Papa Leão visita a França sob a sombra de abusos na Igreja cometidos no país
O papa Leão 14 iniciou a primeira visita papal à França em 18 anos, buscando recuperar a imagem da Igreja Católica após escândalos históricos de abusos infantis cometidos pelo clero. Durante a viagem de quatro dias, o pontífice se reunirá com vítimas de abusos, celebrará missas multitudinárias e discursará na Unesco sobre regulação da inteligência artificial. O roteiro inclui passagens por Paris, pelo santuário de Lourdes e por Metz, onde fará um apelo pela paz e unidade aos líderes europeus.
Primeira visita oficial de um papa ao país em quase 20 anos tenta restaurar a imagem da Igreja, cinco anos após publicação de relatório sobre abusos massivos cometidos por padres contra crianças no país.O papa Leão 14 chegou à França nesta sexta-feira (25/09) para a primeira visita oficial de um pontífice ao país em 18 anos. Ele foi recebido no aeroporto de Paris-Orly, sob um céu azul e límpido, pelo presidente francês, Emmanuel Macron, e sua esposa, Brigitte, e por crianças que cantaram para ele e pediram autógrafos.
Líderes católicos esperam que a viagem ajude a restaurar a imagem da Igreja após o devastador relatório de 2021 sobre abusos cometidos por padres contra crianças, que causou choque em todo o país.
O pontífice, que durante a viagem de quatro dias se reunirá com vítimas de abusos, também deve atrair grandes multidões para uma missa ao ar livre no centro de Paris e fará discursos separados para líderes franceses, da ONU e europeus em sua intensa agenda por três cidades.
Cerca de 600 mil pessoas se inscreveram para participar da missa campal de sábado, nas proximidades da famosa Avenida Champs-Élysées, em Paris.
Papa deve abordar IA
A agenda de Leão em Paris inclui discursos ao presidente Emmanuel Macron e a outras autoridades francesas no Palácio do Eliseu, além de uma visita à sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que enfrenta dificuldades orçamentárias após a saída dos Estados Unidos da agência, determinada pelo presidente Donald Trump em 2025.
Primeiro papa americano da história, Leão provocou irritação de Trump no início deste ano ao criticar a guerra no Irã.
O pontífice, que em maio divulgou um enfático manifesto alertando para os riscos da inteligência artificial e defendendo uma regulamentação internacional do setor, deve tratar do tema em seu discurso na Unesco.
Segundo Matteo Bruni, porta-voz do Vaticano, o papa deverá reiterar seu apelo por uma desaceleração no desenvolvimento da IA e abordar questões ligadas "ao sentido da existência, ao que torna os seres humanos verdadeiramente humanos e ao que não os torna".
Leão também conduzirá uma cerimônia de oração na restaurada Catedral de Notre-Dame, em Paris. Será a primeira visita de um papa ao local desde o incêndio devastador que quase destruiu a obra-prima gótica em 2019.
Além de Paris, o roteiro do pontífice inclui uma parada no famoso santuário católico de Lourdes, no sudoeste da França, onde, segundo a tradição católica, a Virgem Maria apareceu em uma gruta em 1858 para uma jovem camponesa pobre chamada Bernadette Soubirous.
Leão celebrará a missa dominical em um campo próximo à gruta, que se tornou um importante destino de peregrinação para cristãos do mundo inteiro em busca de cura.
A viagem será encerrada em Metz, cidade próxima à fronteira com a Alemanha que foi lar de Robert Schuman, um dos fundadores da União Europeia. Lá, o papa fará um discurso sobre "as raízes da Europa para a paz e a unidade".
O cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo e ex-líder da comissão da Igreja para os bispos da União Europeia, afirmou que Leão conclamará os líderes europeus a serem "incansáveis construtores e promotores da paz".
Macron convidou líderes dos 27 países-membros da União Europeia para assistir ao discurso em Metz, disse Charles Personnaz, embaixador da França junto ao Vaticano. Segundo ele, ainda não está claro quantos comparecerão, já que o evento coincide com a Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, também poderá participar, segundo informações da imprensa. O gabinete do líder ucraniano não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário.
Escândalos de abusos
O papa deverá se reunir no domingo, em Lourdes, com sete vítimas de abusos cometidos por membros do clero católico, incluindo um ex-aluno, hoje com 80 anos, de um internato católico da região que, nos últimos anos, foi abalado por denúncias de abusos físicos e sexuais em larga escala.
Um relatório de 2021 concluiu que cerca de 330 mil crianças francesas sofreram abusos por parte de membros do clero católico e líderes leigos ao longo de sete décadas.
Em linha com investigações semelhantes realizadas nos Estados Unidos, Espanha e Portugal, o documento afirmou que a Igreja demonstrou uma "indiferença profunda, total e até cruel" em relação às vítimas. Desde então, os bispos franceses adotaram medidas de compensação e proteção, mas sobreviventes continuam pressionando os líderes da Igreja para que assumam responsabilidades.
Um alto funcionário do Vaticano informou que Leão 14 solicitou que a reunião em Lourdes fosse organizada como um diálogo e incluísse vítimas de diferentes perfis, incluindo abusados já na idade adulta e de diversas regiões da França.
Lourdes, um dos mais populares destinos de peregrinação católica do mundo, também está associada a um escândalo que tem perseguido o Vaticano nos últimos anos. O santuário abriga uma série de mosaicos produzidos pelo padre Marko Rupnik, artista de renome ligado ao Vaticano que foi acusado de abuso sexual. Rupnik, acusado por mais de 20 mulheres, responde atualmente a um julgamento canônico no Vaticano.
O bispo de Lourdes, Jean-Marc Micas, afirmou em agosto que ordenou a cobertura dos mosaicos durante a visita do papa.
Só 5% frequentam a Igreja
Apenas cerca de 5% dos 69 milhões de habitantes da França frequentam regularmente a Igreja Católica, segundo uma pesquisa realizada no ano passado. Trata-se de um país fortemente secularizado, que consagrou o direito ao aborto em sua Constituição e aprovou a morte assistida para determinados pacientes.
No entanto, embora o número de batismos infantis tenha diminuído nos últimos anos, os batismos de adultos estão em alta, com milhares de pessoas optando por adotar a fé católica.
"Nos últimos 40 a 50 anos, a França tem sido essencialmente uma espécie de laboratório avançado do que está acontecendo com o catolicismo nas democracias ocidentais, ou pelo menos europeias", disse à agência de notícias AFP François Mabille, diretor do Observatório Geopolítico das Religiões.
"Essa transição de um catolicismo transmitido de geração em geração para outro baseado em um compromisso pessoal é provavelmente algo que interessa ao papa", acrescentou.
O papa João Paulo 2° visitou a França oito vezes entre 1980 e 2004, enquanto o papa Bento 16 realizou uma visita oficial ao país em setembro de 2008. Já o papa Francisco fez três visitas à França, passando por Estrasburgo, Marselha e pela ilha da Córsega, mas nenhuma delas teve caráter de visita de Estado.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.