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'Orwell 2+2=5': quando uma obra de cinema distópico empalidece diante do mundo histórico

Apesar de politicamente engajado, filme do diretor Raoul Peck sobre George Orwell não toca nas feridas do século 21: o sistema capitalista insustentável e o humanismo em extinção

6 mar 2026 - 12h51
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Em "Orwell 2+2=5" (2025), o diretor Raoul Peck, do excelente "Eu Não Sou Seu Negro", oferece um tocante e contundente relato sobre a história recente e o mundo contemporâneo a partir da vida de George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) e seu romance mais famoso e mais distorcido: "1984", escrito em 1949.

"Orwell 2+2=5" demonstra a proeminência da ficção científica na agenda contemporânea, e inclui referências audiovisuais a "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, e a "Minority Report", de Philip K. Dick. As múltiplas inserções e iterações das diferentes adaptações de "1984" para o cinema, televisão, rádio e teatro fornecem os "refrões" para a sinfonia de imagens e sons orquestrada por Peck, enquanto trechos de foto e telejornalismo evidenciam a ficção distópica ultrapassada pela realidade.

Esse vai e vem da ficção ao documental, do universo da arte ao mundo histórico, em vez de desorientar o espectador, realça ainda mais a barbárie real contemporânea, sua infeliz semelhança (ou até mesmo indiscernibilidade) da obra distópica.

O filme poderia ser ainda mais poderoso caso não se rendesse ao relativismo da malfadada "teoria da ferradura" — a tese formulada pelo cientista político francês Jean-Pierre Faye de que os extremos à direita e à esquerda se equivalem.

Não se equivalem, e o próprio Orwell teve noção disso.

Filme não toca nas feridas do século 21: capitalismo insustentável e humanismo em extinção

O maior problema deste e de outros filmes politicamente engajados está no fato de não assumirem o risco de realmente "tocar nas feridas abertas" do início do século 21: o sistema capitalista é insustentável e o humanismo parece estar morrendo. Quem vive bem, obrigado, é o capital.

Filmes como o de Peck acabam por nos "anestesiar", trazendo o conforto catártico de nos colocar como espectadores do absurdo — sem responsabilidade direta por ele. Guy Debord, em "A Sociedade do Espetáculo" (1967), antecipou o mecanismo pelo qual o próprio espetáculo crítico pode cumprir tal função anestésica.

Peck denuncia os crimes do Ocidente com habilidade — ponto amplamente positivo do filme, ao reconhecer que mesmo em "democracias" é possível irromper o "ovo da serpente" —, mas para cada crime ocidental enxerta uma menção a governos não-ocidentais: a Rússia de Putin, a China de Xi Jinping, o Camboja de Pol Pot.

Donald Trump sobressai como a quintessência do mal antevisto por Orwell. Mas nenhum desses governos é igual, sequer comparável em diversos aspectos. Um pouco mais de materialismo histórico seria capaz de reconhecer isso. Na mesma medida em que Putin ou Kim Jong-un podem ser demonizados como estereótipos das autocracias, o cientista político John Mearsheimer sustenta — como na palestra "Why Is Ukraine the West's Fault?" [https://www.youtube.com/watch?v=JrMiSQAGOS4] — que o Putin que conhecemos não existiria sem a política externa de Washington e a expansão da OTAN.

Pareceu-me claro, assistindo ao filme, que o tempo dedicado por Peck às atrocidades ocidentais é significativamente maior do que aquele dedicado às não-ocidentais. Uma contradição bem-vinda, que nos leva a pensar, mas que não deve produzir esse efeito de forma generalizada. O espectador mais desavisado sairá revoltado com as atrocidades do mundo, mas sem a real medida das discrepâncias entre elas.

Por exemplo, o "Julgamento de Kiev" — a resposta soviética ao massacre de Babi Yar perpetrado por nazistas, mostrado no filme de Peck - não é o mesmo que o cerco a Stalingrado e demais atrocidades nazistas. É difícil equacionar atrocidades entre si: torná-las equivalentes pode ser perigoso. Nada se compara aos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki — e ambas as cidades sequer são citadas de passagem pelo filme.

Oportunamente, o presidente Donald Trump começa a ser o alvo de Peck depois do primeiro terço do filme. Antes, George W. Bush também leva pancadinhas. Mas o que dizer dos demais presidentes estadunidenses ao longo do século 20? Pensemos em Eisenhower e o golpe no Irã (1953), Nixon e o Chile (1973), Reagan e a Nicarágua. Qual outra nação rivaliza com os EUA em termos de intervenções militares e apoio a golpes de Estado no mundo pós-Segunda Guerra Mundial? Sobre esse e outros problemas correlatos, o filme silencia.

A língua como arma

Peck recorre ainda à "novilíngua" orwelliana como se fosse uma "profecia" da era da pós-verdade, tratando-a como ferramenta heurística em vez de metáfora. Isso é delicado. A hipótese Sapir-Whorf, que propõe que a língua molda o pensamento, foi largamente contestada por outros linguistas.

Que a língua possa ser tornada uma arma pelo status quo, isso é inegável - daí a série de eufemismos denunciada no filme. Mas sugerir que a língua seja o motor primário do totalitarismo, essa é uma extrapolação que o próprio filme não sustenta com rigor.

Peck nem sempre encontra nas declarações de Orwell o lastro ideal para sua tese sobre o totalitarismo: a de que ele pode surgir em qualquer momento e localidade. Muitas engrenagens desse maquinário escapam ao seu escrutínio.

O filme é feliz ao estampar alguns rostos centrais do "teatro" autoritário contemporâneo: os media moguls e bilionários da tecnologia mais influentes do mundo, incluindo a família Marinho, proprietária do maior conglomerado de mídia da América Latina, cujos laços com a ditadura militar brasileira entre 1964 e 1985 e o poder político ainda hoje são notórios.

Entretanto, o risco de "Orwell 2+2=5" somar-se a outras obras que personalizam acriticamente o autoritarismo, sob a ótica de que é a subida de fulano ou beltrano ao poder que seria a causa de nossos males, talvez seja um perigo. Embora o personalismo seja um traço inerente ao fascismo, Hannah Arendt nos lembra, em "As Origens do Totalitarismo" (1951), que tal mazela é um fenômeno estrutural, não biográfico. A simples interdição do personalismo pode não necessariamente nos livrar das investidas totalitárias.

Lacunas

Para uma obra lançada em 2025, algumas lacunas chamam a atenção. O caso da Minustah no Haiti e os crimes cometidos sob comando do general Augusto Heleno — hoje preso no Brasil por tentativa de golpe de Estado — é um deles. Peck, que é haitiano e foi Ministro da Cultura de seu país (1995-1997), talvez pudesse ter deixado mais claro o motor das atrocidades cometidas contra o povo do Haiti a pretexto de uma força de paz.

O silêncio relativo às "primaveras árabes", às "revoluções laranja" e aos golpes recentes na América Latina — Dilma Rousseff no Brasil (2016), Evo Morales na Bolívia (2019) — também incomoda um espectador não-ocidental mais atento.

Enquanto Peck reserva tempo razoável às imagens da invasão do Capitólio e dos discursos de Trump, aguardei até o minuto final uma simples inserção da invasão e depredação da Praça dos Três Poderes em Brasília, ocorrida em janeiro de 2023 - dois anos antes do lançamento do filme. A similitude entre esses fatos é gritante, mas novamente o filme guardou silêncio.

Por mais magnífica que seja a locução de Damian Lewis — que venceu o Critics' Choice Documentary Award de Melhor Narração — e a costura de imagens orquestrada por Peck, fica clara uma visada predominantemente ocidental dos problemas de governança e desigualdade no mundo, visada esta admitida em alguns dos comentários do próprio Orwell, reproduzidos no filme. Assim, a sucessão de imagens "em cachoeira", sem maior profundidade, acaba por nivelar um terreno irregular de atrocidades e responsabilidades, com o tratamento simétrico de fenômenos estruturalmente assimétricos.

"Orwell 2+2=5" é um filme educativo e inspirado, sem dúvida. Mas talvez mais um "emplastro" analgésico sob forma de ensaio audiovisual, voltado a aliviar as dores do indivíduo de classe média vivendo numa sociedade profundamente doente.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Alfredo Suppia recebe financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) como pesquisador nível 1C.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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