Por que os aeroportos da Arábia Saudita viraram alvo dos houthis
Rebeldes houthis intensificaram ataques com mísseis e drones contra aeroportos da Arábia Saudita, visando pressionar Riad a interromper seu apoio militar ao governo do Iêmen. As investidas já deixaram mortos e feridos, levando o grupo a alertar companhias aéreas a evitarem o país. A ofensiva eleva os custos econômicos e políticos para os sauditas e acende o alerta para uma perigosa escalada regional que ameaça a segurança energética global e o fluxo marítimo no estreito de Bab el-Mandeb.
Com ameaças à aviação civil, rebeldes houthis no Iêmen buscam pressionar Riad a desistir do apoio à contraofensiva das forças governamentais iemenitas e elevam o risco de uma resposta militar mais ampla.Uma série de ataques contra aeroportos da Arábia Saudita colocou a aviação civil do país no centro da guerra com os rebeldes houthis do Iêmen. Nos últimos dias, o grupo intensificou o uso de mísseis e drones contra instalações aeroportuárias sauditas, afirmando agir em resposta à participação de Riad na ofensiva militar contra territórios sob seu controle no país vizinho.
O ataque mais grave ocorreu neste sábado (10/10) no Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, matando ao menos 12 pessoas e ferindo mais de 300. Neste domingo, o aeroporto voltou a ser atingido.
A escalada levou os houthis a emitir um alerta incomum: companhias aéreas, funcionários do setor e passageiros foram aconselhados a evitar os aeroportos sauditas, que o grupo passou a considerar parte de seu "teatro de operações". Apenas os aeroportos das cidades sagradas de Meca e Medina foram poupados da ameaça.
O canal de televisão Al-Masirah, controlado pelos houthis, noticiou, antes do ataque deste domingo, que "coisas piores" estão por vir se o inimigo saudita não cessar sua interferência no Iêmen.
Para observadores, a disputa não afeta apenas a segurança da aviação civil, mas também uma região estratégica para o transporte de petróleo e para o comércio internacional, especialmente nas proximidades do estreito de Bab el-Mandeb - um corredor que serve como alternativa crucial ao Estreito de Ormuz, onde o Irã tem realizado ataques a navios.
Segundo autoridades sauditas e reivindicações divulgadas pelos houthis, os ataques começaram a se intensificar no início de outubro. Os aeroportos de Jazan, Najran, Abha e Riad foram atingidos em poucos dias, deixando mortos e feridos. Os rebeldes também afirmaram ter atacado o Aeroporto Internacional Rei Fahd, em Dammam, além de instalações da estatal petrolífera Saudi Aramco.
Possível escalada
Os houthis são aliados do Irã e controlam partes do Iêmen. Já a Arábia Saudita apoia uma contraofensiva das forças governamentais iemenitas contra os houthis. A coalizão liderada pelos sauditas fornece apoio aéreo às forças do governo iemenita, que tentam reverter os recentes avanços dos houthis ao longo do Mar Vermelho, que conferiram aos rebeldes maior capacidade de monitoramento do tráfego marítimo em Bab el-Mandeb.
Para especialistas, o grupo tenta forçar o reino a reduzir o envolvimento militar de Riad no conflito ao elevar o custo político e econômico da guerra. Os aeroportos são alvos de alto valor simbólico, econômico e político. Além de interromper operações aéreas e afetar a percepção de segurança no país, os ataques demonstram que os houthis continuam capazes de atingir alvos a centenas de quilômetros de distância, apesar dos anos de campanha militar liderada por Riad.
Os ataques também alimentam temores de uma escalada regional mais ampla.
"Na minha opinião, isso levará a uma escalada ainda maior, já que a Arábia Saudita - juntamente com outros Estados - responderá de forma massiva aos houthis", afirma Ahmed Sayyed Ahmed, do Instituto de Pesquisa Al-Ahram, no Cairo, em entrevista ao jornal alemão Tagesschau.
Autoridades sauditas já indicaram que podem responder com novas ações militares, enquanto os Estados Unidos afirmam avaliar formas de apoiar seu aliado. No entanto, observadores dizem que Washington tem pouco interesse em uma intervenção em larga escala - em parte porque os houthis poderiam exercer sua influência no estrategicamente importante estreito de Bab el-Mandab.
"Caso os Estados Unidos intervenham diretamente com ataques aéreos, os houthis poderiam alvejar diretamente navios mercantes americanos", pontua Ahmed. "Assim como fizeram em 2024 e 2025".
Isso, por sua vez, agravaria ainda mais a crise energética, especialmente porque o estreito de Bab el-Mandeb e o estreito de Ormuz são cruciais para 30% do comércio global de petróleo, gás e outras commodities.
"Teria implicações perigosas para a segurança energética global", completa.
Nova aliança não se mostrou efetiva
Hesitantes com o apoio dos EUA, os sauditas buscaram novos aliados. No entanto, a recente aliança militar com o Paquistão e a Turquia também parece não estar cumprindo suas promessas. Por enquanto, a mensagem de Islamabad é que espera que a questão possa ser resolvida pacificamente.
Os confrontos entre sauditas e houthis começaram em 2015, quando o reino entrou na guerra civil do Iêmen em apoio ao governo reconhecido internacionalmente.
Um período de relativa calma se seguiu a um cessar-fogo de 2022, mas a situação mudou em julho, quando os houthis retomaram os ataques, alegando que os sauditas haviam disparado contra o aeroporto de Sanaa no momento em que uma aeronave vinda do Irã tentava pousar. O episódio reacendeu a indignação em relação ao bloqueio liderado pela Arábia Saudita, que deixou as áreas controladas pelos houthis amplamente isoladas.
le (ots)
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