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Ofensiva de Israel ao Hezbollah castiga civis no Líbano e torna paz cada vez mais distante

29 mai 2026 - 13h36
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Expansão de ações militares israelenses e entrincheiramento do Hezbollah reduzem perspectivas de negociações de paz em Washington. Líbano caminha para o colapso humanitário.A mais recente escalada entre Israel e o grupo Hezbollah, apoiado pelo Irã, está agravando a drástica situação humanitária no Líbano.

"O Líbano está em estado de pânico", diz à DW Kelly Petillo, gerente de programas para Oriente Médio e Norte da África do Conselho Europeu de Relações Exteriores. "Trinta e uma pessoas foram mortas na véspera do feriado de Eid [al-Adha, ou Festa do Sacrifício, um festival muçulmano] desta semana."

O Líbano foi arrastado para a guerra do Oriente Médio no início de março, quando o Hezbollah atacou Israel dois dias após os Estados Unidos e Israel bombardearem o Irã. Segundo o Ministério da Saúde libanês, mais de 3,2 mil pessoas morreram e mais de 1 milhão permanecem deslocadas após quase três meses de ofensivas israelenses.

As esperanças de um fim no conflito diminuíram ainda mais nesta semana, depois que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que o uso crescente de drones explosivos pelo Hezbollah ameaça a vida de civis no norte de Israel e "exige de nós agora aumentar os ataques, elevar a intensidade". "Vamos golpeá-los duramente", prometeu Netanyahu.

Israel tem atacado a infraestrutura do Hezbollah e ampliado sua presença militar ao sul do Líbano. O Hezbollah, por sua vez, tem visado o norte de Israel e as forças militares israelenses no sul do Líbano.

A atual escalada provavelmente influenciará as negociações em andamento entre Estados Unidos e Irã. EUA e Israel veem o conflito no Líbano de forma independente às negociações de paz com Teerã, enquanto autoridades iranianas insistem na inclusão dessa frente em um acordo.

"Israel e Hezbollah entraram em um ciclo de escalada muito perigoso", disse à DW David Wood, analista sênior do International Crisis Group baseado em Beirut. "Se a situação seguir por este caminho, pode ter consequências desastrosas para o Líbano."

Beirute também sob pressão interna

A ala militar do Hezbollah é classificada como organização terrorista pelos EUA, Alemanha e vários outros países.

O governo libanês, sob o presidente Joseph Aoun, já proibiu todas as ações militares do grupo em março de 2026 e continua pressionando para que se desarmem. Essa era uma das condições acordadas no cessar-fogo de novembro de 2024 entre Israel e Hezbollah, após mais de um ano de confrontos e dois meses de guerra em larga escala, que deixaram cerca de 4 mil mortos e um rastro de destruição no Líbano.

O acordo não impediu que tensões e ataques entre Israel e Hezbollah levassem a uma nova escalada do conflito no início de março.

"O Hezbollah está sentindo o cerco se fechar no cenário doméstico", afirma Wood. "O grupo não vê apenas Israel travando uma guerra contra ele, mas também acredita que o governo libanês esteja travando um confronto contra sua ala militar e suas instituições sociais."

Enquanto isso, Naim Qassem, secretário-geral do Hezbollah no Líbano, alertou Beirute de que seu grupo revidaria qualquer tentativa do governo de fechar a instituição financeira Al-Qard Al-Hassan, ligada ao Hezbollah.

"O povo tem o direito de ir às ruas e derrubar o governo", disse.

Em relação à crescente presença militar israelense no sul do país, Qassem acrescentou que "se esse governo é incapaz de garantir a soberania, deve renunciar".

Sami Halabi, diretor de políticas do think tank libanês The Alternative Policy Institute, afirma que o Hezbollah pode, de fato, acreditar que outro governo serviria melhor aos seus interesses.

"O Hezbollah está agora ventilando a ideia de derrubar o governo por meio de uma revolta popular", disse à DW. Na avaliação dele, trata-se de uma proposta perigosa, embora "no momento soe mais como uma ironia do que como algo concreto".

No entanto, ele acrescenta que isso poderia evoluir para uma alternativa mais séria caso avancem os planos de desarmar o Hezbollah à força, e não por meio de um processo negociado.

"O desarmamento à força quase certamente levaria a um conflito civil no Líbano", advertiu.

Diplomacia libanesa

Formalmente, o mais recente cessar-fogo entre Israel e Líbano mediado pelos EUA, em vigor desde 17 de abril de 2026, segue válido e foi prorrogado por 45 dias em 15 de maio de 2026. No entanto, apesar de ser signatário, o governo libanês não é parte direta do conflito, enquanto o Hezbollah, por sua vez, não assinou o acordo. Como resultado, a trégua tem sido inconsistente, com ataques quase diários de Israel e Hezbollah. A tendência é que a situação persista ao menos até a terceira rodada de negociações diretas entre Líbano e Israel em Washington, marcada para 2 e 3 de junho de 2026.

O presidente libanês Aoun defendeu as negociações diretas, afirmando que uma paz duradoura e a retirada completa de Israel do sul do Líbano são inegociáveis.

"A libertação do sul é um dever do Estado com o apoio de seu povo", disse.

Segundo David Wood, porém, o Hezbollah aponta a realidade no terreno como justificativa para manter suas armas, argumentando que a via diplomática é ineficaz.

O grupo há muito sustenta que seu arsenal é necessário para dissuadir ataques israelenses, enquanto críticos afirmam que o Hezbollah mina a soberania do Estado libanês ao operar uma força armada independente.

"Embora o Hezbollah também precise recuar sob qualquer acordo de cessar-fogo, Israel, ao intensificar suas operações no Líbano em vez de respeitar o acordo, está minando a capacidade do governo libanês de alcançar avanços concretos nas negociações ainda em curso em Washington", disse Wood.

Fome avança no Líbano

Em meio a esse confronto em escalada entre o governo libanês, o Hezbollah e Israel, as condições para a população civil do Líbano tornam-se cada vez mais drásticas.

Uma análise recente do Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC), das Nações Unidas, alertou que uma em cada cinco pessoas no país — 1,24 milhão (23,9%) — deve enfrentar insegurança alimentar aguda entre abril e agosto de 2026. O Ministério da Agricultura libanês também advertiu que cerca de 22% das terras agrícolas nas áreas afetadas foram danificadas, prejudicando ainda mais a produção de alimentos e os meios de subsistência.

Além disso, apenas 51,3% do apelo emergencial de 308,3 milhões de dólares (R$ 1,56 bilhão) para o período de março a maio de 2026 havia sido financiado até o fim de maio, como informado pela ONU em relatório recente.

Agências de ajuda humanitária alertam que a falta de financiamento está forçando grupos de ajuda a reduzir serviços essenciais não apenas para a população libanesa, mas também para centenas de milhares de refugiados sírios no país.

"Como todo o fornecimento de água para refugiados sírios será interrompido a partir de 1º de junho de 2026, o risco de surtos de doenças transmitidas pela água, como hepatite A, febre tifoide e cólera, é enorme", afirma à DW Suzanne Takkenberg, diretora regional no Líbano da ONG Action Against Hunger.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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