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Opinião: eleições brasileiras terão impacto global

As eleições brasileiras são, de certa forma, eleições globais. Cada decisão eleitoral representa uma escolha entre modelos de cidadania, soberania e ordem internacional. O que ocorrer no Brasil estabelecerá precedentes para outras sociedades

20 abr 2026 - 12h44
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Nos últimos anos, tornou-se evidente que a democracia brasileira e os resultados das decisões democráticas no Brasil possuem implicações que se estendem muito além de suas fronteiras. Eventos políticos no Brasil produzem consequências para diversas sociedades nacionais e, de fato, para desenvolvimentos jurídicos e políticos vitais em escala global.

Em certa medida, esse é o resultado pretendido de estratégias políticas concebidas por presidentes brasileiros durante a década de 1990 e após 2003. Nesse período, os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, cada qual a seu modo, iniciaram trajetórias de abertura global e regional que vincularam o Brasil de forma estreita a outras ordens políticas.

Isso envolveu esforços para posicionar o Brasil como ator central nos processos de integração regional na América Latina, ampliar sua participação na configuração de organizações internacionais e reforçar sua autoridade na formulação de normas em nível global. Esses projetos de inserção internacional geraram controvérsias ao longo dos anos e, por vezes, colocaram o Brasil em conflito com potências dominantes. A crítica de Lula à composição do Conselho de Segurança da ONU é um exemplo dessas tensões.

Além disso, tais estratégias foram interrompidas por momentos desastrosos, nos quais alguns presidentes — notadamente Jair Bolsonaro — buscaram reduzir o engajamento do Brasil na integração regional e aproximar o país de alianças pessoais no cenário internacional. Ainda assim, de forma talvez apenas parcialmente prevista por governos anteriores, o Brasil passou a integrar um grupo restrito de países cujas experiências políticas internas refletem, iluminam e definem a direção da sociedade global como um todo.

O mundo observa hoje as escolhas políticas brasileiras não apenas por curiosidade, mas pela percepção de que acontecimentos externos podem espelhar ou ser determinados por eventos ocorridos aqui. Essa situação foi parcialmente construída por governos progressistas, mas também decorre de desenvolvimentos recentes nos Estados Unidos, sobretudo com o desmonte acelerado da ordem normativa global por Donald Trump, o que ampliou a relevância dos acontecimentos políticos no Brasil para a definição do futuro da sociedade internacional.

Polaridades globais

Hoje, os resultados das eleições de 2026 terão papel decisivo no futuro da democracia global. No período pré-eleitoral, é essencial ultrapassar uma perspectiva estritamente nacional e compreender a participação democrática dos brasileiros como parte de um processo global.

A importância global das próximas eleições brasileiras pode ser identificada em diversos elementos. Muitas das posições que dividem os candidatos incorporam diretamente polaridades globais. Contudo, essa relevância também decorre do fato de que tais eleições são marcadas por uma nova articulação entre forças nacionais e globais, bem como entre perspectivas nacionalistas e globalistas — relação que se afastou de sua forma tradicional.

Por isso, as eleições expressarão mudanças profundas na configuração global e nas formas de legitimação política, exigindo dos eleitores uma reimaginação da relação entre o nacional e o global.

Nesse contexto, adversários de Lula adotam discursos típicos de uma reação global, apropriando-se de slogans oriundos de círculos ligados a Trump em Washington. Nessa retórica, Lula é apresentado como defensor de agendas globalistas que subordinariam os valores nacionais a princípios universalistas.

Retórica nacionalista

Em 2025, Flávio Bolsonaro afirmou que seu pai "resgatou o patriotismo no Brasil", acusando Lula de falta de patriotismo. Em geral, a família Bolsonaro mobiliza uma retórica nacionalista que associa cosmopolitismo, direitos humanos e compromissos internacionais à ausência de lealdade nacional.

Contudo, o que se revela é uma transformação profunda dos significados de "nacional" e "global". A associação tradicional — direita nacionalista versus esquerda globalista — tornou-se insustentável. Conceitos como soberania, autonomia e interesse nacional vêm sendo usados como máscaras retóricas para políticas que, na prática, prejudicam os cidadãos nacionais.

Por outro lado, conceitos tradicionalmente ligados à esquerda — como direitos fundamentais, cidadania igualitária e internacionalismo — passaram a estar vinculados à defesa da soberania nacional.

Nesse sentido, Lula combina inserção global com afirmação da soberania brasileira. Já seus adversários, embora se apresentem como nacionalistas, integram blocos transnacionais e demonstram menor compromisso com a soberania nacional.

Esse fenômeno é global: políticos que se dizem nacionalistas frequentemente traem seus países, enquanto aqueles que se abrem ao direito internacional o fazem para proteger suas populações.

As eleições brasileiras, portanto, revelam uma mudança paradigmática no eixo esquerda-direita. O globalismo passa a ser parte essencial de políticas de afirmação nacional, constituindo um teste para a capacidade de políticos explicarem esse vínculo e de cidadãos resistirem à nova forma transnacional da extrema direita.

Primeiro, diversas questões centrais da disputa eleitoral possuem implicações globais. Lula tem priorizado temas como meio ambiente, relações Sul-Sul, integração regional e reformas institucionais internacionais, adotando posição independente dos Estados Unidos. Isso se manifesta, por exemplo, na condenação de ações de Israel e no apoio a governos que resistem à violência patrocinada pelos EUA.

Essas posições reforçam a relevância internacional do Brasil. Qualquer retrocesso fortaleceria interesses transnacionais em detrimento da soberania brasileira. O mesmo ocorre com políticas ambientais, que ampliam a autoridade global do país.

Segundo, os conflitos internos brasileiros são moldados por forças globais. Questões domésticas — como direitos sociais — possuem implicações internacionais. Lula tem promovido a expansão dos direitos fundamentais e da proteção social, inclusive para grupos marginalizados. Essas políticas constroem uma concepção complexa de cidadania, desvinculada de identidades rígidas.

Tais políticas possuem dimensão global: são informadas por normas internacionais e colocam o Brasil na vanguarda da proteção de direitos. Ao mesmo tempo, ocorre uma reação transnacional contra esse modelo de cidadania. Essa reação, porém, não protege interesses nacionais — ao contrário, abre espaço para forças externas. A própria política dos EUA, sob Trump, promove ações para desestabilizar sociedades que adotam modelos complexos de cidadania.

Democracia enfraquecida

Historicamente, os direitos humanos ingressaram nos sistemas nacionais por meio de processos internacionais, sobretudo após 1945 e nas décadas de 1980-90. Contudo, hoje há uma ruptura: o sistema internacional deixou de promover a democracia. A ONU encontra-se enfraquecida por sua omissão e sua inutilidade diante de conflitos como Iraque, Líbia, Venezuela e Palestina. Ao mesmo tempo, os EUA passaram a promover agendas contrárias à democracia.

Assim, a dinâmica se inverteu: agora, a defesa da democracia depende da ação interna dos Estados, que precisam irradiar princípios democráticos ao plano global.

Nesse cenário, cada escolha eleitoral nacional possui impacto global. Decisões sobre direitos sociais, igualdade de gênero ou minorias influenciam a configuração constitucional global. A defesa dos direitos fundamentais tornou-se um ato de soberania.

A importância global do Brasil decorre também de sua trajetória histórica de inserção internacional. Desde o Império até o período contemporâneo, o país busca definir seu papel no sistema internacional.

Lula propõe um modelo multipolar, não subordinado aos EUA, promovendo integração regional e autonomia normativa. A instabilidade causada por Trump abre oportunidades para o Brasil se afirmar como parceiro estratégico em novos arranjos internacionais. Isso reforça a relevância de políticas voltadas à multipolaridade e à integração.

Em síntese, as eleições brasileiras são eleições globais. Cada decisão eleitoral representa uma escolha entre modelos de cidadania, soberania e ordem internacional. O que ocorrer no Brasil estabelecerá precedentes para outras sociedades.

Por fim, é evidente que essas oportunidades poderão ser perdidas caso seja eleito um candidato que subordine os interesses brasileiros a elites transnacionais vinculadas a Donald Trump.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Chris Thornhill não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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