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O preço da liberdade: como sociedades trocam ordem por criatividade, e vice-versa

Sociedades mais flexíveis tendem a ser mais criativas, mas pagam o preço da desorganização

29 mai 2026 - 08h07
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Visite uma empresa tradicional e você provavelmente lá encontrará horários rígidos, cadeias claras de comando e uma expectativa silenciosa de conformidade. Home office? Nem pensar. Sair mais cedo, só em caso de vida ou morte. O objetivo é reduzir atritos e manter a máquina funcionando com previsibilidade. Agora atravesse a porta de uma startup contemporânea: horários flexíveis, reuniões em pufes, mesas de pingue-pongue ao lado de quadras improvisadas de basquete e uma informalidade quase calculada. A lógica aqui é oposta: criatividade exige espaço para improviso, autonomia e até certo grau de desordem.

Esses dois ambientes representam algo maior do que estilos distintos de gestão. Eles refletem um dilema que atravessa sociedades inteiras: quanto mais liberdade e flexibilidade um grupo tolera, maior tende a ser seu potencial de inovação. Mas também aumenta seu risco de desorganização e compromete a coordenação coletiva. Poucas sociedades modernas ilustram esse equilíbrio instável tão claramente quanto os Estados Unidos.

Culturas rígidas e frouxas

Essa dicotomia entre ordem e espontaneidade não é nova. Já no século II a.C., o historiador Políbio (Megalópolis, c. 203 a.C. - 120 a.C.) contrastava a disciplina das legiões romanas com a "impetuosidade e paixão" dos celtas no campo de batalha.

Na psicologia social contemporânea, essa intuição ganhou nomes técnicos: culturas "rígidas" e "frouxas") — uma distinção sistematizada pela psicóloga Michele Gelfand em seu livro Rule Makers, Rule Breakers. As primeiras se caracterizam por normas sociais fortes e baixa tolerância ao desvio; as segundas, por regras mais flexíveis e maior abertura à dissidência.

Historiadores e antropólogos passaram décadas descrevendo essas variações de forma anedótica. Faltava, porém, algo mais difícil: medir esse "estilo cultural" de forma sistemática e verificar como suas transformações ao longo do tempo se traduzem em mudanças psicológicas na população.

Lendo a cultura nas palavras

Para capturar essa mudança de mentalidade, alguns pesquisadores encaram esse problema usando uma ferramenta improvável: as palavras. Eles mapeiam trilhas linguísticas. Ou seja, padrões de uso de palavras ao longo do tempo que revelam como as pessoas falam sobre normas, liberdade e comportamento.

Para isso, foi usada uma base de dados criada por uma equipe de Harvard com mais de 200 bilhões de livros publicados em língua inglesa entre 1800 e 2000. Ela foi elaborada justamente para investigar tendências culturais quantitativamente. Para diminuir o viés na escolha de palavras, usaram um algoritmo de Inteligência Artificial treinado com bancos de dados como o Google News (com mais de um trilhão de termos).

A partir dessa base semântica, o grupo de Gelfand analisou os livros publicados nos EUA. Eles rastrearam qual a frequência de termos associados à rigidez (como obedecer, conformar, restringir) em oposição a termos ligados à flexibilidade (como autonomia, liberdade e criar). A análise revelou que, ao longo de dois séculos, houve uma queda constante na linguagem da disciplina e um aumento persistente no vocabulário da flexibilidade.

Essa mudança não foi apenas linguística ou literária. Esses rastros linguísticos foram cruzados pela equipe com comportamentos sociais concretos. Eles descobriram que a linguagem "rígida" nos livros se correlacionam com períodos de alta religiosidade e aprovação de mais leis pelo Congresso americano. Isso evidencia uma sociedade empenhada em regular o comportamento individual.

Por outro lado, o aumento das palavras "frouxas" coincidia com uma maior frequência de palavrões na televisão e no cinema, um sinal claro de que as fronteiras do que era aceitável estavam se expandindo. O clima psicológico de uma época transparece na cultura e nas coisas mínimas como as palavras que mais tendemos a usar.

O que a rigidez protege

Os dados também mostraram que nos anos marcados por uma linguagem mais "rígida", havia maior taxa de frequência escolar e menor de gravidez na adolescência. Isso sugere que normas fortes mantêm os jovens dentro das instituições e longe de comportamentos disruptivos. Da mesma forma, a rigidez atuava como um freio moral e econômico. Também eram momentos de menor endividamento familiar. É provável que a pressão social desencoraje impulsos que comprometam o futuro financeiro e social do indivíduo.

No entanto, há uma rachadura intrigante nessa vitrine de ordem. A rigidez cultural não resultou em menos crimes. Pelo contrário, correlacionou-se com taxas de criminalidade mais altas. À primeira vista, parece um paradoxo: como uma sociedade que preza pela obediência pode ser estatisticamente mais violenta? Uma das hipóteses é que nesses períodos, a presença policial é mais ostensiva e as leis mais severas, o que gera mais prisões e registros de crimes. Afinal, a ordem pode ser devida mais a uma vigilância imposta externamente do que a uma virtude internalizada pelas pessoas.

Esse equilíbrio delicado sugere que, ao caminharmos para um estilo psicológico mais frouxo, ganhamos o direito de errar e de questionar, mas perdemos a rede de segurança da disciplina coletiva que mantinha a estrutura da casa firme.

O que a liberdade proporciona

O lado oposto do balanço é onde a história fica mais criativa. As análises mostraram que, quanto mais a cultura se desprendia de suas amarras normativas, mais sua capacidade inventiva crescia. A transição para uma mentalidade mais aberta foi o prelúdio para explosões na concessão de patentes e registros de marcas, indicadores que servem como o pulso oficial da inovação industrial e comercial de uma nação.

A criatividade artística seguiu o mesmo compasso, com a produção de filmes aumentando conforme as normas relaxavam. Quando o desvio deixa de ser punido, a criatividade encontra espaço para germinar.

Talvez o sinal mais íntimo disso esteha nos nomes de bebês. O estudo obserou que, em épocas de rigidez, os pais tendem a escolher nomes convencionais. À medida que a cultura se afrouxa, cresce a busca por nomes originais e únicos. A normalização da criatividade permite a capacidade de gerar o não-convencional, algo que só floresce onde o desvio não é punido.

Esse padrão se repetiu em outro estudo de Gelfand, que comparou estados nos Estados Unidos. Aqueles com culturas mais rígidas apresentam menores índices de uso de drogas e álcool, menos situações de rua e menor desorganização social. Porém, também maiores taxas de encarceramento, mais desigualdade e menor criatividade.

O pêndulo não para

Em outro estudo com 33 nações, mostraram que essa dimensão cultural está associada a alguns fatores. Por exemplo, ameaças ecológicas e históricas — densidade populacional, escassez de recursos, conflitos territoriais e prevalência de doenças. Também dependem de traços de personalidade predominantes em cada sociedade, além de uma uma série de outros fatores sociais.

Portanto, apesar de a trajetória das sociedades apontar para mais abertura, a rigidez cultural não é um fantasma exorcizado. É um mecanismo de defesa dormente. A psicologia social nos ensina que, muitas vezes, a disciplina é uma resposta a ameaças ecológicas e existenciais. Epidemias, guerras e ameaças existenciais historicamente funcionam como gatilhos para o enrijecimento das normas. Nesses casos, a obediência coletiva pode ser uma questão de sobrevivência.

Vimos isso acontecer no mundo todo depois da pandemia de Covid-19. Isso ajuda a explicar a guinada na política mundial na direção de líderes com tendências narcisistas e autocráticas, mesmo em democracias. Eventos de alto impacto e ameaça, como os ataques de 11 de setembro ou os atentados na Maratona de Boston, têm o poder de provocar flutuações rápidas na linguagem e na mentalidade coletiva, favorecendo o retorno de discursos de controle e vigilância.

O afrouxamento das normas que caracterizou grande parte da modernidade ocidental pode não ser um destino final. Mas sim um luxo que as sociedades se permitem - apenas quando se sentem seguras.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Felipe Carvalho Novaes não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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