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Restrições à imigração em Portugal afetam empresas de construção que trabalham para resolver crise imobiliária

20 jul 2026 - 09h09
(atualizado às 23h39)
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José Simão chegou a Portugal vindo de Angola em 2022 para ‌trabalhar como pedreiro, fazendo parte de uma onda de imigração que representou um impulso bem-vindo para o setor da construção civil do país, que enfrentava uma grave escassez de mão de obra.

Hoje, ele não sabe se terá permissão para ficar.

"Fiz tudo o que as autoridades me pediram e estou aqui legalmente. Mas o governo mudou as regras. Tenho medo de que me mandem de volta", disse ele à Reuters.

O endurecimento da postura de Portugal em relação à imigração — parte da tentativa do governo ⁠de conter a ascensão da extrema-direita — está sufocando a oferta de mão de obra para as empresas de construção, mesmo enquanto elas ‌trabalham para amenizar uma das piores crises imobiliárias da Europa.

O governo de coalizão de centro-direita argumenta que quer restringir o "fluxo descontrolado" de imigrantes e garantir condições dignas para aqueles que já vivem em Portugal.

Mas executivos de empresas de construção e ‌associações do setor disseram à Reuters que as medidas agravaram a grave escassez ‌de trabalhadores, prejudicando os esforços para atender à demanda por moradia acessível e colocando em risco um setor que ⁠representa quase 8% da economia.

"O governo restringiu a imigração demais e muito rapidamente, considerando as necessidades do país", disse Oscar Afonso, professor de economia da Universidade do Porto. "Foi uma escolha política, mas os imigrantes são essenciais para a economia."

COM GUINADA PARA DIREITA, PORTUGAL RESTRINGE IMIGRAÇÃO

Centenas de milhares de trabalhadores estrangeiros vieram para Portugal após 2017, quando o governo de centro-esquerda anterior permitiu que entrassem sem visto de trabalho e, depois de um ano empregados, solicitassem a residência mediante comprovação de contribuições para a previdência ‌social.

Entre 2021 e 2025, o número de residentes estrangeiros mais que dobrou, atingindo um recorde de 1,6 milhão, ou 14% da ‌população de Portugal.

Eles representaram um alívio para ⁠o setor da construção civil, que ⁠viu muitos de seus trabalhadores portugueses partirem em busca de melhores salários em países mais ricos da União Europeia. Os estrangeiros representam agora ⁠cerca de 30% da força de trabalho do setor.

No entanto, seu número ‌crescente também serviu de amplo combustível de ‌campanha para o partido anti-imigração Chega, que tem conseguido um apoio cada vez maior, que as forças políticas tradicionais portuguesas têm dificuldade em combater.

Em 2024, Portugal, assim como muitas nações europeias, endureceu suas regras de imigração após a mudança para um governo de centro-direita, com um ministro do gabinete da época declarando que "o tempo de uma política irresponsável ⁠acabou".

Um estudo do Banco de Portugal mostrou que as restrições já haviam reduzido pela metade a imigração líquida, para cerca de 6.200 por mês em 2025, em comparação com o ano anterior. Especialistas preveem novas quedas.

Para as construtoras, o momento não poderia ser pior.

Portugal enfrenta uma grave escassez de moradias, com os custos dos novos contratos de aluguel quase dobrando desde 2017. O banco central local estima um déficit de 300 mil moradias em ‌todo o país, o equivalente ao parque habitacional total da capital, Lisboa.

Portugal planeja construir 150 mil moradias populares até 2030, no âmbito de um programa de 9 bilhões de euros (US$10,3 bilhões) apoiado pela União Europeia.

Mesmo com um aumento de 34% ⁠nos empregos entre 2020 e 2025, no entanto, o setor da construção civil carece de mão de obra.

A maior associação de construção civil de Portugal, a AICCOPN, estima que o setor ainda precise de 80.000 trabalhadores adicionais apenas para manter os projetos atuais em andamento.

E Albano Ribeiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, afirmou que o setor corre o risco de enfrentar um déficit de 120 mil postos de trabalho à medida que grandes projetos ganham impulso, sendo que somente o novo aeroporto de Lisboa exigirá 10 mil trabalhadores.

O governo lançou no ano passado um programa de vistos acelerados para ajudar as empresas a recrutar no exterior. Mas isso exige que elas ofereçam contratos e providenciem acomodação adequada antecipadamente. Até o momento, o governo concedeu apenas 5.000 vistos para o setor da construção civil.

"O setor precisa de trabalhadores para construir moradias... mas agora as construtoras precisam garantir moradia para os imigrantes que chegam", disse João Sousa, diretor-executivo da JPS, uma das maiores incorporadoras de Portugal, à Reuters.

"Se não há moradia para quem já está aqui, como podemos oferecer moradia para as pessoas que vêm para Portugal?"

Cerca de 90% dos aproximadamente 700 a 800 trabalhadores da JPS são estrangeiros.

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