Testemunhas de disparos envolvendo ICE em Houston contestam versão da agência, diz advogado
Três homens que testemunharam a morte de Lorenzo Salgado Araujo causada por um agente federal em Houston na terça-feira contestaram a explicação apresentada pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), informou o advogado de duas das testemunhas aos repórteres em uma coletiva de imprensa nesta sexta-feira.
As três testemunhas, incluindo o irmão de Salgado, estão detidas no Centro de Processamento de Montgomery, em Conroe, Texas. Elas estavam indo para o trabalho com Salgado em sua van branca na manhã de terça-feira quando foram paradas por agentes do ICE. Seu advogado, Hugo Baldero-Ybera, disse que elas lhe deram uma versão "completamente diferente" do que aconteceu naquele dia.
Ele exigiu que os homens fossem libertados imediatamente para "garantir a integridade" da investigação sobre o incidente. Ele também expressou preocupação de que o governo pudesse pressioná-los a assinar documentos que permitam sua deportação.
Os disparos provocaram protestos no East End de Houston, bairro com grande concentração de hispânicos. Mais de 1.000 pessoas marcharam pacificamente pelo bairro na quarta-feira, e os moradores deixaram flores e velas no local do incidente.
Horas após o incidente na terça-feira, o ICE divulgou um comunicado afirmando que Salgado, um cidadão mexicano que vivia ilegalmente nos EUA há mais de três décadas, bateu com sua van em um veículo das forças de segurança e tentou atropelar um agente, que então atirou nele em legítima defesa. A agência não apresentou provas que corroborem sua versão dos fatos.
"Em nenhum momento houve um agente diretamente na frente do veículo, nem um agente foi colocado na linha de perigo", disse Baldero-Ybera, resumindo os relatos de seus clientes. Os homens também lhe disseram que os tiros fatais vieram da lateral da van, e não da frente, acrescentou Baldero-Ybera.
O ICE e o Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) não responderam imediatamente a um pedido de comentário da Reuters.
Em declarações à imprensa do lado de fora da Casa Branca nesta sexta-feira, Tom Homan, o "czar da fronteira" do presidente Donald Trump, disse: "Se os agentes agiram fora das diretrizes ou ilegalmente, serão responsabilizados."
NÃO ERA O ALVO
Salgado não era o alvo da operação do ICE que resultou em sua morte, disse uma autoridade do DHS à Reuters nesta sexta-feira.
Semanas antes dos disparos, enquanto realizavam vigilância, agentes de imigração notaram duas vans brancas na propriedade do alvo pretendido, disse o funcionário. Na manhã de terça-feira, ao voltarem para aquele endereço, eles avistaram uma van branca "com um indivíduo que se assemelhava ao alvo" e iniciaram a abordagem do veículo, disse o funcionário.
"O único crime de Salgado foi se encaixar na descrição de outro homem que eles estavam procurando", disse Baldero-Ybera.
Familiares, ativistas locais e membros do Congresso dos EUA exigiram uma investigação independente sobre a morte de Salgado. O pai de três filhos era um trabalhador da construção civil que morava em Houston há 35 anos e estava em processo de obtenção de uma autorização de trabalho, disseram parentes na quarta-feira.
As circunstâncias completas do confronto fatal de terça-feira continuavam obscuras.
Imagens de câmeras de vigilância divulgadas inicialmente pela KHOU11, afiliada local da CBS, mostram um veículo não identificado do ICE aparentemente bloqueando a van de Salgado no trânsito; em seguida, a van é vista encostando à beira da via.
Outros vídeos verificados surgiram após o tiroteio. Em um deles, agentes são vistos em pé ao lado de um homem segurando o peito. Em outro, ouve-se um homem gritando de dor. Ainda não surgiu nenhuma filmagem que capture o momento dos disparos.
O governo Trump tomou medidas no ano passado para retardar um programa-piloto que visava equipar os agentes do ICE com câmeras corporais, exortando o Congresso a cortar o financiamento em 75%, informou a Reuters em janeiro. O DHS afirmou na quinta-feira que nenhum dos agentes envolvidos no incidente estava usando uma câmera.
Também não havia câmeras de painel nos veículos do ICE que tenham capturado o tiroteio, afirmou a deputada do Texas Sylvia Garcia na coletiva de imprensa nesta sexta-feira. E não havia um cronograma claro para a investigação, que, segundo o ICE, seria conduzida pelo DHS.
O promotor público do condado de Harris apelou ao público para que forneça vídeos, fotos e depoimentos de testemunhas oculares, mas ressaltou que as autoridades federais estão cuidando de todos os aspectos do caso.
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