Universitários do Irã desafiam regime e realizam protestos pelo quarto dia consecutivo
Estudantes iranianos voltaram a realizar protestos nesta terça-feira (24) em universidades em Teerã e no interior do país. O regime advertiu os estudantes a não ultrapassarem os limites.
Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã, com agências
Atos foram registrados em pelo menos uma dezena de universidades em Teerã, Mashhad, segunda maior cidade do país, e também em Isfahan, no centro. Na capital iraniana, estudantes contrários e favoráveis ao regime chegaram a se enfrentar, deixando vários feridos.
Universitários islamistas exibiram bandeiras do país, enquanto alguns manifestantes expressaram seu apoio ao filho exilado do deposto xá, Reza Pahlavi. Outros, mais ligados à esquerda, entoaram o slogan "Mulheres, vida, liberdade", retomando o lema dos protestos de 2022, após a morte da jovem Mahsa Amini.
Mensagens nos celulares
Diante dos confrontos desta terça-feira, as autoridades alertaram os estudantes contra qualquer ato de violência, especialmente depois que bandeiras iranianas foram queimadas. Alguns estudantes chegaram a receber mensagens em seus celulares informando que não poderiam mais acessar a universidade e que deveriam se apresentar aos serviços de segurança de suas instituições.
Uma das universidades de Teerã anunciou o fechamento do campus até depois das férias do Ano‑Novo iraniano, o Noruz, em abril. A Justiça também ameaçou intervir.
Mais cedo, o regime havia alertado os estudantes que participavam dos protestos. Eles "têm, naturalmente, o direito de se manifestar", declarou a porta-voz Fatemeh Mohajerani. Mas há "limites que devemos proteger e não ultrapassar ou desviar, nem mesmo no auge da indignação", afirmou, citando "coisas sagradas", como "a bandeira" da república islâmica.
Vídeos divulgados nas redes sociais mostram universitários de Teerã participando dos atos nos últimos dias. Em algumas destas novas manifestações, jovens aparecem queimando a bandeira adotada após a revolução de 1979, que derrubou a monarquia. Alguns se arriscam em palavras de ordem como "morte ao ditador", em alusão ao guia supremo iraniano, Ali Khamenei.
Os protestos recomeçaram há quatro dias, depois de uma onda de manifestações que sacudiu o país desde o final de dezembro. Inicialmente as mobilizações contestavam a crise econômica em um país duramente atingido por sanções internacionais, mas os atos evoluíram para um movimento mais amplo contra o regime. Teerã reprimiu duramente as mobilizações, causando a morte de até 30 mil pessoas, segundo organizações de direitos humanos.
População aterrorizada
Um morador de Teerã disse a um jornalista da AFP que não acredita que os recentes protestos nos campi universitários se espalhem para além das principais instituições. Segundo ele, "a maioria das pessoas continua aterrorizada pela brutalidade do regime".
A informação é confirmada por Bahar Saba, pesquisadora da ONG Human Rights Watch, em um relatório publicado nesta terça-feira. "As prisões continuam e os detidos enfrentam tortura, confissões forçadas e execuções secretas, sumárias e arbitrárias", acrescentou.
Os protestos voltam a ocorrer em um momento em que o Irã enfrenta a ameaça de uma intervenção militar dos Estados Unidos devido à falta de acordo sobre seu programa nuclear. Na quinta-feira (19), o presidente americano, Donald Trump, declarou que havia estabelecido um prazo de entre dez e quinze dias para decidir se recorreria à força contra Teerã.
Um novo ciclo de diálogos entre delegações dos Estados Unidos e do Irã está previsto para ser realizado em Genebra com mediação de Omã nesta quinta-feira (26). Washington exige um acordo que impeça Teerã de se armar com bombas nucleares, embora o regime afirme que busca um programa com fins civis.
O Irã alertou que responderia "ferozmente" a qualquer ataque americano e alertou para o risco de uma "escalada" regional caso Washington opte por uma ação militar. Diante das trocas de ameaças, a Guarda Revolucionária, o exército ideológico do país, iniciou manobras militares nas costas do Golfo.