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O que é a síndrome da morte súbita em adultos?

Um coração saudável ainda pode esconder uma falha elétrica fatal: exames genéticos estão ajudando famílias a descobrir o risco oculto por trás da síndrome da morte súbita em adultos

20 ago 2026 - 09h39
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Uma parada cardíaca não é a mesma coisa que um ataque cardíaco, e em muitos casos de morte súbita o problema está em uma falha elétrica difícil de investigar, pois ela muita vezes não deixa nenhum vestígio para ser encontrado em uma autópsia. Tetiana_Kryvous/Shutterstock.com
Uma parada cardíaca não é a mesma coisa que um ataque cardíaco, e em muitos casos de morte súbita o problema está em uma falha elétrica difícil de investigar, pois ela muita vezes não deixa nenhum vestígio para ser encontrado em uma autópsia. Tetiana_Kryvous/Shutterstock.com
Foto: The Conversation

Quando Mark Hughes, ex-técnico do Manchester United e da seleção do País de Gales, perdeu seu filho de 38 anos, um inquérito concluiu que a causa foi a síndrome da morte súbita em adultos, ou SADS, na sigla em inglês.

Ele parecia saudável. Não havia nenhuma doença aparente. Para uma família, essa combinação é quase impossível de entender. Como alguém pode morrer de uma doença cardíaca quando nem mesmo uma autópsia consegue encontrar nada de errado com o coração?

A resposta começa com algo fácil de esquecer: o coração não é apenas uma bomba; é também um órgão elétrico. Cada batimento cardíaco começa com um sinal que se propaga pelo coração em uma sequência precisa, indicando a cada câmara quando se contrair. Na SADS, a falha geralmente está nesse sistema elétrico, não na estrutura física do coração.

Se o sinal se tornar instável, um ritmo anormal - uma arritmia - pode se desenvolver. A maioria das arritmias é inofensiva. Mas algumas que se originam nas câmaras inferiores do coração, os ventrículos, podem ser fatais. Durante a fibrilação ventricular, a atividade elétrica se torna caótica e o coração treme em vez de bombear. O sangue deixa de chegar ao cérebro, fazendo com que a pessoa perca a consciência.

Sem reanimação cardiopulmonar (RCP) e um choque de um desfibrilador, a pessoa pode morrer em questão de minutos. Isso é uma parada cardíaca.

Vale a pena deixar claro que uma parada cardíaca não é a mesma coisa que um ataque cardíaco, embora os termos sejam usados de forma intercambiável. Um ataque cardíaco ocorre quando uma artéria bloqueada priva parte do músculo cardíaco de sangue. Uma parada cardíaca ocorre quando o coração para repentinamente de bombear sangue pelo corpo.

Um ataque cardíaco pode causar uma parada cardíaca, mas os dois não são a mesma coisa. No caso de SADS, geralmente suspeita-se de um distúrbio do ritmo elétrico, e não de um bloqueio.

Essa falha elétrica também é o motivo pelo qual a SADS é tão difícil de investigar. Uma autópsia é eficaz para identificar problemas estruturais — uma artéria obstruída, um músculo danificado, um coração dilatado. Mas um distúrbio elétrico muitas vezes não deixa nenhum vestígio para ser encontrado.

Depois que a pessoa morre, a atividade que antes controlava os batimentos cardíacos simplesmente desaparece. Assim, um patologista pode examinar um coração que parece totalmente normal, mesmo que estivesse apresentando um mau funcionamento fatal minutos antes.

A SADS é uma morte súbita e inexplicável causada por parada cardíaca. Ela mata cerca de 500 pessoas no Reino Unido a cada ano.

Alguns casos têm origem em condições hereditárias que afetam os canais microscópicos responsáveis pelo transporte de partículas eletricamente carregadas para dentro e para fora das células cardíacas — o mecanismo por trás de cada batimento cardíaco.

As condições associadas à SADS incluem a síndrome do QT longo, a síndrome de Brugada e a taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica. Os nomes são complicados, mas eles compartilham uma característica: podem desestabilizar o ritmo cardíaco sem deixar nenhum vestígio estrutural.

E é aqui que a genética pode ter sucesso onde uma autópsia convencional não consegue. O DNA coletado após uma morte inexplicada pode ser analisado em busca de variantes associadas a doenças cardíacas hereditárias, uma abordagem às vezes chamada de autópsia molecular. Uma variante genética é detectada em até 13% dos casos de SADS.

Descobrir a causa não se resume apenas a explicar uma morte. Isso pode proteger as pessoas que ficaram para trás.

Os sinais de alerta, quando existem, são fáceis de passar despercebidos. Algumas pessoas praticavam exercícios, trabalhavam e levavam uma vida totalmente normal até o momento da parada cardíaca. Outras apresentavam sintomas sem perceber o que eles significavam: desmaios inexplicáveis, especialmente durante a prática de exercícios, ou palpitações e tonturas recorrentes. Desmaios causados por distúrbios do ritmo cardíaco podem até ser confundidos com convulsões.

Componente genético

O histórico familiar é igualmente importante. Uma morte súbita inexplicável em um dos pais, irmão ou filho — especialmente em idade jovem — pode indicar uma condição hereditária, já que muitas das doenças por trás da SADS são hereditárias. Isso não significa que toda pessoa com palpitações ou tonturas tenha um problema cardíaco grave. Esses sintomas são comuns e geralmente inofensivos. Mas desmaios durante a prática de exercícios, ou sintomas associados a um histórico familiar de morte súbita prematura, merecem ser investigados.

Testes genéticos podem revelar se a SADS é hereditária em uma família. Prostock-studio/Shutterstock.com
Testes genéticos podem revelar se a SADS é hereditária em uma família. Prostock-studio/Shutterstock.com
Foto: The Conversation

A investigação de um único caso de morte não se limita necessariamente à pessoa que faleceu. Como várias das condições associadas à SADS são hereditárias, parentes próximos podem ser encaminhados para exames em uma clínica cardíaca especializada. Esses exames podem incluir um eletrocardiograma (ECG) para verificar a atividade elétrica do coração, uma ecocardiografia para avaliar sua estrutura, teste de esforço, monitoramento do ritmo cardíaco e, em algumas famílias, testes genéticos.

Essa abordagem funciona. Um estudo com 304 famílias afetadas por morte cardíaca súbita constatou uma doença cardíaca hereditária em 47% das famílias no total, com 11% dos parentes examinados recebendo um diagnóstico definitivo. Nos casos em que a morte original foi classificada especificamente como SADS, a investigação ainda revelou uma condição hereditária em cerca de uma em cada cinco famílias.

Um estudo mais recente, que acompanhou 686 parentes, constatou que a maioria dos diagnósticos realizados ao longo de dez anos de acompanhamento ocorreu nos primeiros cinco anos — um lembrete de por que a investigação oportuna é importante.

Identificar alguém em risco antes que os sintomas apareçam pode salvar vidas. O tratamento depende da condição e pode incluir medicação, orientações sobre exercícios físicos ou para evitar certos medicamentos. Às pessoas com maior risco pode ser oferecido um cardioversor-desfibrilador implantável — um dispositivo que monitora constantemente os batimentos cardíacos e pode aplicar um choque elétrico para restaurar o ritmo normal, se necessário.

Existe certa confusão até mesmo no nome. A mídia costuma se referir à "síndrome da morte súbita em adultos", mas, na cardiologia, o termo preferido é "síndrome da morte súbita arrítmica", pois descreve o que os médicos suspeitam ter ocorrido: um ritmo cardíaco anormal fatal, sem causa física ou relacionada a medicamentos evidente. De qualquer forma, a SADS não é simplesmente um rótulo para uma morte que ninguém consegue explicar. Ela reflete os limites do que uma autópsia padrão pode nos revelar sobre um coração cujo sistema elétrico pode ter deixado de funcionar normalmente apenas alguns minutos antes.

Esses limites estão diminuindo. A combinação de exames post mortem especializados, análises genéticas e investigações com parentes sobreviventes pode, às vezes, revelar a doença oculta por trás de uma morte como essa. Isso não vai reverter a perda de uma família. Mas pode mudar o que acontecerá a seguir. E descobrir por que uma pessoa aparentemente saudável morreu pode revelar que outros membros da família carregam o mesmo risco oculto, a tempo de tomarem providências antes que seja tarde demais.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

David C. Gaze não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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