Por que Trump prefere "refugiados" brancos da África do Sul?
Casa Branca quer gastar mais com refugiados - mas só brancos sul-africanos. Quem foge de zonas de crise terá a entrada nos EUA negada. Especialistas veem mais do que mera ação ideológica.Alegando uma "emergência de refugiados imprevista", o governo dos Estados Unidos vai ampliar seu programa de acolhimento a esta categoria de imigrantes. Mas fará isso segundo um critério particular: só aceitará sul-africanos brancos "vítimas de perseguição" por motivos raciais.
Desde que voltou à Casa Branca, em 2025, o presidente americano Donald Trump tem afirmado repetidamente que a África do Sul estaria cometendo "genocídio" contra a minoria étnica branca do país.
O governo sul-africano rejeita energicamente essas acusações. Especialistas também afirmam que não há evidências estatísticas de níveis mais elevados de criminalidade contra fazendeiros brancos. O mesmo foi dito pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU.
África do Sul: principal crítica de Israel
Para Oscar van Heerden, pesquisador do Centro para Diplomacia e Liderança Africana da Universidade de Joanesburgo, o discurso de Trump de perseguição a brancos na África do Sul visa "minar a autoridade moral do país no cenário internacional, equiparando-o ao Estado de Israel".
Desde o início da guerra em Gaza, a África do Sul é um dos mais duros críticos do governo de Benjamin Netanyahu. No fim de 2023, Pretória entrou com uma ação contra Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, por suspeita de genocídio contra a população palestina em Gaza. Israel rejeita as acusações de genocídio e argumenta que está exercendo seu direito à autodefesa, após sofrer ataques terroristas do Hamas e de outros grupos islamistas em 7 de outubro de 2023. A decisão final do tribunal ainda pode levar anos.
Segundo Van Heerden, Donald Trump estaria, essencialmente, dizendo: como um país como a África do Sul pode levar Israel à CIJ por suposto genocídio contra palestinos na Faixa de Gaza se os próprios sul-africanos estariam cometendo genocídio contra sul-africanos brancos?
"Ele tem essa ideia distorcida de que conseguirá convencer o mundo de que, após os anos de Nelson Mandela [principal nome da resistência ao Apartheid], deixamos de ter autoridade moral no cenário internacional", criticou, em entrevista à DW.
Em 2025, Trump permitiu a entrada e o reassentamento de membros das minorias brancas da África do Sul nos Estados Unidos em um procedimento acelerado, que atraiu de imediato 59 sul-africanos brancos.
Agora, uma decisão do Departamento de Estado deve elevar o limite de admissão de refugiados para o ano fiscal de 2026 de 7,5 mil para 17,5 mil pessoas. As vagas adicionais, a um custo estimado de cerca de 100 milhões de dólares, serão reservadas exclusivamente para africâneres brancos.
"Isso evidencia claramente uma tentativa de politizar a proteção aos refugiados", afirma Gustavo de Carvalho, especialista em governança e diplomacia africanas no Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA). "A narrativa de que sul-africanos brancos estariam sendo perseguidos na África do Sul encontrou forte apoio dentro do movimento de ultradireita dos próprios Estados Unidos."
Van Heerden ressalta: "Temos um problema de criminalidade na África do Sul, causado pela enorme desigualdade social e pela pobreza no país." Segundo ele, porém, todas as camadas da população são afetadas.
Recentemente, uma coalizão de personalidades sul-africanas brancas publicou uma carta aberta rejeitando o programa de refúgio nos EUA, que alguns signatários classificaram como racista.
Na esfera judicial, as decisões da Casa Branca relacionadas a refugiados estão sendo questionadas pelo International Refugee Assistance Project.
Crise nas relações entre África do Sul e Estados Unidos
Carvalho aponta que o processo movido contra Israel na CIJ e a suposta proximidade da África do Sul com países como Rússia e Irã geraram grande confusão e incerteza nas relações com os Estados Unidos.
As relações entre os dois países andam tensas. As acusações de genocídio levantadas pela Casa Branca contra a maioria negra sul-africana são apenas um dos elementos da crise. O governo Trump também reduziu a ajuda financeira destinada à África do Sul, boicotou a cúpula do G20 realizada em Joanesburgo em 2025 e excluiu o país da próxima edição do evento, prevista para dezembro de 2026 em um dos resorts de Trump, em Miami.
As rusgas com a África do Sul também seriam sinal da insatisfação de Trump com a agenda do Brics. "Os membros do Brics falam em se desvincular do dólar, negociar em moedas locais em vez da moeda americana, criaram um novo banco de desenvolvimento para competir com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial e, além disso, caminham em direção ao multilateralismo, afastando-se de um mundo unipolar sob a hegemonia dos Estados Unidos."
Segundo Van Heerden, como a Casa Branca não pode bater de frente com China, Rússia ou Índia, os grandes parceiros do Brics, redireciona sua atenção para parceiros menores, como a África do Sul.
Sem ajuda para quem mais precisa
Enquanto sul-africanos são recebidos nos Estados Unidos, a Casa Branca suspendeu a acolhida para pessoas que fogem de guerras e perseguições em países como Afeganistão, República Democrática do Congo e Sudão.
Para Carvalho, do SAIIA, o fato de critérios étnicos serem determinantes, em vez do nível de risco enfrentado pelas pessoas, "viola amplamente uma série de princípios fundamentais relacionados ao conceito de proteção dos refugiados". Segundo ele, a política americana de refúgio está sendo usada, principalmente, como um instrumento de influência da Casa Branca.
No ano fiscal de 2024, iniciado ainda sob o governo de Joe Biden, os Estados Unidos acolheram mais de 100 mil refugiados. Cerca de um terço veio da África, incluindo muitos congoleses. A política de refugiados de Trump é diferente: dos cerca de 6,7 mil refugiados recebidos entre outubro de 2025 e maio de 2026, todos, com exceção de três pessoas, eram oriundos da África do Sul.
"A África não importa para ele, assim como os refugiados", afirma Van Heerden. Segundo o pesquisador, os Estados Unidos atravessam um período de reestruturação das contas públicas, e Trump considera necessário promover cortes em programas de ajuda, organizações beneficentes e no serviço público.
O raciocínio em Washington, explica Van Heerden, é este: "É preciso conter os gastos, porque os Estados Unidos gastam dinheiro demais com outros países e não com seus próprios cidadãos. Afinal, o lema do [movimento nacionalista trumpista] Maga é 'America First'."
Carvalho acredita que essa política pode acabar prejudicando os próprios Estados Unidos: "Esse humanitarismo seletivo compromete significativamente a capacidade de se apresentarem como uma autoridade moral global."
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