Peru vai às urnas eleger seu nono presidente em dez anos
Direitista Keiko Fujimori e esquerdista Roberto Sánchez se enfrentam no segundo turno em meio a clima de desconfiança, fragmentação política, insegurança e crise institucional.Nove presidentes em dez anos. Esse número resume melhor do que qualquer outro o estado da política peruana. Em 7 de junho de 2026, os cidadãos voltam às urnas para escolher entre Keiko Fujimori, líder do partido Força Popular, e Roberto Sánchez, candidato do Juntos pelo Peru. A eleição ocorre em um contexto de profunda desconfiança nas instituições, fragmentação política e crescente preocupação com a insegurança.
Para muitos observadores, a pergunta central não é apenas quem ocupará a presidência, mas se o Peru será capaz de sair do ciclo de crise política que caracterizou a última década.
Democracia com cada vez menos representação
O primeiro turno expôs o desgaste do sistema político peruano. Keiko Fujimori chega ao segundo turno com apenas 17% dos votos válidos, e Roberto Sánchez com cerca de 12% — números que evidenciam a fragmentação de um sistema no qual participaram 35 candidatos presidenciais. O resultado ilustra até que ponto os dois finalistas carecem de apoio amplo e chegam à segunda rodada em meio a uma profunda crise de representação.
Para Alonso Cárdenas, professor de ciência política da Universidade Antonio Ruiz de Montoya, a raiz do problema é mais profunda do que uma simples disputa eleitoral. "Há um descrédito generalizado da classe governante", comenta Cárdenas à DW. Segundo ele, a rejeição atinge o Congresso, a Presidência e o Judiciário. "É um processo muito grave de implosão do sistema de representação política."
A pesquisadora Johanna Pieper, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), concorda que a eleição reflete uma crise de longa duração. "A população simplesmente não está feliz nem satisfeita; não confia na política, no governo nem no Congresso", afirma Pieper à DW. Ela também observa uma sociedade dividida entre Lima e as regiões historicamente marginalizadas, especialmente a região andina.
Keiko Fujimori: o peso de um sobrenome
A candidatura de Keiko Fujimori recoloca o fujimorismo no centro da política peruana. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko segue sendo uma das figuras mais influentes - e também mais polarizadoras - do país.
A candidata de direita tenta chegar pela quarta vez ao cargo que seu falecido pai ocupou, com o objetivo de reivindicar seu legado, após ter sido derrotada no segundo turno das três eleições presidenciais anteriores.
Aos 51 anos, Fujimori quer se tornar a primeira mulher eleita presidente do Peru por voto direto, já que Dina Boluarte (2022-2025) assumiu o cargo por ser vice-presidente do ex-presidente de esquerda Pedro Castillo, após ele ter sido destituído pelo Congresso por tentar um golpe de Estado.
A persistente líder do partido fujimorista Força Popular chegou muito perto da Presidência três vezes seguidas, ao perder o segundo turno para o esquerdista Ollanta Humala (2011), para o direitista Pedro Pablo Kuczynski (2016) e para o também esquerdista Castillo (2021).
Sua derrota nas duas últimas ocasiões ocorreu por uma margem mínima de 40 mil votos, o que a levou inicialmente a não reconhecer os resultados e a denunciar uma fraude para a qual não apresentou provas, mas que ainda afirma ter acontecido.
Fujimorismo 2.0
Diferentemente das eleições anteriores, Fujimori chega a este pleito sem seu pai, falecido em setembro de 2024; sem o pai de suas duas filhas, o americano Mark Vito, de quem se divorciou em 2022; e livre, graças a uma decisão do Tribunal Constitucional, de um julgamento por lavagem de dinheiro relacionado ao financiamento irregular de suas campanhas eleitorais anteriores.
Embora Keiko represente uma segunda fase do fujimorismo - que muitos chamam inclusive de "keikismo" ou "fujimorismo 2.0" -, ela defende o legado de seu pai, com propostas de "mão dura", uma abordagem conservadora e cercada por integrantes da velha guarda do ex-presidente.
Ela se defende das acusações de que já teria "governado" o país indiretamente por meio de sua bancada no Congresso e nega ter contribuído para a instabilidade política que levou o Peru a ter oito presidentes em dez anos, embora votos do fujimorismo tenham participado da maioria dos processos de destituição de chefes de Estado na última década.
Na política desde jovem
Fujimori estudou Administração de Empresas na Universidade de Boston (EUA) e depois fez um MBA na Universidade de Columbia.
Sua entrada na política ocorreu em 1994, quando, aos 19 anos, tornou-se a primeira-dama mais jovem da história da América, após o divórcio de seus pais - função que exerceu até novembro de 2000, quando seu pai renunciou à Presidência por fax, a partir do Japão, em meio a um grande escândalo de corrupção.
Depois de viver vários anos nos Estados Unidos, Keiko voltou ao Peru em 2005 e, no ano seguinte, foi eleita deputada com a maior votação para o Congresso.
Conflito com o irmão e prisão
Anos depois, durante o governo de Kuczynski, entrou em conflito com seu irmão Kenji ao se opor a uma aproximação com o então presidente para buscar um indulto para seu pai, que cumpria uma pena de 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade, após ter sido extraditado do Chile em 2007.
Em meio às investigações por suposta lavagem de dinheiro em suas campanhas eleitorais, Keiko também ficou em prisão preventiva por quase um ano e meio, entre 2018 e o início de 2020. No entanto, no começo deste ano, uma decisão do Tribunal Constitucional determinou o arquivamento do processo por falta de fundamento nas acusações.
"Única constante"
O cientista político Fernando Tuesta escreveu recentemente na plataforma X que Keiko Fujimori é "a única constante nos últimos quinze anos que fez com que a política e as eleições girassem em torno dela e do fujimorismo". Segundo ele, a força do fujimorismo é inegável, mas também é grande a rejeição que provoca.
Para Pieper, essa rejeição continua sendo um fator decisivo. "Acho que não diminui", destaca. Ela lembra que Fujimori obteve apenas 17% no primeiro turno e já perdeu três segundos turnos anteriores. "Muitos peruanos estão conscientes de que o partido de Keiko Fujimori contribuiu para a instabilidade do país."
Do ponto de vista econômico, Fujimori defende o modelo de mercado vigente, mas Pieper alerta que ela também representa posições iliberais, e que há preocupação com uma possível ampliação das redes de influência política sobre as instituições.
Se vencer, provavelmente contará com uma posição relativamente sólida graças ao apoio de aliados no Congresso, mas isso não eliminaria as tensões sociais. Tuesta adverte que, mesmo com maioria parlamentar, um governo Fujimori "nasceria com legitimidade limitada e com uma oposição que já existe, não precisaria ser construída".
Roberto Sánchez, ex-ministro e aliado de Castillo
Em contraposição a Fujimori surge Roberto Sánchez, uma figura bem menos conhecida fora do Peru. Sua candidatura evoluiu ao longo da campanha.
O candidato de esquerda é aliado do ex-presidente preso Pedro Castillo (2021-2022), convertido em ícone para aqueles que consideram que o ex-mandatário foi derrubado pelas elites políticas e econômicas, após ter vencido as eleições de 2021 contra a própria Fujimori.
Sánchez foi o escolhido por Castillo para concorrer em seu lugar nessas eleições, depois de ter sido o único ministro que permaneceu do início ao fim em seu governo. O então presidente foi destituído e preso após tentar, sem sucesso, um golpe de Estado contra o Congresso, dominado pelo fujimorismo e seus aliados.
Diferentemente de Castillo, um professor rural e líder sindical que ingressava pela primeira vez na política quando venceu as eleições, Sánchez, de 57 anos, é psicólogo com uma longa trajetória política, atuando desde o âmbito local até chegar a ser ministro.
Na sexta-feira (05/06) que antecedeu o segundo turno, Sánchez defendeu a busca por um consenso político para conter o que vê como uso indiscriminado pelo Congresso de sua prerrogativa de destituir presidentes sob a justificativa de "incapacidade moral permanente" - redação dada pela Constituição peruana, mas que ele qualificou como vaga em entrevista à agência de notícias AFP.
Quis ser padre antes de virar político
Filho de migrantes da região andina, casado e pai de duas filhas, Sánchez nasceu e cresceu na província agrícola de Huaral, a cerca de 75 quilômetros ao norte da capital Lima. Estudou psicologia na Universidade Nacional Mayor de San Marcos e, antes de ingressar na política, pretendia seguir a carreira sacerdotal, tendo passado por um seminário.
Na política, começou no Partido Humanista, do ex-ministro Yehude Simón, que o acusou de "traidor" por ter assumido o comando da legenda desde 2017, após as acusações de corrupção contra Simón no caso Odebrecht, e por tê-la rebatizado como Juntos pelo Peru (JP).
No setor público, trabalhou como gerente nas prefeituras de Huaura, Huaral e San Borja, e em 2021 foi eleito deputado.
Apesar de pertencer a um partido diferente do de Castillo, conseguiu conquistar a confiança do então presidente recém-eleito, que o nomeou ministro de Comércio Exterior e Turismo, cargo que ocupou durante todo o mandato de Castillo, sendo um de seus principais aliados.
Como deputado, Sánchez demonstrou apoio à candidatura do ex-presidente Evo Morales na Bolívia e viajou ao país em 2025 para participar de mobilizações em apoio ao líder populista de esquerda.
Após a fracassada tentativa de golpe de Estado de Castillo, Sánchez renunciou e posteriormente se absteve de votar na moção de destituição do presidente - o que não o impediu de se tornar hoje seu maior defensor.
Moderação no segundo turno
Johanna Pieper, do Giga, lembra que, inicialmente, Sánchez defendia maior intervenção do Estado na economia, questionava o modelo neoliberal e apoiava uma nova Constituição. Contudo, no segundo turno apresentou um programa mais moderado, baseado em consensos com outras forças políticas, que enfatiza a estabilidade macroeconômica, a independência do Banco Central e o incentivo ao investimento privado.
Para Cárdenas, caso Sánchez chegue à presidência, poderia seguir um caminho semelhante ao de Ollanta Humala (presidente entre 2011 e 2016), deslocando-se para posições mais centristas e pragmáticas. "Não acredito que ele vá para um chavismo mais radical", afirma.
Governar, porém, seria desafiador. Sánchez teria de conviver com um Congresso em que o fujimorismo e outras forças conservadoras têm peso relevante. Pieper considera que "seria alta a probabilidade de ele ser um presidente fraco" e que precisaria construir alianças para sobreviver politicamente.
Segurança, crime e economia: as prioridades
Embora a campanha tenha sido marcada por confrontos políticos, os problemas que mais preocupam a população são outros. "A insegurança é atualmente a principal preocupação", destaca Pieper. Tanto Fujimori quanto Sánchez terão de demonstrar capacidade para enfrentar o crime organizado e a violência.
Cárdenas descreve um cenário especialmente preocupante: um Estado com presença limitada em amplas regiões do país, enquanto fenômenos como extorsão, assassinatos por encomenda e mineração ilegal avançam. Ele também alerta para a deterioração de serviços básicos como saúde e educação.
Réu às vésperas do 2º turno
Sánchez chega à eleição de domingo como réu, após a Justiça acatar uma denúncia contra ele apenas dois dias antes da votação. O Ministério Público, que pediu pena de cinco anos e quatro meses de prisão, aponta inconsistências nos relatórios financeiros do partido dele, Juntos pelo Peru, nas campanhas para as eleições regionais e municipais em que participou entre 2018 e 2020.
Sánchez é acusado de receber cerca de 280 mil soles (R$ 421 mil, pelo câmbio atual) em contribuições de integrantes de seu movimento político para atividades partidárias que não foram declaradas ao Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE).
Mas, caso vença a eleição, Sánchez — que já classificou o caso no passado como "mentira" — terá imunidade por eventuais crimes, conforme prevê a Constituição.
O que eleição significa para a região?
As diferenças entre os dois candidatos também podem se refletir na política externa. Segundo Cárdenas, um governo Sánchez provavelmente buscaria aproximação com Brasil e México, especialmente com os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum.
Já Fujimori teria maior afinidade com governos conservadores e uma relação mais próxima com os Estados Unidos. Cárdenas acredita que ela seria bem recebida por líderes como Javier Milei (Argentina) ou Daniel Noboa (Equador), mantendo uma posição mais distante em relação ao México.
Pieper concorda que Fujimori provavelmente teria uma cooperação mais fluida com Washington, enquanto um governo Sánchez poderia enfrentar mais dificuldades nessa relação.
Fragmentação política e frustração social são desafios
Independentemente do resultado, poucos especialistas acreditam que a votação encerrará imediatamente a crise política.
Pieper alerta que os partidos continuam muito frágeis e que, se a frustração social seguir crescendo, há o risco de surgirem figuras ainda mais radicais e antissistema.
Por isso, o desafio do próximo presidente será muito maior do que vencer uma eleição. Ele terá de reconstruir a confiança nas instituições - que grande parte da população vê como distantes de suas necessidades - e demonstrar que o sistema democrático ainda pode oferecer respostas aos problemas cotidianos dos peruanos.
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