Os pilares que mantêm o regime iraniano de pé
Analistas avaliam que estrutura de poder iraniana superou o choque inicial dos ataques de EUA e Israel. Estruturas de comando flexíveis contribuem para manutenção do regime, apesar de mortes de lideranças.Dezoito dias após os Estados Unidos e Israel lançarem ataques contra o Irã, matarem o então líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei , já nas primeiras horas da guerra e eliminarem outras lideranças políticas e militares, seria razoável supor um enfraquecimento fatal do centro de poder da República Islâmica .
"Com a guerra já na terceira semana, no entanto, está ficando claro que essa suposição não corresponde à realidade. A estrutura de poder do Irã superou o choque inicial", avalia o analista do Oriente Médio Habib Hosseini Fard.
Abalada, mas não eliminada, a Guarda Revolucionária do Irã continua atacando em várias frentes alvos dos EUA, Israel e em Estados árabes vizinhos sustentada por uma estrutura de comando descentralizada e bem conectada.
Esta parece ser a situação atual após a morte nesta terça-feira (17/03) de Ali Larijani, o chefe da Segurança Nacional iraniana. Larijani era uma das figuras mais poderosas e influentes do regime iraniano e apontado por muitos como o líder de facto do governo. Além dele, Israel também matou na mais recente onda de ataques Gholamreza Soleimani, comandante da força paramilitar Basij (responsável pela repressão popular e vinculada à Guarda).
O Comando Central dos EUA (Centcom) afirmou nesta segunda-feira que nas últimas duas semanas o Irã lançou mais de 300 ataques contra Omã, Arábia Saudita, Israel, Jordânia, Chipre, Turquia, Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Catar, Iraque, Kuwait e Bahrein.
Também nesta segunda-feira, o Ministério da Defesa da Arábia Saudita informou que interceptou mais de 60 drones em seu espaço aéreo, o que ilustra a escala sem precedentes do conflito.Os Emirados Árabes Unidos também relataram uma morte em Abu Dhabi e um ferido, que, segundo as autoridades, foram vitimados por destroços de projéteis iranianos.
Êxito das estruturas flexíveis de comando
Nesse contexto, o ministro do Exterior iraniano, Abbas Araghchi, descartou dar início a negociações, afirmando que não haverá cessar-fogo enquanto os EUA e Israel continuarem a atacar alvos iranianos. Ele aparenta ser capaz de contar com um aparato militar robusto, com a Guarda Revolucionária do Irã como o principal ator capaz de responder com flexibilidade a situações em constante mudança.
A Guarda Revolucionária foi criada após a Revolução Islâmica de 1979, quando os novos governantes desconfiavam das Forças Armadas formadas sob o regime do Xá [deposto pela revolução]. Seu mandato era evitar um golpe de Estado e proteger a ideologia do regime.
Juntamente com o Exército regular, a Guarda Revolucionária integra hoje as Forças Armadas do Irã e é subordinada ao líder religioso e político da República Islâmica, o aiatolá Mojtaba Khamenei. Estimativas afirmam que seu efetivo seja de até 200 mil soldados.
"Nas últimas duas décadas, a Guarda Revolucionária evoluiu de uma instituição hierárquica para uma estrutura em rede", afirma o especialista em Oriente Médio Habib Hosseinifard. "Os comandos provinciais têm ampla autoridade e podem operar independentemente do comando central."
Hosseinifard acrescenta que a "profundidade estratégica do Irã e as bases subterrâneas de mísseis também tornam impossível destruir suas capacidades militares em um curto período de tempo - uma realidade que explica a continuidade dos ataques, apesar das alegações dos EUA de destruição máxima".
Os EUA e Israel afirmaram ter atacado 15 mil alvos no Irã. Mesmo assim, o país consegue lançar ataques com foguetes contra cidades israelenses. Na manhã desta terça-feira, a embaixada dos EUA em Bagdá foi alvo de um bombardeio com drones e foguetes. Países do Golfo e navios no Golfo Pérsico também foram atingidos por ataques.
Como o Irã ainda pode lutar como um "Estado falido"
O analista político Reza Talebi destaca a estrutura interna do Irã e alerta contra suposições simplistas sobre um possível colapso do poder no país. "A noção de que um período de fragilidade estatal ou mesmo um 'Estado falido' levaria automaticamente à capitulação das forças militares não reflete as realidades estruturais do Irã", explica.
"Atores ideologicamente motivados dentro do aparato militar e de segurança estão intimamente ligados à própria existência do sistema", afirma Talebi. O analista destaca ainda que a Guarda Revolucionária não é meramente uma organização militar, mas também "controla estruturas de poder econômico e ideológico que se estendem muito além do Irã".
Isso inclui a força de elite Quds, uma unidade especial da Guarda Revolucionária responsável por operações no exterior, e milícias em todo o Oriente Médio que apoiam os objetivos do Irã, incluindo a destruição de Israel.
A organização também controla um conglomerado de construção chamado Khatam al Anbia, que desempenha um papel de liderança em inúmeros projetos estratégicos de infraestrutura e investimentos multimilionários. A empresa foi criada no final da década de 1980 para reconstruir o país após a guerra com o Iraque.
"Essas interconexões orgânicas tornam uma renúncia rápida ou voluntária ao poder extremamente difícil", pontua Talebi. "Se apenas a camada externa do sistema for enfraquecida, isso não causa necessariamente um colapso. Em vez disso, pode aumentar as tensões e intensificar os conflitos internos dentro do aparato de poder."
O especialista avalia que, em caso de queda do regime, uma situação semelhante a que ocorreu na Síriaou Afeganistão seria mais provável do que uma transferência ordenada de poder.
Colapso completo improvável
Talebi, portanto, acredita que "um aparato de segurança totalmente colapsado não é necessariamente o objetivo" dos EUA e de Israel. Da perspectiva israelense, uma estrutura de segurança enfraquecida, mas ainda funcional em Teerã, poderia ser mais previsível do que um vácuo total de poder.
De acordo com Hosseini Fard, os EUA e Israel parecem agora buscar enfraquecer as capacidades militares remanescentes do Irã e reabrir o Estreito de Ormuz, enquanto realizam ataques direcionados a instituições de segurança para impulsionar protestos internos.
No entanto, um cessar-fogo em um futuro próximo ou um colapso da Guarda Revolucionária são improváveis, avalia Fard. Ele pontua que, após o choque inicial, o Irã criou deliberadamente um cenário de incertezas no Estreito de Ormuz, aumentando a pressão sobre a economia global. Além disso, com ataques à infraestrutura e bases militares na região do Golfo, as dimensões regionais do conflito continuam a se expandir.
"O cenário mais provável é a continuação da guerra, seja em seu nível atual ou de forma ampliada", conclui.