Os quartos de neve que ultrarricos instalam em casa para escapar do calor
Um quarto de neve padrão, de cerca de 2,1 m por 3 m, custa em torno de US$ 128 mil (cerca de R$ 653 mil, na cotação atual).
No verão brasileiro, fugir do calor costuma significar piscina, ventilador ligado a noite toda ou, para quem pode pagar, um ar-condicionado potente o suficiente para enfrentar 35°C na sombra.
Para um grupo pequeno, mas crescente, de super-ricos ao redor do mundo, a resposta tem sido mais radical: construir o próprio inverno dentro de casa.
Chama-se quarto de neve — uma câmara artificial gelada, o oposto de uma sauna, onde flocos caem do teto e criam a sensação de estar dentro de uma bola de neve.
Enquanto o clima empurra as temperaturas para recordes em boa parte do mundo, proprietários de imóveis de altíssimo padrão estão equipando casas, coberturas e até iates com esses ambientes.
Existe algo assim no Brasil?
Aparentemente, não existe algo assim no Brasil. Consultadas pela BBC News Brasil, duas das principais empresas do setor, a italiana TechnoAlpin e a americana Spa Butler, disseram nunca ter instalado um quarto de neve no país — o que não significa que nenhuma outra empresa o tenha feito, apenas que não há registro conhecido de um projeto desses em território brasileiro.
A Spa Butler afirmou já ter recebido "consultas vindas da América do Sul", mas nenhuma delas resultou em projeto concluído.
Já existe algo parecido em São Paulo, mas não é a mesma coisa: a crioterapia, oferecida em spas de hotéis de luxo e em clínicas especializadas. Ela aparece de duas formas: banheiras de gelo por imersão — geralmente entre 4°C e 15°C — e câmaras de corpo inteiro (as "criosaunas"), que usam nitrogênio e chegam a -80°C ou até -190°C, com sessões de apenas 1 a 3 minutos.
Em ambos os casos, a diferença central para o quarto de neve é a mesma: o corpo é resfriado por ar seco ou água gelada — sem neve de verdade, sem flocos, sem a experiência sensorial que os fabricantes de quartos de neve vendem como diferencial.
Quanto custa?
A TechnoAlpin é uma das maiores fabricantes de canhões de neve do mundo, os mesmos usados para cobrir pistas de esqui. Foi de lá que veio a tecnologia dos quartos de neve, adaptada para uso interno há cerca de dez anos, período em que, segundo a empresa, ainda testava como resfriar um ambiente fechado sem que a neve derretesse.
"Nossos quartos de neve nasceram no setor profissional de bem-estar e spa. Em vários países, eles são usados como uma forma suave de baixar a temperatura do corpo depois da sauna, fazendo parte de protocolos modernos de terapia de contraste", disse à BBC News Brasil Elisabeth Steger, diretora de desenvolvimento de negócios da divisão de neve indoor da TechnoAlpin.
A empresa oferece modelos batizados de Snowroom, mantido a -10°C com neve real produzida todas as noites, e Snowsky, que simula uma nevasca contínua com efeitos de luz.
Nos Estados Unidos, quem tem se especializado em levar esse tipo de instalação para residências, iates e spas de luxo é a Spa Butler, empresa do Texas fundada em 2018.
Segundo Tyler Slater, sócio-fundador e diretor de operações, a empresa já entregou dezenas de projetos na América do Norte, na Europa e no Oriente Médio.
"Recebemos consultas vindas da América do Sul, mas ainda não concluímos nenhuma instalação no Brasil", disse Slater.
Um quarto de neve padrão da empresa, de cerca de 2,1 m por 3 m, começa em US$ 128 mil (cerca de R$ 653 mil, na cotação atual). Projetos maiores e personalizados — com acabamentos em mármore, pedra ou madeira — podem passar de US$ 300 mil (R$ 1,53 milhão), dependendo do tamanho e do grau de customização.
A instalação exige refrigeração comercial dedicada, rede elétrica própria, sistema de drenagem, ventilação e isolamento térmico reforçado — mais próxima de uma câmara frigorífica do que de um freezer doméstico.
Sobre o consumo de energia, Slater afirma que ele varia conforme o tamanho do ambiente, o clima local e a frequência de uso, mas que sistemas mais recentes operam de forma mais eficiente, com isolamento avançado e controles automatizados.
De iates de bilionários a mansões
O exemplo mais citado do setor é o do bilionário petroquímico indiano Mukesh Ambani, que instalou um quarto de neve em Antilia, sua residência de 27 andares em Mumbai.
O superiate Serene, de 134 metros, também tem um — mantido a -11 °C pelo atual proprietário, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, que comprou a embarcação em 2015.
Antes disso, sob o dono anterior, o magnata russo Yuri Shefler, Bill Gates chegou a fretar a embarcação por até US$ 5 milhões por semana, segundo reportagem do New York Times.
Nos Estados Unidos, a texana Katelin Schebler, sócia de um spa de alto padrão em Frisco, mandou instalar um iglu particular dentro de casa.
"É uma tempestade agradável, não uma nevasca de verdade. É algo que dá vontade de aproveitar", disse ela ao jornal americano.
Corretores de iates dizem notar uma mudança de prioridade entre os compradores. "Antes, o design de um iate girava em torno de festas e bares. Hoje o foco está muito mais em saúde e longevidade", disse Kevin Kramer, corretor da Burgess Yachts em Aspen, no Colorado.
A lógica comercial por trás dos quartos de neve é a mesma que impulsionou a popularidade de banheiras de gelo e saunas em spas e academias nos últimos anos: alternar calor e frio para estimular a circulação.
"É a mesma coisa que a sauna faz com o calor — o quarto de neve faz com o frio. E, como a sauna, também vira ponto de encontro social", diz Alina Hernandez, diretora de inovação da Touchless Wellness Association, em material de divulgação da TechnoAlpin.
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