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Plano de Milei gera superávit fiscal, mas agrava crise social, inadimplência e fome. Modelo serve ao Brasil?

Embora o Brasil esteja enfrentando desafios fiscais relevantes, não se observa uma crise inflacionária comparável à da Argentina. Esse fato torna questionável a adoção de um ajuste de intensidade semelhante, sobretudo diante dos custos sociais envolvidos

22 out 2026 - 07h17
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Resumo
Embora elogiado por aliados de Flávio Bolsonaro como modelo para o Brasil, o plano econômico de Milei na Argentina gera alertas. Apesar de alcançar superávit fiscal e desacelerar a inflação, o ajuste severo resultou em cortes sociais profundos, desemprego, disparada nas tarifas públicas e endividamento recorde da população. Além do alto custo social, o programa aumentou a dependência financeira externa e alinhou a política externa aos EUA, comprometendo a soberania do país.

Integrantes da equipe de Flávio Bolsonaro têm elogiado publicamente as medidas adotadas pelo presidente Javier Milei, apresentando a experiência argentina como uma referência para as políticas que pretendem implementar em um eventual governo.

A participação de Milei no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em julho, e a circulação de figuras como Fernando Cerimedo evidenciam uma proximidade entre o presidente argentino e o candidato brasileiro que se estende à formulação do programa econômico. Consultor político, Cerimedo atuou nas campanhas digitais de Milei e Bolsonaro e é conhecido pela disseminação de desinformação eleitoral.

Uma análise da trajetória recente da economia argentina, no entanto, revela problemas muito importantes nessa aproximação. Além de desconsiderar as profundas diferenças entre as condições econômicas dos dois países, a adoção de um programa semelhante no Brasil suscita inquietação quanto a seus efeitos sociais e distributivos e às consequências para a inserção internacional do país.

No dia 19 de outubro, o governo Milei publicou um plano de demissão voluntária para 21.187 servidores, após desligar 77 mil trabalhadores desde 2024. O decreto prevê extinguir as vagas e proíbe quem aderir de retornar ao setor público por oito anos. A Associação de Trabalhadores do Estado denunciou intimidação e ameaças para forçar a adesão.

Inflação e custos sociais

A primeira diferença entre as realidades dos dois países está na situação que motivou o chamado "Plano Motosserra" de Milei. Esse programa foi concebido como resposta à crise econômica argentina, marcada por uma inflação que alcançou 211% em 2023. No Brasil, em contraste, a inflação acumulada em 12 meses está em 4,58%.

Embora o Brasil esteja enfrentando desafios fiscais relevantes, não se observa uma crise inflacionária comparável à da Argentina. Esse fato torna particularmente questionável a adoção de um ajuste de intensidade semelhante, sobretudo diante dos custos sociais envolvidos.

O ajuste argentino teve como um de seus principais eixos a reversão do déficit primário, que corresponde ao resultado negativo das contas públicas antes do pagamento dos juros da dívida. Essa política envolveu uma redução acentuada de subsídios, investimentos e transferências de recursos, com efeitos sobre o financiamento de áreas essenciais.

Na Argentina, a desaceleração da inflação foi acompanhada por uma forte compressão dos rendimentos e do consumo das famílias, em um contexto de deterioração do mercado de trabalho e encarecimento dos serviços essenciais.

A indústria argentina, por sua vez, já enfrentava um processo prolongado de desindustrialização, agravado pelas dificuldades de concorrência com produtos importados. A retração da produção doméstica e o fechamento de empresas também repercutem sobre o emprego.

Ao aumento do desemprego e da informalidade somaram-se as perdas de renda entre os trabalhadores que mantiveram seus empregos. Alguns passaram a acumular duas ou três ocupações para conseguir cobrir as despesas familiares.

A redução dos subsídios ao transporte, ao gás e à energia elétrica também contribuiu para o encarecimento desses serviços. Com a diminuição da participação do Estado no seu financiamento, uma parcela maior dos custos passou a ser paga diretamente pelos consumidores.

Na região metropolitana de Buenos Aires, onde vive aproximadamente um terço da população argentina, a cesta de serviços públicos acumulou uma alta de 966% desde a posse de Milei. Isso equivale a cerca de quatro vezes a inflação geral no mesmo período, segundo levantamento da Universidade de Buenos Aires (UBA) e do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET).

Uma das manifestações mais preocupantes desse processo é o endividamento das famílias argentinas, que alcançou níveis recordes. Mais de 20 milhões de argentinos possuem dívidas, enquanto mais de um quarto dos devedores está inadimplente.

A deterioração dos salários reais fez do crédito um mecanismo de sustentação do consumo cotidiano, inclusive para custear despesas básicas, como a compra de alimentos no supermercado. Com a manutenção de juros elevados, porém, essa substituição da renda pelo endividamento tornou-se progressivamente mais difícil de sustentar, aprofundando a vulnerabilidade financeira das famílias.

Prioridades e dependência

Esses efeitos também precisam ser considerados à luz das prioridades distributivas do ajuste fiscal. O governo argentino promoveu cortes abrangentes nas despesas públicas, inclusive em áreas essenciais. Ao mesmo tempo, manteve a disposição de conceder benefícios tributários a grandes investidores e de reduzir impostos incidentes sobre setores exportadores.

Os custos do ajuste, portanto, não se distribuem igualmente entre os diferentes grupos sociais. Enquanto trabalhadores e famílias de menor renda enfrentam a deterioração dos rendimentos e o aumento das despesas essenciais, grandes investidores e setores exportadores são contemplados por medidas de redução da carga tributária.

A perda de renda ocorre, além disso, no mesmo momento em que o Estado reduz os gastos em saúde, educação, infraestrutura e transporte. Essa combinação amplia as dificuldades enfrentadas pelas famílias que mais dependem dos serviços públicos.

O contraste é especialmente evidente na educação. Segundo estimativas do Instituto Interdisciplinar de Economia Política da Universidade de Buenos Aires, os recursos destinados às universidades nacionais sofreram uma redução real de aproximadamente 40% desde 2023. Somam-se a esses cortes o congelamento dos salários docentes e a redução dos investimentos necessários às atividades universitárias.

Há, contudo, outra dimensão da experiência argentina que merece atenção. A estabilização financeira e a valorização real do peso não podem ser dissociadas da dependência de financiamento externo e das concessões políticas envolvidas.

Em 2025, o governo Milei obteve um novo acordo de US$ 20 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Além disso, diante das pressões cambiais que antecederam as eleições legislativas, recebeu uma intervenção extraordinária do Tesouro norte-americano: uma linha de swap (troca de moedas) de US$ 20 bilhões e operações de compra de pesos.

O episódio expôs a ingerência do governo norte-americano no processo eleitoral do país, mobilizando o temor da inflação como combustível para alavancar as candidaturas do campo governista. Expôs também a vulnerabilidade de um programa cuja sustentação cambial depende da disponibilidade de divisas e está condicionada ao respaldo de credores e governos estrangeiros.

Ingerência externa

Também é relevante considerar as condições políticas em que esse apoio é obtido e as consequências para a autonomia internacional do país. A aliança de Milei com Donald Trump tem sido acompanhada por uma reorientação da política externa argentina em direção às prioridades de Washington, frequentemente em desacordo com posições diplomáticas historicamente sustentadas pelo país.

Entre os exemplos estão a recusa da Argentina em ingressar no BRICS e a decisão de acompanhar os Estados Unidos na retirada da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Destaca-se, sobretudo, a mudança de posição na Organização das Nações Unidas sobre o embargo econômico a Cuba. Em 2024, Milei demitiu sua chanceler após a Argentina votar pela condenação do embargo, conforme a posição tradicional. No ano seguinte, o país passou a votar ao lado dos Estados Unidos e de Israel, contrariando a posição sustentada por 165 membros da Assembleia Geral.

É nesse sentido que a experiência argentina oferece um alerta importante para o Brasil. O programa de Milei não pode ser avaliado apenas por seus números, com ênfase em sua capacidade de reduzir a inflação ou produzir superávits fiscais. Devem ser consideradas as transformações promovidas nas relações entre Estado e sociedade e nas condições de inserção internacional do país.

O risco de reproduzir essa experiência em uma economia como a brasileira é combinar um ajuste socialmente regressivo, que transfere parcela importante de seus custos aos trabalhadores, com uma política externa que restringe a autonomia nacional em troca de respaldo político e financeiro. Sob essa perspectiva crítica, o resultado pode ser uma articulação entre disciplinamento interno, empobrecimento social e subordinação aos interesses econômicos e políticos dos Estados Unidos.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Matheus de Oliveira Pereira é doutor em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas. É pesquisador de Pós-Doutorado no INCT - INEU, professor no Centro Universitário Belas Artes e membro do GEDES-UNESP. As visões expressas aqui são pessoais e não refletem a posição de nenhuma instituição a que o autor é vinculado.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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