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O peso da tensão entre Equador e Colômbia na reconfiguração geopolítica latino-americana

A militarização interna e o entrelaçamento entre os governos equatoriano e estadunidense têm levado a um transbordamento para a relação entre os dois países, aumentando a pressão sobre a Colômbia - que passa por um acirramento de sua corrida eleitoral.

30 abr 2026 - 08h48
(atualizado às 11h59)
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Um dos mais recentes capítulos da tensão regional crescente na América Latina teve lugar nas relações entre Colômbia e Equador. Em meados de março de 2026, a imprensa internacional noticiou um episódio que promoveu uma escalada do estresse entre os dois Estados. No dia 17, o presidente colombiano, Gustavo Petro (eleito em junho de 2022), declarou que 27 corpos carbonizados foram encontrados na região de fronteira entre os dois países.

No dia seguinte, o governo colombiano divulgou que uma bomba não detonada encontrada em seu território pertenceria ao Exército equatoriano, e o ocorrido poderia ter sido um bombardeio ou um ataque transfronteiriço. Petro classificou a situação como violação de soberania e chegou a mencionar a possibilidade de uma resposta diplomática.

Mais de 40 dias das denúncias feitas pelo presidente colombiano, ainda não se sabe ao certo o que ocorreu. O vazio de informação causa estranhamento: trata-se, afinal, de um número elevado de mortes em uma região de fronteira, potencialmente envolvendo uso de força entre países, o que, em outras circunstâncias, mobilizaria apurações mais detalhadas e pressão internacional.

O caso não evoluiu publicamente nesse sentido, não houve divulgação de investigação independente conclusiva nem confirmação sobre o que aconteceu de fato — se foram explosões, de que tipo, em quais circunstâncias e quem seriam os responsáveis.

O presidente do Equador, Daniel Noboa, rejeitou as acusações e disse que as operações militares em curso faziam parte do combate ao crime organizado e, mais especificamente, ao narcotráfico. E que teriam ocorrido somente em território equatoriano, negando qualquer incursão na Colômbia.

Muito além do narcotráfico

O tensionamento recente entre Colômbia e Equador inclui uma guerra comercial na qual o governo equatoriano decidiu aumentar as tarifas de importações do vizinho para até 50%. Noboa foi eleito em 2023, em eleição antecipada, e reeleito em 2025, com mandato previsto até 2029. A Colômbia respondeu com um aumento de até 30% e a decisão de suspender a venda de energia para a economia equatoriana. A escalada das tensões teria alcançado uma conotação militar, com um bombardeio pelo Exército do Equador em território da Colômbia.

Em que pese essa situação tenha relação com as medidas mais recentes de militarização da segurança interna, levadas a cabo pela administração de Noboa, é preciso ter em mente que esse processo parece estar vinculado a duas tendências na geopolítica latino-americana que têm crescido nos últimos anos.

Por um lado, é possível verificar a redefinição do narcotráfico como uma prioridade na agenda de segurança regional de governos vinculados à direita e extrema-direita. Isso se dá a partir de um enquadramento militarista, que vincula a lógica de guerras às drogas com um crescente autoritarismo interno, tendo o modelo salvadorenho implementado pelo presidente Nayib Bukele como seu paradigma.

De outro lado, esse processo tem se conectado com as recentes investidas da gestão de Donald J. Trump (eleito em 2025) sobre os governos latino-americanos, especialmente aqueles vinculados à esquerda política - como é o caso da Colômbia, que tem como presidente Gustavo Petro (eleito em 2022).

Uma das principais características da política externa trumpista para a região tem sido a utilização do narcotráfico como narrativa securitizadora para impor seus interesses sobre os sistemas políticos internos desses países. Além disso, essa abordagem busca criar uma aliança de Estados dispostos a "cooperar" com a estratégia norte-americana.

Dois eventos demonstram essa situação. Primeiramente, o lançamento da iniciativa "Escudo das Américas", que reuniu 12 líderes da região alinhados à estratégia de segurança da administração de Donald Trump.

Outro é a redefinição geopolítica de "Grande América do Norte", proposta pelo presidente como forma de salvaguardar seus interesses ao lado das nações latino-americanas, às quais caberia contribuir com o esforço de defesa do Hemisfério Ocidental.

A aderência do Equador

Desse modo, as atuais tensões envolvendo Colômbia e Equador só conseguem ser plenamente compreendidas se enquadradas no contexto geopolítico regional mais amplo. Isso porque, como dito anteriormente, o governo equatoriano tem aderido a esse novo conceito de segurança por meio de suas políticas de militarização doméstica.

Ao mesmo tempo, também tem dado demonstrações de alinhamento com os Estados Unidos, conforme visto na sua tentativa de retomar a presença de bases militares estrangeiras (especialmente norte-americanas) no país, bem como na presença do mandatário na reunião da iniciativa Escudos das Américas.

Entretanto, o que é "novo" neste caso é que a militarização interna e o entrelaçamento entre os governos equatoriano e estadunidense têm levado a um transbordamento para a relação entre os dois países, aumentando a pressão sobre a Colômbia - que passa por um acirramento de sua corrida eleitoral.

Evidentemente que essa novidade não pode ser chamada inteiramente assim, uma vez que esse processo já ocorreu nos anos 1990 e 2000, sendo a crise diplomática entre Colômbia, Equador e Venezuela em 2008 o evento mais emblemático da transnacionalização do conflito armado colombiano.

Porém, dada a estratégia de preponderância trumpista nas Américas, seja pelo uso da força, como nas relações com Venezuela e Cuba, seja pela chantagem política, conforme os casos de México, Brasil, Colômbia e Panamá, o conflito entre os dois países também pode ser visto como mais um capítulo no cerco ao único Estado andino que ainda não passou por uma conversão à direita (ou que foi invadido pelos EUA) nos últimos anos.

É preciso estar atento quanto à possibilidade de determinados Estados serem utilizados como proxy dos interesses dos Estados Unidos no tabuleiro político latino-americano (ou seja, atuando como intermediários sem envolvimento direto de Washington).

The Conversation
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Foto: The Conversation

João Estevam dos Santos Filho também é professor de Relações Internacionais da Faculdade Anhembi Morumbi.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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