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Novas descobertas mostram que a anatomia humana está longe de ser um campo fechado

Achamos que o corpo humano já foi totalmente mapeado, mas na verdade a anatomia ainda está incompleta e foi moldada por quem foi estudado e quem não foi.

31 mar 2026 - 11h15
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Os livros didáticos criam uma sensação enganosa de certeza ao apresentarem o corpo humano como estável, universal e totalmente consensual, enquanto a anatomia real é muito mais confusa e diversa do que isso. New Africa/Shutterstock.com
Os livros didáticos criam uma sensação enganosa de certeza ao apresentarem o corpo humano como estável, universal e totalmente consensual, enquanto a anatomia real é muito mais confusa e diversa do que isso. New Africa/Shutterstock.com
Foto: The Conversation

Folheie um livro didático, assista a um vídeos de um influenciador de bem-estar ou preste atenção nas conversas na academia, e pode parecer que o corpo humano já foi mapeado até a exaustão. Cada músculo nomeado, cada nervo traçado. Tudo compreendido e prontamente disponível.

A maioria das pessoas reconhece pelo menos alguns termos anatômicos — "trapézios", "glúteos", "bíceps". Após séculos de dissecação, microscopia e imagens médicas, parece razoável supor que o trabalho está concluído. Certamente a anatomia, como disciplina, deve estar completa?

Não está. Nem de longe.

Desde a publicação de De Humani Corporis Fabrica de Andreas Vesalius em 1543 — o primeiro livro abrangente de anatomia baseado na observação direta da dissecação humana —, a anatomia carrega um ar de autoridade. Vesalius corrigiu, de forma célebre, séculos de erros herdados, desafiando o antigo médico Galeno por meio da observação direta do corpo humano. Seu trabalho ajudou a estabelecer a anatomia como uma ciência baseada em evidências.

Trezentos anos depois, a Anatomia de Gray, de Henry Gray reforçou a impressão de que o corpo humano havia finalmente sido catalogado, indexado e organizado de forma metódica — um sistema mapeado e totalmente explicado.

Mas os livros didáticos criam uma sensação enganosa de certeza. Eles apresentam o corpo como estável, universal e totalmente consensual. A anatomia real é mais confusa do que isso.

A ilusão da completude

Grande parte da anatomia topográfica inicial — o mapeamento cuidadoso das estruturas em relação umas às outras — dependia de cadáveres obtidos por meio de roubo de sepulturas.

Os "resurrecionistas" — ladrões de cadáveres — exumavam os recém-enterrados, visando principalmente os pobres, os internos em instituições mentais e aqueles sem proteção familiar ou recursos financeiros para cuidar dos túmulos. Esses corpos eram então vendidos a anatomistas, que dependiam deles para dissecação e ensino.

As condições de trabalho dos primeiros anatomistas eram difíceis, e as limitações consideráveis.

A iluminação era precária. Os corpos frequentemente estavam desnutridos ou doentes. Alterações pós-morte já haviam mudado os planos dos tecidos. As amostras eram pequenas e selecionadas de forma oportunista. Informações demográficas eram praticamente inexistentes, além do que se podia inferir pela aparência. Os corpos de mulheres às vezes eram dissecados, mas raramente relatados.

Mas foi precisamente nessas condições que os anatomistas produziram as observações que se tornaram a base da topografia anatômica clássica.

A "norma" anatômica que emergiu desses estudos foi, portanto, construída a partir de uma amostra restrita e socialmente estratificada.

Nada disso diminui a extraordinária habilidade técnica dos primeiros anatomistas. Sua capacidade de observação era notável. Mas as condições sob as quais trabalhavam inevitavelmente moldaram o que viam — e o que deixavam de ver.

Portanto, quando perguntamos se a anatomia está concluída, poderíamos também fazer uma pergunta mais incômoda: ela já esteve verdadeiramente completa em primeiro lugar? Essa questão é importante tanto do ponto de vista científico quanto ético.

Durante grande parte do século XX, a investigação anatômica desacelerou drasticamente. Na década de 1960, relativamente poucos estudos com cadáveres estavam sendo publicados em todo o mundo. A suposição era simples: o corpo humano já havia sido mapeado.

A educação médica continuou, é claro, mas grande parte dela se concentrava em ensinar conhecimentos estabelecidos em vez de gerar novas observações anatômicas. Essa aparente estabilidade mascarava um problema mais profundo: grande parte do conhecimento havia sido herdada, em vez de testada.

O aprimoramento das técnicas de imagem, a retomada da pesquisa com cadáveres e uma crescente conscientização sobre a variação anatômica desencadearam uma espécie de renascimento no estudo da anatomia. Estruturas antes ignoradas ou mal descritas estão sendo reexaminadas.

Longe de estar concluída, a anatomia está redescobrindo o quão incompleto seu mapa do corpo humano pode ser.

Além do corpo humano "padrão"

Uma das mudanças mais importantes na anatomia moderna foi o reconhecimento de que a variação é a regra e não a exceção. Os livros didáticos apresentam um corpo "típico" para o ensino, mas a anatomia humana real se situa em um espectro.

A anatomia humana varia em diversas dimensões ao mesmo tempo. Existem diferenças entre homens e mulheres, diferenças ao longo da vida à medida que o corpo se desenvolve e envelhece, e entre populações moldadas pela genética e pelo ambiente.

Além desses padrões gerais, existe uma enorme variação individual: os vasos sanguíneos podem seguir trajetórias diferentes, os músculos podem estar ausentes ou duplicados, e até mesmo os padrões de dobras do cérebro diferem de pessoa para pessoa. A anatomia "padrão" mostrada nos livros didáticos deve, portanto, ser entendida não como um modelo universal, mas como um ponto de referência simplificado dentro de uma ampla variedade biológica.

Essa variação é importante muito além da sala de cirurgia. Diferenças nos nervos, vasos e articulações podem alterar a forma como as doenças se manifestam, influenciar a interpretação de exames de imagem e moldar padrões de movimento e lesões.

Diferenças sutis no alinhamento das articulações podem afetar o risco de condições como a osteoartrite, enquanto variações na anatomia vascular podem influenciar a suscetibilidade a acidentes vasculares cerebrais ou aneurismas. Compreender a diversidade anatômica é, portanto, fundamental não apenas para a cirurgia, mas também para o diagnóstico, a imagem médica, a biomecânica e o estudo da própria doença.

Mesmo após séculos de estudo, o corpo humano continua a revelar novos insights anatômicos. Estruturas antes ignoradas — desde vasos linfáticos ao redor do cérebro até ligamentos negligenciados no joelho — estão sendo reexaminadas. Tecidos familiares estão sendo compreendidos de novas maneiras, e o mapa do corpo ainda está sendo revisado.

As pessoas deveriam saber mais sobre seus corpos. Uma maior compreensão ajuda as pessoas a zelar por sua própria saúde e a se envolver com mais confiança nos cuidados médicos. Mas vale lembrar que a anatomia canônica apresentada nos livros didáticos deve ser entendida como um modelo de ensino, não como uma representação perfeita da realidade biológica. Quanto mais a fundo estudamos o corpo humano, mais percebemos que ainda há muito a aprender.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Michelle Spear não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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