onde "AI" não se refere apenas a inteligência artificial, mas à Ancestral Intelligence (Inteligência Ancestral). Trata-se de uma articulação aberta, sem estrutura formal, que conecta indígenas e aliados interessados em construir caminhos mais justos para o uso da tecnologia.
Os resultados deste estudo levantam uma questão central: estamos vivendo uma transformação digital ou apenas uma nova forma de extrativismo? Se antes a exploração recaía sobre territórios físicos, hoje ela se estende aos dados, às imagens e aos conhecimentos tradicionais — um fenômeno frequentemente descrito como extrativismo digital.
Nesse contexto, a pesquisa aponta um caminho possível. Não basta ouvir comunidades. É necessário construir junto, com transparência e respeito às decisões sobre o que pode — ou não — se tornar público. Essa escolha, inclusive, impactou a própria pesquisa. As "fogueiras digitais" não foram divulgadas integralmente, em respeito aos acordos éticos estabelecidos com os participantes. Os conteúdos públicos produzidos posteriormente são, portanto, traduções desse processo, não seus dados brutos.
Parte dessas devolutivas pode ser acessada publicamente, como nos encontros e registros disponíveis no YouTube e em oficinas abertas, como esta sobre protocolos e soberania de dados indígenas.
Outro efeito importante foi interno, quando alguns participantes relataram que nunca haviam refletido profundamente sobre os impactos das tecnologias digitais em suas comunidades. Percebemos então o funcionamento do manifesto não apenas como uma diretriz externa, mas como um convite à autorreflexão.
A tecnologia, afinal, não é neutra. Ela carrega valores, interesses e disputas. Para os povos envolvidos na pesquisa, o bem viver digital exige os mesmos princípios do mundo físico: coletividade, respeito à terra e equilíbrio entre todos os seres.
Talvez a pergunta mais importante não seja o que a tecnologia pode fazer por nós. Mas o que precisamos mudar em nós para que ela não reproduza as desigualdades que já conhecemos.
Alex Potiguara recebeu financiamento da ESRC Digital Good Network para desenvolver sua pesquisa. Atualmente ele presta serviços como voluntário para o Programa Pindorama na PUC-SP e ONG Thydêwá.
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