O que é a guerra híbrida?
Conceito vem sendo empregado pelo governo alemão para lidar com incidentes como drones, ciberataques e terrorismo. Apesar das suspeitas, porém, essas ameaças têm algo em comum: o anonimato.Um drone com explosivos surge num aeroporto na Alemanha. Ninguém sabe de onde ele vem, mas pode-se imaginar. Afinal, não parece ser uma coincidência o fato de que ele estava justamente ali, ao lado de um avião Antonov ucraniano. O incidente, que colocou as autoridades alemãs em alerta, foi instantaneamente incluído no rol deameaças "diárias" de "guerra híbrida" ao país pelo ministro alemão do Interior, Alexander Dobrindt (CDU).
Ciberataques em hospitais, apagões em instalações de governo, difusão de fake news para influenciar as eleições, incêndios criminosos, drones e, claro, terrorismo. Para as forças de segurança e de inteligência, esses eventos misteriosos têm como objetivo desestabilizar o ambiente político e causar pânico social. Mas, ao menos para o Ministério da Segurança da Alemanha, os sinais de uma guerra híbrida aumentaram consideravelmente desde a invasão da Rússia à Ucrânia.
Em um artigo intitulado O que são ameaças híbridas?, a pasta responsável pela segurança do país europeu afirma que a guerra híbrida é caracterizada por "táticas de dissimulação". "Os autores agem de forma anônima ou negam qualquer envolvimento em incidentes e conflitos. Para isso, atuam de maneira extremamente criativa e coordenada, sem ultrapassar o limiar que levaria a uma guerra oficial", diz o texto no site do ministério.
Já o governo suíço inclui, entre as "ameaças híbridas", o crime organizado, as atividades subversivas, o terrorismo jihadista, a pirataria e criminalidade cibernética nos setores "militar, econômico e social".
Esse tipo de ofensiva já foi classificado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 2015, como a maior ameaça atual no cenário de conflito internacional. Como diz o Ministério de Defesa alemão, no entanto, a variedade de frentes e o anonimato utilizados pelos praticantes dessa guerra híbrida aumenta exponencialmente a dificuldade das autoridades em se defender desses ataques. "A imprevisibilidade se torna uma arma. Ainda estamos em paz ou já estamos em guerra?", questiona o texto do governo alemão.
Quem promove guerra híbrida?
As origens do conceito de "guerra híbrida" remontam ao general James Norman Mattis, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Donald Trump, que teria utilizado o termo pela primeira vez em 2005, quando era comandante no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA. Mattis utilizou "guerra híbrida" para resumir um trecho da Estratégia de Segurança dos Estados Unidos daquele ano, que citava que uma gama de "capacidades e métodos tradicionais, irregulares, catastróficos e disruptivos" como ameaça aos interesses de Washington.
Já em 2007, a "guerra híbrida" foi incorporada por Frank Hoffman, um coronel também da Marinha dos Estados Unidos, em uma série de artigos e livros acadêmicos. Segundo ele, os ataques híbridos são normalmente coordenados operacional e taticamente, por atores ligados ou não a um estado ou nação, e executados dentro do espaço de batalha principal para alcançar "efeitos sinérgicos nas dimensões física e psicológica do conflito".
A Estratégia Nacional de Segurança do governo da Alemanha, publicada em 2023, cita estados "impulsionados por rivalidades sistêmicas e revisionismo" contrários aos direitos humanos e que consideram "a participação democrática como ameaça ao seu poder" que recorrer a "estratégias híbridas" como os principais praticantes dessas ofensivas multifacetadas. "Influenciados por sua concepção de rivalidade sistêmica, alguns estados buscam minar essa ordem e, assim, impor suas visões revisionistas sobre esferas de influência", diz o documento.
Exemplos também remontam ao século 20
O trânsito em massa de migrantes para a Lituânia recentemente, por exemplo, foi considerado um indício de uma tentativa de desestabilização política na União Europeia fomentada pelo estado de Belarus, aliado da Rússia - o uso de túneis, que seriam construídos ou tolerados por Minsk, atestaria a suspeita. Do outro lado, o próprio Kremlin já acusou a Europa e os Estados Unidos de guerra híbrida, por meio das sanções impostas à Rússia desde a invasão à Ucrânia, em 2002.
Mas, para além dos drones e ataques cibernéticos, formas menos "veladas" de combate, mas que não estão ligadas a um centro de comando identificável, poderiam entrar no bojo da "guerra híbrida" - como, por exemplo, guerrilhas e grupos de milícia armada, como o caso do Hezbollah no Líbano, ligado aos interesses do Irã, ou mesmo as Farc, na Colômbia.
Na verdade, alguns especialistas apontam que estratégias de guerrilha utilizadas pelos Estados Unidos em guerras como a do Vietnã ou mesmo o apoio político e logístico a ditaduras latino-americanas no século 20 também podem ser consideradas formas de guerra híbrida. "Em quase todas as guerras, há um certo grau de irregularidade, regularidade e hibridismo", diz um artigo publicado pelo think thank Beyond the Horizon.
Por isso, de acordo com a entidade, focar-se apenas no conceito pode criar mais confusão para a defesa de um estado-nação. "Não é razoável nem útil que um planejador de defesa categorize a guerra; isso pode até ser enganoso", diz o texto, citando o especialista em estratégica e teórico Colin S. Gray.
"As ameaças híbridas são definidas como adversários misteriosos, capazes de conduzir todos os tipos de guerra simultaneamente. Um estrategista oficial ou um planejador de defesa teria grande dificuldade em elaborar uma estratégia caso optasse por compreender a guerra moderna por meio do conceito de guerra híbrida", ratifica o artigo, a partir de uma reflexão de Gray.
Para o governo alemão, a solução apontada é a segurança integrada, tanto interna quanto externamente. O país já está investindo em centros de monitoramento de drones, no combate aos ciberataques e até mesmo numa reforma que pode dar aos serviços de inteligência poderes de executar ações e intervir em ameaças.
Uma das principais iniciativas, inclusive, inaugurada pelo governo alemão em junho deste ano, recebeu o nome de Centro Conjunto de Defesa contra Ameaças Híbridas (GAZ), dentro do serviço de inteligência doméstico do país, o Verfassungsschutz. Segundo o ministro Dobrindt, é lá que os diversos órgãos de segurança poderão se reunir em caso de ameaças do tipo para "reagir com rapidez".
O novo centro, porém, não ficou poupado das críticas. O procurador-geral federal da Alemanha, Jens Rommel, por exemplo, apontou que o país já possui, além do GAZ, o Centro Nacional de Defesa Cibernética (NCAZ), o Centro Conjunto de Defesa contra Drones (GDAZ) e o Centro Conjunto de Combate ao Extremismo e ao Terrorismo (GETZ). "A existência de muitos centros diferentes pode ser contraproducente, pois tende a gerar perda de eficiência devido à falta de coordenação", disparou Rommel. Dobrindt, no entanto, discorda. Para o ministro do Interior, o centro para lidar com a guerra híbrida vai "aperfeiçoar um conceito que já deu provas".
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