Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Mundo

Publicidade

Papa no Uruguai, Argentina e Peru: como a Igreja Católica tem se posicionado na América Latina?

O papa Leão 14º volta a pisar em solo latino-americano nesta sexta-feira (6/11), três anos depois de deixar o Peru e se transferir para Roma. E ele encontrará uma região bastante diferente, do ponta de vista político.

6 nov 2026 - 19h15
(atualizado às 19h45)
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O papa Leão 14º visita Uruguai, Argentina e Peru em meio à forte polarização política na América Latina. Embora a Igreja Católica abrigue diversas correntes e mantenha moderação doutrinária, sua histórica opção pelos pobres e a herança da Teologia da Libertação levam bispos locais a contestar políticas de extrema-direita e o autoritarismo. A viagem reforça a relevância do continente para o Vaticano e sinaliza a incompatibilidade entre o Evangelho e ideologias extremistas.
Papa Leão 14º embarcou nesta sexta-feira para um giro de 11 dias por Uruguai, Argentina e Peru
Papa Leão 14º embarcou nesta sexta-feira para um giro de 11 dias por Uruguai, Argentina e Peru
Foto: EPA / BBC News Brasil

O papa Leão 14º voltou a pisar em solo latino-americano nesta sexta-feira (6/11), três anos depois de deixar Chiclayo, no Peru, e se transferir para Roma.

Na época ainda conhecido como bispo Robert Prevost, ele atendeu a uma convocação do papa Francisco (1936-2025), que o encarregou de chefiar um dicastério, um dos departamentos do Vaticano.

O pontífice desembarcou no Uruguai na tarde desta sexta-feira (6/11) e, além do país, nos próximos 11 dias, passará por Argentina e Peru.

Três anos fora da América Latina pode parecer pouco tempo. Mas, em seu retorno, ele encontrará um solo mais contaminado do que nunca pela polarização política.

Nos últimos anos, uma onda de políticos de direita e extrema-direita venceu eleições pelo continente — inclusive no Peru, que tem desde julho a presidente Keiko Fujimori, sucedendo um governo de esquerda.

E, nos últimos dias, o cenário está particularmente inflamado pela vitória do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no Brasil, em uma campanha marcada por polêmicas religiosas; e com a diminuição do poder do partido de Donald Trump nas eleições deste mês nos EUA, que pode ter influência na política latino-americana.

A Igreja Católica é historicamente diversa — e oficialmente não toma posições partidárias —, mas a participação de conferências episcopais no debate político parece fazer a balança pender para o lado esquerdo na América Latina.

O passado da região reforça esse comportamento: os países latino-americanos foram o terreno fértil para que a Teologia da Libertação, vertente católica progressista e empenhada em transformações sociais, germinasse e tivesse frutos.

No mês passado, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou uma carta sobre a importância do momento político e ressaltando valores como "cuidar do meio ambiente" e "garantir os direitos humanos" como fundamentais para o país.

Um grupo de 64 bispos também divulgou um manifesto, sem citar nomes dos candidatos diretamente mas fazendo referência negativa ao então postulante Flávio Bolsonaro (PL). O texto dizia que "um dos candidatos promete liberar o acesso amplo a armas, como fez o seu pai em seu governo".

Da mesma forma, setores da Igreja na Argentina têm se posicionado contra políticas de direita. Em março de 2024, três meses depois que o ultradireitista Javier Milei assumiu a presidência, a Conferência Episcopal Argentina publicou um alerta sobre como a política governamental de cortar gastos iria afetar drasticamente a vida dos mais pobres.

Diversidade na Igreja

Especialistas, contudo, afirmam que, mesmo com posicionamentos do tipo, não é possível classificar a Igreja Católica, nem suas conferências nacionais, como alinhada à esquerda ou à direita.

Na visão deles, os problemas da sociedade latino-americana contemporânea — como as desigualdades sociais — acabaram levando parte relevante dos católicos a buscar, na mensagem do cristianismo, formas de lutar por mais justiça, direitos humanos e dignidade, sobretudo em prol dos mais pobres.

"É difícil classificar a hierarquia católica latino-americana como um bloco de direita ou de esquerda. No Brasil, por exemplo, a CNBB funciona como um espaço de negociação entre diferentes sensibilidades eclesiais", contextualiza a socióloga Tabata Tesser, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião.

"A Igreja Católica é muito diversa", afirma o historiador Carlos André Silva de Moura, professor na Universidade de Pernambuco (UPE), onde coordena o Laboratório de Estudos da História das Religiões. "É muito difícil classificar uma instituição assim complexa a partir de espectros políticos divergentes."

Para o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), a Igreja Católica consegue ter "sob o mesmo guarda-chuva" grupos com visões ideológicas muito diferentes porque "é heterogênea" mas preza "a manutenção da unidade".

Mas, para ele, quando seus religiosos "rechaçam votos na extrema-direita", há uma sinalização de que "valores políticos próximos de tendências autoritárias" se distanciam do que a Igreja considera certo.

"Existe um centro institucional bastante influente, que tende a adotar posições moderadas. Em questões sociais, esse centro frequentemente se aproxima de pautas associadas ao campo progressista, como o combate à pobreza, a defesa dos direitos humanos, a proteção dos povos indígenas e a crítica às desigualdades", analisa Tesser.

"Em questões morais e comportamentais, entretanto, tende a assumir posições mais conservadoras."

Comentando sobre o roteiro do papa Leão — Uruguai, Argentina e Peru — a socióloga vê semelhanças na atuação das conferências nos demais países, com "uma tradição importante de intervenção nas questões sociais e de interlocução com o Estado".

Tesser salienta, contudo, que posicionamentos mais incisivos são consequência das tensões atuais.

"A polarização pressiona essas instituições a se posicionarem, frequentemente colocando em evidência suas divergências internas", afirma ela.

"Politicamente, os países estão nos dois dois espectros políticos. A Argentina, podemos classificar como um país hoje ligado a uma extrema-direita, com política extremamente liberal, crise econômica muito forte e com problemas de diplomacia internacional", pontua Moura.

"O Uruguai é governado por uma centro-esquerda, com uma frente popular ampla. E o Peru, onde ele vai encontrar a recém-eleita Keiko Fujimori, tem toda uma tradição política que vem do seu pai [o ex-ditador Alberto Fujimori (1938-2024)]", aponta o historiador.

Papa Leão 14º será recebido no Peru com uma estátua em sua homenagem
Papa Leão 14º será recebido no Peru com uma estátua em sua homenagem
Foto: EPA / BBC News Brasil

Entre a doutrina e a pobreza

Moura diz que o catolicismo latino-americano "tem uma tendência não de esquerda ou de direita, mas progressista, para os pobres, devido à sua constituição histórica, social e política".

"E as ditaduras fizeram com que grupos pudessem ter uma visão mais progressista", salienta.

Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes argumenta que as visões rotuladas como "de direita e de esquerda" dentro da religião "não devem ser pensadas de saída a partir da temática política".

Ambos os espectros, afinal, nascem a partir de um entendimento de fé. Os setores católicos conservadores costumam valorizar mais o apego aos ritos e à doutrina; os ditos progressistas, por sua vez, voltam-se para as pautas dos oprimidos, dos necessitados — a chamada "opção preferencial pelos pobres".

"Esquerda ou direita, conservador ou progressista... São categorias que a gente usa para simplificar a realidade", afirma o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor no Lay Centre, também na capital italiana.

"O que acontece na Igreja Católica é a universalidade da mensagem que faz com que seja possível pessoas com diferentes visões de mundo, com entendimentos ideológicos e políticos diferentes, serem parte da mesma religião."

Ao olhar para o catolicismo contemporâneo na América Latina, Domingues acredita que a pauta que costuma ser considerada de esquerda é a defesa dos programas sociais, por exemplo.

"Por outro lado, em valores morais, de família e de fé, se trata de um catolicismo conservador", comenta ele.

Para o vaticanista, o posicionamento crítico de padres e bispos que fizeram críticas ao então candidato Flávio Bolsonaro e declararam voto em Lula, inclusive nas redes sociais, pode ser entendido como uma exceção.

Embora a Igreja recomende que seus clérigos não se posicionem partidariamente, os religiosos têm uma margem de liberdade para se expressar.

"Em situações muito extremas, em que há uma ameaça clara [a direitos básicos ou à própria democracia], eles podem", diz Domingues. "E então um bispo acaba, pessoalmente, decidindo se posicionar de forma mais direta, por exemplo."

Contra as ditaduras

A raiz dessa imagem de que a Igreja latino-americana é mais "esquerdista" remonta ao período em que ditaduras militares dominavam boa parte do continente.

Nos estertores do Concílio Vaticano 2º — realizado entre 1962 e 1965, com uma de suas pautas justamente a importância do olhar pastoral aos mais desfavorecidos e as mazelas sociais —, religiosos católicos que viviam em comunidades de histórica pobreza, resultado de séculos de exploração colonial, e testemunhando violações aos direitos humanos perpetradas por regimes totalitários, voltaram-se ao evangelho para buscar a essência cristã de justiça social.

Nascia a Teologia da Libertação.

"A América Latina foi o solo mais fértil para o surgimento e para a consolidação da Teologia da Libertação", diz o teólogo e psicanalista Lucas Lujan, pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autor do livro Tamanho de Flor.

"Nasceu na América Latina e é uma coisa da América Latina", sintetiza Domingues.

Movimentos como a Teologia da Libertação fizeram oposição ao regime militar
Movimentos como a Teologia da Libertação fizeram oposição ao regime militar
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Lujan ressalta que essa vertente se originou "em um contexto marcado por profundas desigualdade sociais, pobreza estrutural, dependência econômica e regimes autoritários".

"Em uma contradição importante: no continente de maioria cristã onde milhões viviam, e ainda vivem, submetidos à miséria e à lógica de exclusão", destaca ele.

"A Teologia da Libertação surgiu desse confronto entre fé cristã e realidade histórica, numa tentativa de compreender as implicações sociais e políticas do Evangelho diante de tanta injustiça e desigualdade", acrescenta Lujan.

"A defesa dos pobres está no centro do Evangelho", frisa Domingues.

Segundo Tesser, "a associação entre catolicismo latino-americano e esquerda decorre, em boa medida, da visibilidade histórica de setores que assumiram posições críticas diante das desigualdades e do autoritarismo".

"Mas isso não significa que a Igreja, como instituição, tenha sido ou seja predominantemente de esquerda", explica a socióloga.

"A Igreja Católica sempre se posicionou em defesa vida", lembra Ramirez. "Muitos padres e bispos defenderam perseguidos pelas ditaduras, que poderiam ser presos e torturados se chegassem às mãos dos militares." O cientista político ressalta que a instituição também participou ativamente do processo de redemocratização do Brasil.

"É importante, entretanto, não idealizar esse processo: houve bispos que apoiaram ou legitimaram regimes autoritários, enquanto outros resistiram. A Igreja não teve uma posição única diante das ditaduras", pondera Tesser.

Polarização e ameaças autoritárias

As ditaduras caíram, as democracias latino-americanas vieram. Com peculiaridades em cada país, muitas feridas sociais seguiram abertas. Quando padre, e depois bispo, o norte-americano Prevost conheceu isso muito de perto — a maior parte de sua carreira sacerdotal foi empreendida no Peru.

Mas a principal diferença entre o tempo em que ele viveu no continente e o presente atual está na intensidade da polarização política.

Daí esse cenário de Igreja que se posiciona. Porque vê a necessidade de se posicionar.

"Estamos diante de uma transformação na própria relação entre religião, representação política e autoridade moral", afirma a socióloga Tesser. "Durante muito tempo, a Igreja Católica ocupou uma posição privilegiada na organização da vida religiosa latino-americana. Hoje, enfrenta um cenário de pluralização religiosa, crescimento evangélico, diminuição da identificação católica em diversos países e transformação das formas de pertencimento religioso."

"Ao mesmo tempo, a religião adquiriu uma nova centralidade em determinadas disputas políticas, especialmente por meio das redes sociais e de movimentos que articulam conservadorismo moral, nacionalismo e identidade cristã", prossegue ela.

A visita de Leão 14 à América Latina aporta justamente neste caldo efervescente.

"O continente continua sendo uma referência fundamental para o catolicismo mundial, mas é também um espaço de profundas transformações religiosas, sociais e políticas", diz Tesser.

"A visita do papa à América Latina, nesse contexto, pode sinalizar aos religiosos como a Igreja Católica está vendo o atual momento", comenta Moraes. "A gente precisa ver os recados que ele vai emitir ao continente como um todo e como isso pode se refletir em eleições futuras de países hoje governados pela direita."

Uma coisa está clara: ele não aprova os métodos de governar da ultradireita.

"A Igreja não apoia o extremismo e o próprio papa já afirmou que a extrema-direita é incompatível com os valores católicos", pontua Ramirez. Ele falou sobre isso em entrevista coletiva realizada a bordo do avião papal quando retornava da viagem que fez a França, em 28 de setembro.

"A temática religiosa e a temática política conversam o tempo inteiro. A teologia política é algo que de fato está presente", avalia Moraes.

"As visitas papais não são por acaso. Elas representam um projeto e a América Latina é um espaço muito importante para a Igreja Católica", reforça Moura.

BBC News Brasil BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra