Sérvia vai sepultar criminoso de guerra Ratko Mladic com 'honras de Estado'
General cumpria pena de prisão perpétua por massacres na antiga Iugoslávia
O ex-líder militar sérvio-bósnio Ratko Mladic, condenado à prisão perpétua por genocídio e crimes de guerra pelo massacre de Srebrenica, morreu aos cuidados de Haia e será sepultado pela Sérvia com honras de Estado. O anúncio gerou forte repúdio da União Europeia, que criticou a glorificação de criminosos de guerra por um país candidato ao bloco. O governo sérvio atacou a decisão do tribunal de mantê-lo preso até a morte e exigiu investigações sobre a assistência médica recebida por Mladic.
O ex-líder militar sérvio-bósnio Ratko Mladic, conhecido como "açougueiro dos Bálcãs" por seu papel no massacre de Srebrenica, na Bósnia e Herzegovina, e condenado à prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e contra a humanidade, terá um funeral com "honras de Estado".
O anúncio foi feito nesta sexta-feira (28) pelo ministro da Justiça da Sérvia, Nenad Vujic, e provocou irritação na União Europeia, que ainda analisa a candidatura de Belgrado a entrar no bloco. Doente havia tempos, o general morreu na última quinta (27), em Haia, na Holanda, onde cumpria a pena imposta pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPI).
"Estamos prontos para partir para Haia assim que soubermos os próximos passos, no pleno respeito de todos os desejos da família do general Mladic", declarou Vujic à emissora local K1.
"Cabe a eles [aos familiares] decidir. É certo que o general Mladic receberá todas as honras militares e de Estado que merece", acrescentou o ministro.
Questionado pela ANSA sobre o assunto, um porta-voz da Comissão Europeia, poder Executivo da UE, afirmou que "glorificações de criminosos de guerra estão em contraste com os valores europeus mais fundamentais e não têm lugar nem na União, nem nos países candidatos".
Memorial pelas vítimas de Ratko Mladic em Srebrenica, na Bósnia e HerzegovinaO governo da Sérvia chegou a pedir ao TPI que Mladic fosse libertado para passar os últimos dias em sua pátria, porém o tribunal rechaçou a solicitação, alegando que o criminoso de guerra recebia todos os tratamentos paliativos necessários.
"Haia queria que Mladic morresse atrás das grades, não queria que o general morresse na Sérvia, onde ele gostaria, e este é um comportamento contrário à civilização, sem precedentes e sem justificativas", declarou o presidente do país balcânico, Aleksandar Vucic.
"Os criminosos de guerra que cometeram crimes contra os sérvios foram libertados", acrescentou o mandatário, que acusou o Ocidente de tratar os sérvios como os "únicos culpados" pelo banho de sangue que marcou o processo de desmantelamento da antiga Iugoslávia nos anos 1990.
Já Vujic também anunciou que enviará uma carta ao Mecanismo Residual de Haia ? órgão que substituiu o extinto Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia ? exigindo que a investigação sobre a morte de Mladic não se limite a determinar a causa imediata, mas que também apure se ele recebeu tratamento médico adequado nos últimos dias de vida.
Mladic foi condenado pelo TPI por ter orquestrado o massacre de Srebrenica, ocorrido em julho de 1995, quando as forças sérvio-bósnias comandadas pelo general executaram mais de 8 mil homens e meninos bosníacos (como são chamados os muçulmanos da Bósnia e Herzegovina) que haviam buscado refúgio na pequena cidade, então sob proteção de tropas holandesas da ONU.
Outro artífice do maior massacre na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, Radovan Karadzic, ex-líder político dos sérvio-bósnios, foi sentenciado a 40 anos de prisão. Mladic também supervisionou o brutal cerco a Sarajevo, entre 1992 e 1995, quando milhares de homens, mulheres e crianças foram assassinados por franco-atiradores escondidos nas montanhas ao redor da cidade.
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