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Quem ganhou e quem perdeu com a crise entre Irã e Estados Unidos

As hostilidades entre o Irã e os Estados Unidos têm grandes consequências para muitos outros países do Oriente Médio, mas também de fora dele. A pesquisadora de política internacional Sanam Vakil escreveu à BBC sobre o cenário que se desenha com a crise na região.

11 jan 2020
14h36
atualizado às 14h57
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O assassinato do general Qasem Soleimani e o ataque de mísseis do Irã a bases americanas no Iraque em retaliação aumentaram o medo de um conflito com implicações de longo alcance.

O cenário de perdedores ou vencedores dessa crise pode mudar rapidamente, dependendo do que os Estados Unidos e o Irã fizerem nos próximos dias.

Então, quem está ganhando ou perdendo?

A pesquisadora Sanam Vakil, da organização Chatham House, de análise política internacional, escreveu para a BBC News sobre as implicações da atual crise entre Irã e Estados Unidos para os dois países e para outros atores da região e da Europa. A seguir, a análise da especialista.

Irã se beneficia no curto prazo

Apesar da perda de uma figura militar tão poderosa, o Irã pode ser um beneficiário no curto prazo do assassinato do seu próprio general Qasem Soleimani.

A morte de Soleimani e as enormes procissões fúnebres que se seguiram permitiram que o regime iraniano desviasse a atenção do público da violenta repressão aos protestos contra o aumento dos preços da gasolina, em novembro.

Esse cenário também permite que o Irã demonstre sua capacidade de se unir em um momento de crise, mesmo que sua elite política seja notoriamente dividida.

O Irã está sob a pressão das sanções econômicas ditadas pelos EUA em 2018 após o presidente americano, Donald Trump, determinar a saída de seu país do acordo nuclear firmado com os iranianos em 2015.

No ano passado, a situação piorou depois que o Irã derrubou um drone militar americano e deteve navios petroleiros na região do Golfo. O país também foi acusado de patrocinar ataques com mísseis, como o caso ocorrido em setembro contra instalações petrolíferas sauditas. O regime iraniano negou participação.

O Irã já reagiu aos Estados Unidos com um ataque de mísseis contra tropas americanas no Iraque, na terça-feira. O país pode se beneficiar se adiar qualquer retaliação e, em vez disso, continuar a demonstrar seu apreço pelo general morto ao mesmo tempo em que fomenta a ansiedade do público em relação ao que pode ocorrer no futuro.

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o Irã parece estar 'se acalmando' depois de ataques com mísseis nas bases de tropas dos EUA no Iraque
O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o Irã parece estar 'se acalmando' depois de ataques com mísseis nas bases de tropas dos EUA no Iraque
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No entanto, se o país tomar outras medidas, poderá não ser mais visto como vencedor.

Dependendo de onde e como o Irã procurar vingar a morte de Soleimani, o país, dono de um poder militar menor, pode se encontrar em um ciclo militar de ação e reação prejudicial.

Já sujeito a fortes sanções e sob pressão para cumprir o acordo nuclear, o Irã poderia ficar cada vez mais isolado com a escalada de violência.

Estados Unidos

O governo Trump pode ter conseguido prejudicar a estrutura militar do Irã. Além disso, a estratégia de ataques pode potencialmente aumentar a chance de reeleição do presidente nas eleições de novembro.

Com o ataque que matou Soleimani, os EUA também enviaram uma mensagem de força e solidariedade a aliados na região, como Israel e Arábia Saudita.

Os manifestantes do Iraque têm pedido o fim da influência iraniana no país
Os manifestantes do Iraque têm pedido o fim da influência iraniana no país
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Mas, caso haja uma ação militar de maior intensidade, os preços do petróleo podem aumentar e outra guerra regional de longa duração pode começar, levando à perda de mais vidas.

Esse cenário pode ter ramificações para muitas outras nações no Oriente Médio.

Forças xiitas no Iraque

No curto prazo, as milícias xiitas apoiadas pelo Irã no Iraque poderiam se beneficiar da atual crise.

Nos últimos meses, o governo iraquiano tem sido alvo de muitos protestos contra a influência do Irã no país, além de denúncias de má governança e corrupção.

Essas milícias — e o restante do establishment político do Iraque — estão usando a morte de Soleimani para recuperar a influência perdida e legitimar sua necessidade de permanecer no país.

A promessa de expulsar as tropas americanas do Iraque tem sido um grito de guerra desses grupos e é estimulada por seus líderes.

Esse cenário cria um vácuo de segurança que pode ser ocupado por grupos extremistas como o Estado Islâmico e a Al Qaeda.

Israel

Irã e Israel há muito tempo estão em conflito por seus interesses no Oriente Médio — o regime iraniano demonstra o desejo de remover o Estado judeu da região.

Da perspectiva de Israel, muitas ameaças ainda permanecem ativas. Isso inclui o apoio do Irã aos adversários do país, como o grupo militante Hezbollah, do Líbano, e o presidente sírio, Bashar al-Assad.

No entanto, a morte de Soleimani indica a crescente intenção dos Estados Unidos de conter as ações do Irã.

Em Israel, é provável que a crise seja vista como um passo positivo que beneficiará seus interesses de segurança contra o Irã e os grupos que ele apoia.

"Israel está com os Estados Unidos em sua justa luta por paz, segurança e autodefesa", disse o primeiro-ministro do país, Benjamin Netanyahu, após o ataque.

Manifestações no Oriente Médio

A ameaça iminente de conflito pode dar a governos do Oriente Médio uma desculpa para reprimir os protestos que vêm ocorrendo em diversos países da região.

Manifestantes no Líbano têm ido às ruas por desigualdade e contra a corrupção
Manifestantes no Líbano têm ido às ruas por desigualdade e contra a corrupção
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Em particular, as recentes manifestações no Iraque, Líbano e Irã sobre questões como desemprego e corrupção podem ser contidas com a justificativa da segurança nacional.

Os governos poderiam até dar um passo adiante e usar a crise iminente para justificar ações repressivas contra ativistas políticos e travar qualquer tentativa de reforma política.

Arábia Saudita e Emirados Árabes

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes estão em uma posição um pouco mais delicada.

Ambos foram diretamente afetados pelos ataques a navios do Estreito de Ormuz no ano passado e a duas grandes instalações petrolíferas sauditas, em grande parte consideradas obras do Irã ou de forças apoiadas pelo país. O governo iraniano negou qualquer envolvimento.

Os EUA culparam o Irã por uma série de ataques a petroleiros no Golfo no ano passado
Os EUA culparam o Irã por uma série de ataques a petroleiros no Golfo no ano passado
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Em resposta, os Emirados Árabes tentaram aliviar a situação com Teerã, enquanto a Arábia Saudita continuou a apoiar as ações de Washington.

Desde o assassinato de Soleimani, os dois países pediram calma, e o ministro da Defesa saudita viajou a Washington para conversar com integrantes do governo Trump.

Mas sua proximidade geográfica com o Irã e seu histórico de tensões os tornam vulneráveis a possíveis ataques iranianos.

Europa

Já lutando para sustentar o frágil acordo nuclear de 2015, a Europa permanece em um meio termo complicado entre os EUA e o Irã.

O Reino Unido não recebeu um aviso prévio do ataque de drone feito pelos Estados Unidos contra Soleimani, indicando tensões transatlânticas em andamento ou, pelo menos, falha de comunicação.

Ao mesmo tempo, tendo cooperado na luta contra o Estado Islâmico, vários países europeus com tropas no Iraque podem ser atraídos para o fogo cruzado se o Irã escolher uma resposta militar mais ampla.

O assassinato de Soleimani deveria nos lembrar que as questões de governança e estabilidade regional que provocaram os protestos da Primavera Árabe há quase uma década permanecem sem solução.

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