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Quase mil pessoas são presas após confrontos em mais um dia de protestos em massa na França

Até o momento, as autoridades conseguiram evitar a repetição dos tumultos e saques do último fim de semana, apesar da participação de centenas de milhares de pessoas em manifestações

24 out 2026 - 21h11
(atualizado às 21h21)
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Resumo
Quase mil pessoas foram presas na França durante novos protestos contra o aumento do custo de vida e cortes em serviços públicos. Os atos reuniram centenas de milhares em várias cidades e mobilizaram cerca de 70 mil policiais. Apesar de começarem pacíficas, as manifestações terminaram em confrontos, barricadas em chamas e uso de gás lacrimogêneo em Paris, Marselha e Lyon. A crise ocorre sob forte divisão política no parlamento a apenas seis meses das eleições presidenciais francesas.
Segundo a prefeitura, cerca de 15,5 mil pessoas participaram da marcha contra o aumento do custo de vida em Bordeaux, que ocorreu apesar da proibição de manifestações em partes do centro da cidade
Segundo a prefeitura, cerca de 15,5 mil pessoas participaram da marcha contra o aumento do custo de vida em Bordeaux, que ocorreu apesar da proibição de manifestações em partes do centro da cidade
Foto: Guillaume Pinon/EPA/Shutterstock / BBC News Brasil

Quase mil pessoas foram presas durante mais um dia de protestos em toda a França, que reuniu centenas de milhares de pessoas e foi seguido por alguns confrontos no fim deste sábado (24/10), segundo autoridades.

Após um dia de manifestações em grande parte pacíficas, a polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersar manifestantes em várias cidades, incluindo Paris. Em Marselha, barricadas foram incendiadas, enquanto, em Bordeaux, pessoas arrancaram placas de madeira de uma loja.

Até o momento, porém, as autoridades conseguiram evitar tumultos e saques na escala registrada no último fim de semana, que provocaram algumas das cenas de desordem mais graves da história moderna da França.

O Ministério do Interior estimou que 410 mil pessoas participaram dos protestos no sábado, enquanto os sindicatos calcularam o público em cerca de 800 mil.

Cerca de 70 mil policiais foram mobilizados, e restrições foram impostas em várias cidades para impedir que os novos protestos se transformassem no tipo de caos registrado anteriormente, quando centenas de estabelecimentos comerciais foram saqueados e edifícios foram incendiados.

Os manifestantes protestam contra o aumento do custo de vida, cortes nos serviços públicos e as más condições nas escolas.

O presidente Emmanuel Macron havia determinado, no início desta semana, que apenas manifestações organizadas por sindicatos reconhecidos seriam permitidas.

Nos últimos dias, centenas de pessoas foram condenadas à prisão por vandalismo, incêndio criminoso e saques, após julgamentos realizados em rito acelerado.

Na cidade portuária de Marselha, no sul da França, manifestantes ergueram barricadas improvisadas nas ruas e as incendiaram no final da noite de sábado
Na cidade portuária de Marselha, no sul da França, manifestantes ergueram barricadas improvisadas nas ruas e as incendiaram no final da noite de sábado
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Em Paris, os confrontos entre manifestantes e a tropa de choque começaram no fim de uma marcha pacífica que saiu da Porte d'Italie em direção à Porte de Vincennes, no sábado. A operação policial incluiu uma unidade de elite normalmente encarregada do combate ao crime organizado e ao terrorismo.

Alguns manifestantes foram vistos erguendo barricadas improvisadas e arremessando objetos contra os policiais. Agentes avançaram com cassetetes contra grupos de jovens mascarados que quebravam as janelas de uma concessionária de automóveis.

O ministro do Interior da França, Laurent Nuñez, afirmou que "vários milhares de ativistas radicais se concentraram na parte de trás da marcha, incluindo cerca de 500 indivíduos identificados como responsáveis por tumultos", informou a agência de notícias AFP.

Nuñez afirmou no fim do dia que quase mil pessoas haviam sido presas, número que, segundo ele, ainda aumentaria.

O ministro também disse que duas pessoas ficaram "gravemente feridas": uma na cidade de Toulouse, no sudoeste do país, e outra em Clermont-Ferrand, no centro da França.

Na cidade portuária de Marselha, no sul do país, lixeiras foram incendiadas e chapas metálicas foram usadas para bloquear ruas. Um veículo das forças de segurança foi visto atravessando uma barricada em chamas na segunda maior cidade da França.

Enquanto isso, alguns manifestantes vestidos com roupas escuras e com o rosto coberto foram vistos retirando placas de madeira de um edifício para construir uma barricada na cidade de Bordeaux, no sul do país.

Em Lyon, a polícia usou granadas de gás lacrimogêneo para dispersar uma multidão que, segundo relatos, havia se reunido em uma área proibida pela prefeitura local.

"Éramos cerca de 150, em sua maioria estudantes do ensino médio e universitários. Então, o gás lacrimogêneo veio quase imediatamente. Mal dava para enxergar alguma coisa na rua", disse um manifestante na terceira maior cidade da França.

"Queremos mesmo uma mudança na França", disse um adolescente manifestante à BBC
"Queremos mesmo uma mudança na França", disse um adolescente manifestante à BBC
Foto: BBC News Brasil

Mais cedo, uma manifestante que participava pacificamente do protesto em Paris e se identificou como Zelie disse à BBC que as pessoas foram às ruas porque estavam "realmente frustradas" e vinham "sofrendo muito" desde que Macron assumiu o cargo.

"Eles nos mantêm calados. Pegam nosso dinheiro, cobram muitos impostos e não podemos dizer nada. Hoje estamos nas ruas porque isso já dura tempo demais, já passou dos limites", disse a jovem de 26 anos.

Dois adolescentes mascarados que participavam dos protestos e não quiseram revelar seus nomes também disseram que sua geração estava desesperançosa e se sentia abandonada pelo governo.

"Acho que saquear é realmente muito ruim", disse um dos manifestantes ao comentar os distúrbios do sábado anterior. "Mas isso acontece por causa da pobreza e da violência policial."

Ele acrescentou que os protestos terminariam "quando tivermos uma resposta às nossas reivindicações. Queremos muito uma mudança na França".

Polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersar manifestantes em várias cidades, incluindo Paris
Polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersar manifestantes em várias cidades, incluindo Paris
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Enquanto isso, cerca de 13 mil pessoas participaram de um ato contra o partido de extrema direita Reunião Nacional, na cidade de Orléans, no centro-norte da França. A manifestação transcorreu pacificamente.

Protestos em massa motivados por questões semelhantes às registradas na França também sacudiram várias outras cidades europeias no sábado.

Na capital da Albânia, Tirana, a tropa de choque usou gás lacrimogêneo para dispersar milhares de manifestantes contrários ao governo. Também houve relatos de confrontos em Bruxelas, capital da Bélgica.

Em Milão, no norte da Itália, uma grande operação de segurança, com centenas de soldados atuando ao lado da polícia, impediu que manifestantes se reunissem na cidade. Muitos temiam a repetição das cenas de violência da semana passada, quando alguns participantes atearam fogo em objetos, quebraram janelas e saquearam lojas.

Manifestantes protestaram contra o alto custo de vida em Bordeux
Manifestantes protestaram contra o alto custo de vida em Bordeux
Foto: EPA / BBC News Brasil

Cerca de 550 mil pessoas participaram das manifestações do último fim de semana contra o aumento dos preços dos combustíveis e o custo de vida. A insatisfação se intensificou após semanas de protestos estudantis. O caos que se seguiu resultou em mais de 2,5 mil prisões.

As marchas foram, inicialmente, em grande parte pacíficas, mas acabaram marcadas por cenas de violência, saques e destruição. Mais de 2 mil lojas e outros estabelecimentos comerciais em toda a França teriam sido diretamente afetados. Os prejuízos foram estimados em "centenas de milhões de euros", segundo a Câmara de Comércio e Indústria da França (CCI).

Uma granada policial de controle de multidões arrancou a mão de um manifestante, segundo a agência de notícias AFP. Cerca de mil policiais ficaram feridos.

Posteriormente, as autoridades francesas disseram que foram obrigadas a impor toque de recolher durante a noite em Paris e em outras cidades.

Os protestos continuam a seis meses das eleições presidenciais francesas, e os principais candidatos têm responsabilizado Macron e seus ministros pela situação.

A candidata presidencial da direita nacionalista anti-imigração (Marine Le Pen) e o candidato da esquerda anticapitalista (Jean-Luc Mélenchon) disputam espaço nos holofotes e tentam dominar o debate público.

O parlamento está paralisado — profundamente dividido entre três blocos políticos rivais.

Além disso, a França enfrenta problemas financeiros. Os investidores pressionam fortemente o país para que sua dívida pública crescente seja controlada. Mas o governo francês teme que, se cortar serviços públicos ou benefícios sociais, mais pessoas revoltadas irão às ruas.

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