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Por que os macacos nunca poderão falar como os humanos: uma questão de narizes

Nosso nariz não tem esse formato por mero capricho e permite que nossa voz seja mais clara e mais grave do que a de qualquer outro primata

14 ago 2026 - 12h46
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Nossos narizes realizam funções que vão muito além de simplesmente nos permitir respirar e cheirar: separação funcional entre nariz e laringe criou um sistema ideal para modular sons complexos e contrastantes, entre os quais vogais claramente diferenciadas. Umesh Jayasekara/Shutterstock
Nossos narizes realizam funções que vão muito além de simplesmente nos permitir respirar e cheirar: separação funcional entre nariz e laringe criou um sistema ideal para modular sons complexos e contrastantes, entre os quais vogais claramente diferenciadas. Umesh Jayasekara/Shutterstock
Foto: The Conversation

Não gostamos dos nossos narizes. Ou pelo menos é o que transparece de um relatório da Sociedade Espanhola de Cirurgia Plástica, Reparadora e Estética (SECPRE), segundo o qual a rinoplastia é a quinta cirurgia mais realizada no mundo, e não exatamente por motivos de saúde.

De fato, as rinoplastias chegam a representar até 10% das cirurgias estéticas realizadas na Europa e nos EUA, com a Espanha ocupando uma das primeiras posições nesse ranking. As mais de 1,08 milhão de cirurgias de remodelação nasal realizadas em 2024 nos mostram, claramente, que narizes pequenos e arrebitados parecem constituir um bem estético muito cobiçado.

Mas se soubéssemos a quantidade de funções que um nariz bom e proeminente desempenha, muito provavelmente olharíamos para nosso apêndice nasal com olhos mais benevolentes. Especialmente conhecendo sua importância na revolução cultural que levou ao surgimento dos seres humanos.

Para que serve o nariz?

A priori, podemos pensar que respirar seria perfeitamente viável por meio de um simples orifício de contato das vias respiratórias com o exterior. Assim, poderíamos tanto nos oxigenar quanto cheirar, as duas funções aparentemente básicas do nariz. Esse apêndice chamativo, no entanto, faz algo a mais, e extremamente importante, com o ar: o condiciona em temperatura e umidade antes que chegue à nossa nasofaringe.

Se não fosse assim, nossas vias respiratórias ressecariam em ambientes muito áridos, ou os epitélios que revestem a traqueia, os brônquios e os pulmões congelariam em regiões polares. Em ambas as circunstâncias, morreríamos pela impossibilidade de difusão do oxigênio dos epitélios alveolares para o nosso sangue. Mas mesmo sem chegar a situações tão drásticas, vias respiratórias ressecadas diminuem a função mucociliar, o que aumenta o risco de infecções respiratórias.

A evolução do nariz humano, no entanto, levou a coisas ainda mais surpreendentes.

Primatas têm um nariz achatado

Você já se perguntou por que nossos "primos simiescos" exibem narizes bastante achatados, enquanto nós ostentamos, bem no meio do rosto, um promontório nasal mais do que proeminente? Em geral, os primatas costumam ter narizes bastante achatados, e parece que isso lhes basta para desempenhar as funções nasais básicas. Não poderíamos nós também sobreviver com narizes menores?

Na verdade, trata-se de uma ilusão de perspectiva. Não é que os bonobos, chimpanzés e gorilas quase não tenham nariz, mas sim que seu focinho prognático - com o maxilar inferior (mandíbula) e superior (maxila) projetados para a frente - faz com que ele mal se destaque do plano. Em outras palavras, grande parte do nariz está incluída no focinho.

A linha evolutiva que levou aos humanos, como já sabemos, revolucionou muitos aspectos anatômicos, e também afetou a forma do nariz. O que realmente ocorreu foi uma revolução na integração morfológica existente entre diferentes regiões do crânio de nossos ancestrais (região nasal, maxilar, pré-maxilar, base do crânio e mandíbula inferior). De fato, essa integração desapareceu e o maxilar retraiu-se.

Como consequência da drástica redução do prognatismo, a abertura nasal passou a situar-se em um plano muito anterior do rosto. As cartilagens laterais e o septo nasal deixaram de estar embutidos no perfil do terço médio facial e acabaram ficando "à mostra". Assim, o nariz deixou de estar "escondido" e passou a ocupar um protagonismo indiscutível em nossa fisionomia facial.

Voz clara e profunda graças ao nariz

Mas o surgimento de um nariz inovador como o nosso significou algo mais do que apenas um rosto novo. Além de aquecer, umidificar e filtrar o ar, ou servir de suporte ao epitélio olfativo, surgiram novidades funcionais inviáveis em nossos ancestrais de "nariz achatado".

Um artigo científico muito recente revela que, no rosto de um Homo, ocorre uma separação funcional extremamente interessante entre o nariz e a laringe como consequência de uma dupla mudança anatômica. Por um lado, com a cavidade nasal ficando mais verticalizada (mais alta e estreita), estabelece-se uma maior complexidade na via aérea superior. Por outro lado, a nasofaringe se amplia e se encurta, o que implica em uma separação entre a via aérea e a oral, inviável, por exemplo, em chimpanzés ou gorilas.

Nosso novo trato, assim configurado, é mais "duplo" do que o retilíneo dos símios. Isso não apenas permite um fluxo de ar mais turbulento e eficiente para filtragem e condicionamento, mas também possibilita maior controle das ressonâncias e maior estabilidade acústica na emissão do ar. Em outras palavras, com essa sequência evolutiva alcançamos um sistema ideal para modular sons complexos e contrastantes, entre os quais o desenvolvimento de vogais claramente diferenciadas.

Mas a história não parou por aí. A "autonomia" do nosso nariz não só contribuiu para a ressonância e a modulação, elevando extraordinariamente nosso potencial de gerar sons variados, como também o trato nasal e os seios paranasais ajudaram a tornar nossa voz mais clara e mais profunda.

Falamos pelo nariz

Dito isso, símios falantes como do filme O Planeta dos Macacos são inviáveis. Por mais que gostemos dessa fantástica obra de ficção científica (muito melhor, na minha opinião, em sua extraordinária versão original com Charlton Heston), a realidade é que orangotangos, chimpanzés, gorilas e bonobos, por mais que um suposto desenvolvimento cerebral tornasse possível, nunca conseguiriam articular os sons envolvidos em uma linguagem complexa como a nossa.

O nariz deles está integrado a um sistema facial adaptado à mastigação, não à otimização acústica. O que antes se supunha ser algo anatomicamente monofatorial (que a fala humana foi resultado do deslocamento evolutivo da laringe para baixo) acabou se revelando uma consequência de muitos elementos envolvidos. Na verdade, foi uma reorganização completa do crânio que alterou as relações anatômicas entre o trato nasal, a boca e a faringe para criar um sistema acústico altamente modulável.

Nosso protagonista, esse nariz inovador e saliente que temos, foi claramente fundamental na aquisição de uma fisiologia vocal excepcionalmente flexível e acusticamente revolucionária. Lembre-se disso antes de subestimar a estética do seu apêndice nasal.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

A. Victoria de Andrés Fernández não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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