Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Nem tesoura, nem escudo, nem treva. Não aqui, não desta vez

Derrota de Flávio Bolsonaro revela que eleitores brasileiros fizeram uma escolha conservadora: optaram pelo que já conheciam, em vez de apostar em aventuras que poderiam flertar com o autoritarismo

26 out 2026 - 03h09
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O artigo analisa a eleição de 2026, rejeitando a tese de polarização simétrica entre a moderação de Lula e a extrema-direita de Flávio Bolsonaro. Inspirado em nomes como Bukele, Trump e Milei, Flávio propôs medidas radicais e contestou o resultado eleitoral. Segundo a análise, a vitória de Lula resultou de um voto conservador e prudente dos brasileiros, que preferiram a previsibilidade democrática e conhecida a arriscar o país nas mãos de extremistas associados aos ataques de 8 de janeiro.

As eleições brasileiras de 2026 foram marcadas por um grande clichê reproduzido mundo afora: a de que o país se encontrava polarizado. A palavra "polarização" implica uma simetria. E simetria é o que nunca houve na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. De um lado, um político de centro-esquerda moderado, com um vice de centro-direita, Geraldo Alckmin. De outro, um representante da direita mais radical, integrante da grei internacional que ameaça democracias mundo afora.

Se fosse alemão, Flávio Bolsonaro estaria na Alternative fur Deutschland, o partido que defende a aproximação com a Rússia de Vladimir Putin e o fim da política de transição energética. Se fosse português, seria companheiro de André Ventura no Chega, sigla que defende o repatriamento de imigrantes e a proibição a templos muçulmanos. Passaria longe da direita moderada que governa os dois países, o Partido Democrata Cristão de Friedrich Merz e a Aliança Democrática de Luís Montenegro. Flávio não é de direita. É da direita à direita da direita.

No dia em que lançou sua candidatura, num evento do Partido Liberal em São Paulo, Flávio esmiuçou três das linhas mestras do que seria seu governo. O Projeto Treva, plano de combate ao crime inspirado na insanidade perpetrada por Nayib Bukele em El Salvador. A adesão ao Escudo das Américas, uma confraria de poodles amestrados de Donald Trump. E o "tesouraço", um corte de despesas públicas copiado da "motosserra" de Javier Milei. Como não deu detalhes a respeito, não se sabe se teria o mesmo gume - o que gerou pavor em quem depende de programas sociais para sobreviver.

O próprio Milei esteve no evento. Chegou cantando a música "The Panic Show", do grupo argentino La Renga: "Yo soy el león, soy el rey y te destrozaré". Flávio cantou e dançou junto com o presidente argentino. Na letra da música está embutida uma mensagem: "Soy el rey y te destrozaré". É a forma, mais que o conteúdo, que define os integrantes da confraria da ultradireita que ameaça as democracias pelo mundo. São políticos que não gostam de negociar, mesmo sendo a negociação a essência da política. Querem aniquilar o inimigo, como se estivessem, literalmente, num campo de batalha.

Ideias fora do lugar

As ideias de Flávio, se é que se pode chamar assim, são claramente ideias fora do lugar, tomando emprestado o termo cunhado por Roberto Schwarz. É impossível implantar o projeto de combate ao crime de Nayib Bukele - que prevê que qualquer cidadão possa ser preso sem direito a acusação formal e sem direito a advogado ou habeas corpus - num país democrático.

Em crise de endividamento, o Brasil precisa de um ajuste fiscal. A situação econômica do país, no entanto, nada tem de semelhante à da Argentina, país que viu sua moeda derreter e rola dívidas em dólares.

Uma reportagem recente do jornal britânico Financial Times retratou o bolsonarismo como um clã semelhante à família Roy, da série de televisão norte-americana Succession. Nada mais apropriado. Flávio não é Flávio. É apenas um genérico da marca Bolsonaro. No debate eleitoral na TV Globo, citava o governo do pai como "nosso governo". Se fosse presidente, Flávio governaria sob a supervisão de Jair e ao lado do irmão Eduardo, ponto de contato do bolsonarismo com a direita radical e a extrema-direita mundo afora. Eduardo é próximo ao húngaro Viktor Orbán, ao espanhol Santiago Abascal, ao salvadorenho Nayib Bukele, à francesa Marine Le Pen e à ala mais radical do Partido Republicano dos Estados Unidos.

Flávio passou a campanha eleitoral tentando fingir que não era como o pai. Vendia-se como o "Bolsonaro moderado". Como se isso fosse possível, uma vez que bolsonarismo, na política brasileira, é sinônimo de extremismo. A máscara lhe caiu no discurso final. Se democrata fosse, assumiria a derrota incontestável sofrida neste dia 25 de outubro de outubro. Em vez disso, praticamente conclamou seus seguidores à insurreição. Mostrou ser o que era: um filho de seu pai.

Opção conservadora

Mas por que então Lula derrotou Flávio? Minha hipótese é que os brasileiros fizeram uma opção conservadora. Lula já governou o país três vezes. Os eleitores sabem o que esperar dele. Seu oponente, ao contrário, é integrante de um clã sintonizado com o que há de mais radical no mundo, cujo líder está preso por tentativa de golpe de Estado. Ainda estão vívidas, na memória dos brasileiros, as imagens de vândalos destruindo os palácios do Executivo, do Legislativo e do Judiciário no infame 8 de janeiro.

Entre algo que já conhecem e a imprevisibilidade de uma horda de extremistas enlouquecidos, os brasileiros preferiram o voto conservador. Prudentes, não quiseram arriscar sua democracia.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

João Gabriel de Lima não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra