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Sunismo saudita e xiismo iraniano em confronto aberto no Oriente Médio

9 dez 2015
19h11
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Os conflitos herdados da primavera árabe, que tiveram a religião como cenário, reavivaram as históricas desavenças entre a Arábia Saudita sunita e o Irã xiita, e serviram de pretexto para ambos se envolverem diretamente nos conflitos do Oriente Médio.

As guerras civis na Síria e no Iêmen, onde os vários adversários diferem tanto política como religiosamente, foram os detonadores para que Irã e Arábia Saudita decidissem intervir no terreno a favor do lado que tem o mesmo credo que o seu.

No Iêmen, a Arábia Saudita, apadrinhada pelos Estados Unidos, tomou a iniciativa de atuar, em março, contra os rebeldes houthis, minoria de confissão xiita, que tinham forçado o exílio do presidente Abdo Rabbo Mansour Hadi.

A Arábia Saudita conseguiu o apoio de oito regimes de credo sunita aos bombardeios: Emirados Árabes, Bahrein, Catar, Kuwait, Egito, Sudão, Marrocos e Jordânia.

Em comunicado divulgado em 26 de março, a aliança sunita afirmava que sua intervenção pretendia proteger o Iêmen das "milícias houthis, que foram e continuam sendo uma ferramenta nas mãos de uma força estrangeira".

Essa força, o Irã, pretenderia - na visão saudita - impor "sua hegemonia sobre o Iêmen e transformá-lo em base para exercer influência sobre a região".

Já o Irã, com o apoio da Rússia, reuniu os regimes xiitas do Iraque e da Síria e a milícia xiita libanesa Hezbollah em defesa das minorias xiitas da região.

Os quatro não hesitaram em mostrar apoio aos houthis, em condenar a intervenção da coalizão saudita, nem em agir no terreno, tanto na luta contra os jihadistas sunitas do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, como contra os grupos rebeldes sírios, também sunitas, que desafiam o regime xiita de Bashar al Assad.

Além disso, Irã e Arábia Saudita, as duas potências regionais, e que contam com o dinheiro do petróleo, se consideram líderes de um islã em que não cabe nenhum tipo de interpretação diferente.

A disputa entre os dois países para impor sua visão teocrática, por conter o avanço da fé - sunita ou xiita, dependendo do caso - e a influência política do adversário remontam ao nascimento da República Islâmica do Irã em 1979, após a queda do xá da Pérsia, Reza Pahlavi.

Apenas um ano depois, o reino saudita decidiu apoiar economicamente o regime sunita de Saddam Hussein no Iraque em sua guerra contra o Irã em um conflito que só terminaria em 1988.

A queda de Hussein em 2003, após a invasão de seu país pelos Estados Unidos, e o posterior reequilíbrio de forças entre a minoria sunita que tinha governado até então e a maioria xiita, que assumiu o poder, reabriu a caixa de Pandora no Oriente Médio.

As tensões entre sunitas e xiitas se tornaram mais evidentes com as declarações do rei jordaniano Abdullah II à rede de televisão americana "MSNBC" em dezembro de 2004, quando advertiu sobre a existência do que chamou de "meia lua xiita".

"Se houver uma liderança xiita no Iraque que tenha relações especiais com o Irã e se, além disso, olharmos a relação (entre) Síria, Hezbollah e Líbano, então temos esta nova meia lua que parece que poderia ser muito desestabilizadora para os países do golfo (Pérsico) e, na realidade, para toda a região", disse o monarca hachemita.

A primeira década do século XXI testemunhou o aumento das tensões, que caminharam para uma nova fase de confronto com a explosão, em 2011, das primaveras árabes.

Para Amre Izzat, especialista egípcio em questões religiosas, a origem do conflito está, por um lado, no fato de o islã, ao contrário do cristianismo, não ter reconhecido a existência de um cisma e, por outro, na ausência de democracia.

"Nos países onde o poder é sunita, a minoria xiita não é só uma minoria religiosa, mas é uma minoria que tem uma visão diferente sobre o poder (esse reconhecimento remonta aos primeiros tempos do islã). Por isso, consideram um ao outro uma ameaça à legitimidade do governante", explicou à Agência Efe.

A "negação das minorias religiosas" muçulmanas, tanto nos regimes sunitas como nos xiitas, implica, segundo o analista, em uma falta de igualdade, em uma relação de "vencedores e de submetidos", o que faz com que estas questões sejam tratadas como "ameaças à segurança e à unidade nacionais".

De acordo com este especialista da Iniciativa Egípcia de Direitos Pessoais, a alternativa a esta polarização seriam os valores democráticos.

No entanto, Izzat considera que os movimentos sociais igualitários que começaram a aflorar no Oriente Médio em 2005 e que explodiram em 2011 se enfraqueceram, com a tímida exceção da Tunísia, o que o faz acreditar que no futuro próximo esta "polarização sectária aumentará".

EFE   
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