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O distrito de Berlim que vive à sombra do neonazismo

9 mai 2026 - 12h06
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Organizações jovens espalham violência e ódio em bastião da capital alemã. Parte da população reage a uma tendência que gera preocupação ao redor do país.Anne (nome fictício) não tem medo. Mas é cautelosa. Ela é alvo de hostilidades porque se opõe à violência do extremismo de direita no seu distrito em Berlim.

Anne (nome fictício) combate violência e racismo ligados ao extremismo de direita no cotidiano de Marzahn-Hellersdorf, em Berlim
Anne (nome fictício) combate violência e racismo ligados ao extremismo de direita no cotidiano de Marzahn-Hellersdorf, em Berlim
Foto: DW / Deutsche Welle

A moradora de Marzahn-Hellersdorf tem 30 anos e observa como esta parte da capital alemã é impactada dia após dia, inclusive sob as formas do racismo e da propagação de ideias radicais.

"Aqui há neonazistas que querem estabelecer uma hegemonia nas ruas, querem simbolizar o domínio do território, que tentam mostrar com adesivos ou grafites: 'Estamos aqui e este é o nosso bairro'", conta Anne à DW durante uma caminhada pelo distrito.

São vários os jovens em Berlim que, como Anne, registram ocorrências ligadas ao racismo e ao extremismo de direita. Eles querem tornar visível a dimensão do perigo e ampliar a voz das suas vítimas.

"Há pessoas que são ameaçadas porque têm cabelo rosa", relata Anne, "ou porque vestem uma jaqueta de uma marca considerada de esquerda. Tivemos aqui vários assaltos com motivação neonazista".

Um mundo à parte na metrópole

Marzahn-Hellersdorf é um mundo à parte na capital alemã. O enorme distrito é marcado por contrastes. Nele fica o maior bairro de prédios pré-fabricados da Europa, um foco de vulnerabilidade social, onde uma em cada quatro crianças é oficialmente registrada como pobre.

Ao mesmo tempo, a região é cheia de áreas verdes e atrativa para famílias. Além dos grandes conjuntos habitacionais, Marzahn-Hellersdorf tem o maior agrupamento de casas e pequenos prédios da Alemanha.

De metrô, é possível ir de Hellersdorf ao coração de Berlim em 20 minutos, até a Alexanderplatz, com sua imensa torre de TV, um dos principais pontos turísticos da cidade. Mas, para muitas pessoas, o centro vibrante parece distante.

"Há muitos jovens que nunca saem do distrito", conta Anne. "É uma realidade muito dura que, para alguém, um bairro desses possa ser o mundo inteiro."

Símbolos nazistas

Há anos, jovens neonazistas tentam ganhar espaço em Berlim, especialmente em Marzahn-Hellersdorf. À frente destes esforços, estão duas organizações que foram alvo de operações policiais na Alemanha neste mês, Deutsche Jugend voran e Jung und Stark ("Juventude alemã à frente" e "Jovem e forte", em tradução livre).

Em geral, elas disseminam ódio contra pessoas LGBTQ+, imigrantes ou adversários políticos nas redes sociais.

Mas, em Marzahn-Hellersdorf, elas também se mostram nas ruas, incluindo contra o megaevento da comunidade LGBTQ+, o Christopher Street Day.

A violência e o ódio despontam em ruas bem cuidadas, com flores e árvores, onde tudo parece organizado, calmo e limpo.

Durante a apuração da DW, um homem passou de bicicleta pelo repórter e gritou de forma casual a saudação nazista "Heil Hitler". Algumas centenas de metros adiante, em um poste de iluminação numa avenida movimentada, havia um adesivo com os dizeres "Alemanha para os alemães", acompanhado do logotipo de um pequeno partido neonazista.

Ameaça contra LGBTQ+ e imigrantes

Anne conhece os relatos de diversas vítimas. "É uma violência imensa, crescente, que as pessoas sentem no dia a dia. E você pensa três vezes em como se vestir quando é jovem e contra os nazistas."

A expansão da violência e do ódio também é observada pelo vice-prefeito distrital de Marzahn-Hellersdorf, Gordon Lemm. O social-democrata é nascido e crescido ali.

Em entrevista à DW, ele diz que, há algum tempo, pessoas LGBTQ+ estão especialmente na mira. "Aqui não há, como em outros bairros de Berlim, cafés queer que façam parte naturalmente da paisagem urbana. Temos menos espaços seguros. Jovens queer têm cada vez mais medo de se mostrar como tal."

Pessoas como Farzaneh também sentem a ameaça na pele. Assim como Anne, ela tem 30 anos e mora em Hellersdorf. Mas usa um lenço solto na cabeça. Sua família nasceu no Afeganistão, e ela própria, no Irã. Eles vivem há muitos anos em Hellersdorf.

"No prédio da minha família, minha mãe foi insultada por uma mulher idosa: sempre que a via, dizia 'idiota' ou outras ofensas."

A jovem conheceu Anne ao registrar episódios de racismo cotidiano. Ela relata ser alvo de olhares hostis no supermercado, no metrô, na rua. Mas reage. "Eu consigo me proteger."

Nadando contra a maré

Quem também reage é Barbara Jungnickel, pedagoga comunitária da igreja protestante local. Uma vez por semana, ela abre seu trailer adaptado no meio de Hellersdorf: o "Café sobre rodas", como chama seu espaço de encontro. Ela convida a vizinhança para café e biscoitos.

Ela quer conversar com todas as pessoas. "Eu não direciono as conversas para um lado específico, não quero isso", conta à DW.

O café começou em 2013, quando um abrigo para refugiados foi inaugurado no distrito. "Vieram extremistas de direita de toda a Alemanha para marchar pelas ruas e gritar 'Não ao abrigo'. E nós, da comunidade da igreja, ficamos chocados ao ver quantos vizinhos simplesmente foram atrás deles e passaram a gritar junto."

A iniciativa oferece um lugar modesto para se contrapor ao ódio. Mas é também prova de que parte dos berlineses não quer deixar a cidade nas mãos de grupos que hoje são minoria. A sua disseminação é uma tendência não só na capital, mas em várias partes da Alemanha.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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