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O que muda quando lemos o Brasil pelo pensamento social negro?

Coletânea de livros sobre a história do pensamento social negro no Brasil, que será lançada pela Anpocs esta semana, traça um paralelo entre as obras de pensadores clássicos da sociedade brasileira e o pensamento do movimento negro no país, evidenciando relações que normalmente ficam obscurecidas.

7 out 2026 - 07h27
(atualizado às 08h50)
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Resumo
A coletânea "Pensamento social negro", lançada no 50º Encontro da Anpocs, propõe revisar o cânone intelectual do Brasil ao resgatar autores e ativistas negros fundamentais para a história do país. Dividida em dois volumes, a obra aborda desde pioneiros como André Rebouças e Guerreiro Ramos até pensadores contemporâneos como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, evidenciando como suas reflexões sobre racismo, mestiçagem e cidadania reposicionam a experiência negra no centro das ciências sociais.

Os dois volumes da coletânea "Pensamento social negro" - "Os precursores" e "Crítica à razão mestiça" - convidam os leitores interessados no tema a refletir sobre questões fundamentais para a compreensão da história intelectual e política do Brasil: o que acontece quando alguém passa a ser reconhecido como intérprete do país? O que se modifica quando a experiência negra é reconhecida como lugar de elaboração intelectual e de imaginação política? Ao reunir trajetórias, obras e formas de intervenção pouco examinadas pelas narrativas disciplinares, a coletânea que será lançada esta semana durante o 50º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) permite escrutinar conjuntamente a história do pensamento social e do movimento negro no Brasil, evidenciando relações que normalmente ficam obscurecidas.

Esse movimento exige reconhecer que o cânone se constitui historicamente, por meio de leituras, instituições e escolhas que conferem autoridade a determinadas obras e modalidades de escrita sobre o tema. É isso o que dizia em sua obra o sociólogo Antonio Candido (1918-2017), para quem a sua geração aprendeu a pensar o país por meio de autores como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr.

Se é assim, cabe investigar tanto a força explicativa dessa seleção quanto seus eventuais limites. A orientação crítica permite que outras reflexões sobre a formação brasileira - muitas enquadradas como literatura, militância, expressão cultural ou testemunho - possam ser percebidas como produtoras de um conhecimento valioso. Os dois volumes de "Pensamento social negro" colaboram nessa tarefa, ao mostrar como intelectuais negros dialogaram com interpretações consagradas e formularam problemas e conceitos capazes de alterar os termos desse diálogo.

Por essa via, o reconhecimento de um pensamento social negro estabelece relações de complementaridade crítica com a tradição do pensamento social brasileiro. Há um terreno compartilhado: os autores examinados procuram compreender os problemas econômicos, culturais e políticos de uma sociedade cuja formação esteve profundamente vinculada à escravidão.

Entretanto, ao conferir centralidade às ações individuais e coletivas da população negra, às suas instituições, práticas culturais e redes de elaboração intelectual, tais reflexões deslocam perspectivas sedimentadas sobre essa formação. Assim, a expressão "pensamento social negro" é desnaturalizada e adquire uma conotação de problema de pesquisa: permite investigar como experiências historicamente racializadas se converteram em interpretações da sociedade e em projetos de transformação. Sua delimitação abre uma agenda capaz de interpelar as fronteiras e os pressupostos do próprio campo em que se situa.

Exemplo disso é a noção de africanidades brasileiras elaborada pela educadora negra Petronilha Beatriz Gonçalves. Ela permite reconhecer a presença africana na formação do país e acompanhar suas recriações em condições históricas distintas, como já observou a antropóloga e ativista negra Lélia González (1935-1994).

Práticas religiosas, formas de sociabilidade, repertórios de luta e concepções de comunidade resultam de processos de transmissão, conflito e transformação, nos quais referências africanas se combinaram com outras experiências. Amplia-se, portanto, a compreensão das relações entre Brasil e África e confere-se densidade histórica e teórica a circuitos que receberam menos atenção do que as trocas intelectuais com o Atlântico Norte. A interpretação do Brasil passa, então, a incorporar com maior profundidade suas conexões diaspóricas e os modos pelos quais a África foi reconstruída como referência cultural e horizonte político.

O resultado desse movimento é a o destaque para a diversidade dos processos de constituição de identidades e posições políticas negras. As denominações raciais possuem história e expressam diferentes respostas à racialização. Pertencimentos, identificações e referências à África se elaboram por meio de experiências sociais, disputas políticas e contatos nacionais e internacionais. Nesse percurso, um continente representado por discursos dominantes como signo de inferioridade pôde ser reivindicado como fonte de reconhecimento, solidariedade e emancipação. Em resumo: a unidade sugerida pela expressão "pensamento social negro" precisa, portanto, ser investigada em suas diferenças internas: os autores compartilham problemas e enfrentamentos, mas constroem respostas distintas quanto à liberdade, à cultura, à cidadania e aos caminhos da transformação social.

Os precursores

"Os precursores", primeiro volume da coletânea, permite acompanhar essas questões em trajetórias que vão de André Rebouças e Lima Barreto a Virgínia Leone Bicudo, Guerreiro Ramos, Clóvis Moura e Abdias do Nascimento. A defesa da democratização da terra feita por Rebouças, no fim do Império, relacionava a liberdade à criação de condições materiais para uma existência autônoma após a escravidão. Já a crítica de Lima Barreto às teorias racialistas expunha os mecanismos pelos quais preconceitos adquiriram autoridade científica e sustentaram hierarquias sociais.

Entre os dois movimentos, percebe-se as raízes e as consequências de uma história social voltada para excluir econômica, social, política e culturalmente a população negra. Esse último aspecto foi decisivo para a trajetória de Martiniano do Bonfim, que ampliou a percepção dos espaços de produção intelectual ao destacar saberes religiosos, domínio de línguas e circulação entre Brasil e África.

A potência crítica possibilitada por essa experiência social impactou a própria história das ciências sociais. A partir dela, Virgínia Leone Bicudo questionou a primazia explicativa do preconceito de classe e da investigação da persistência do preconceito racial em situações de ascensão social. Já Guerreiro Ramos, por outro caminho, interroga os enquadramentos sociológicos da experiência negra e confere à afirmação da negritude um papel central em sua elaboração teórica e existencial.

Lidas em conjunto, as formulações dos cientistas sociais, historiadores, psicólogos, educadores e jornalistas negros permite perceber como as circunstâncias associadas às raízes da dominação sofrida pelas populações de origens africana estão no centro da constituição das humanidades do país.

Especialmente representativo disso foram as iniciativas científicas de combate ao racismo no pós-Segunda Guerra Mundial. Se é verdade que a crítica ao determinismo biológico e a investigação das desigualdades raciais abriram possibilidades de conhecimento e intervenção, também é verdade que foram incapazes de assegurar participação equivalente aos intelectuais e ativistas negros.

Salvo algumas exceções, os estudos sobre relações raciais coexistiram com a pouca atenção às reflexões produzidas em associações, jornais, espaços culturais e organizações políticas negras. O estudo da obra de Edison Carneio, Clóvis Moura e Abdias do Nascimento indicam potências para repensar suas potencialidades.

Crítica à razão mestiça

"Crítica à razão mestiça", segundo volume da coletânea, reúne estudos sobre autores como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Kabengele Munanga, Sueli Carneiro, Nêgo Bispo e Nilma Lino Gomes. A passagem entre os volumes abre possibilidades de investigar continuidades e mudanças nas formas de pensar a abolição, a cidadania, a cultura, a subjetividade, o território e a ação coletiva.

No segundo volume, sugere-se um eixo de articulação interpretativo do pensamento social negro: a questão da mestiçagem no país, preservando a pluralidade dos autores e das conjunturas e evitando converter diferentes linguagens e projetos em etapas de uma evolução previamente estabelecida.

Um aspecto interessante é como a crítica converte-se em movimento de ação. Se já havia obras - como a da própria Bicudo, além de Florestan Fernandes - que salientavam o papel do movimento negro nas primeiras décadas do século XX, é certo que o contexto da redemocratização do país e a emergência do Movimento Negro Unificado, em 1978, funcionaram como novas balizas para as ações coletivas aos quais se vinculavam os intelectuais negros.

Assim, os volumes ampliam esse campo de investigação ao permitir compreender o movimento negro como um conjunto heterogêneo de espaços de produção intelectual. Associações, imprensa, organizações culturais, práticas religiosas e redes de militância constituíram ambientes nos quais se formularam diagnósticos do país, interpretações da liberdade e projetos de futuro.

A compreensão dessas trajetórias exige ainda investigar os mundos que seus protagonistas procuraram construir. A esperança e a imaginação, destacadas por Robin Kelley como forças do engajamento político negro, permitem reconhecer a dimensão criadora dessas experiências. Os vínculos de solidariedade, a valorização das heranças culturais e a elaboração de formas alternativas de vida alimentaram projetos que ultrapassavam a denúncia da opressão. Uma lição que, por boas e más razões, continua atualíssima.

Este artigo tem como co-autores Luciana Mello, professora associada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Valter Silvério, professor titular do Departamento e Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Este texto é fruto de uma parceria do The Conversation Brasil com a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS). Os autores, que são os organizadores da coletânea Pensamento Social Negro, participam do 50º Encontro Anual da ANPOCS, entre 7/10 e 9/10 (presencial), onde a obra "Pensamento Social Negro" será lançada oficialmente. Confira a programação completa aqui.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Leonardo Belinelli não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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