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Os motivos que levaram à onda de protestos estudantis na França

7 out 2026 - 17h27
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Resumo
Estudantes franceses realizam protestos massivos contra medidas de austeridade do governo, exigindo mais investimentos na educação e melhores condições escolares. Apoiadas por pais e sindicatos, as manifestações registraram graves confrontos, com centenas de feridos e milhares de detidos. Críticas ao uso de força policial desproporcional levaram à proibição de granadas de efeito moral, enquanto o governo teme que a crise se espalhe para outros setores em meio a tensões econômicas no país.

Manifestações por melhorias no ensino começaram em meados de setembro e se espalharam pelo país, com milhares nas ruas das principais cidades francesas.A revolta dos estudantes na França começou em meados de setembro em escolas da região metropolitana de Paris e se alastrou por todo o país. Eles exigem melhorias no ensino e nas escolas e receberam o apoio de sindicatos, dos pais e de partidos de esquerda, em especial A França Insubmissa (LFI).

Protestos se tornaram violentos, com confrontos entre manifestantes e forças de segurança
Protestos se tornaram violentos, com confrontos entre manifestantes e forças de segurança
Foto: DW / Deutsche Welle

Nesta terça-feira (06/10), mais de 250 mil pessoas, entre estudantes, pais, professores e sindicalistas, manifestaram-se em todo o país, sob forte vigilância policial e num clima de tensão e confrontos. As organizações estudantis estimaram em 450 mil o número de manifestantes.

"A Geração Z se levantou e quer ser ouvida", disse à agência de notícias AFP uma estudante de 19 anos, durante uma grande marcha no centro de Paris, acrescentando esperar que o presidente francês, Emmanuel Macron, ouça as reivindicações.

As aulas foram total ou parcialmente suspensas nesta terça-feira em 891 escolas, segundo o Ministério da Educação. A polícia utilizou gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersar grupos violentos nas proximidades das manifestações em Paris, Estrasburgo, Rennes e Toulouse, entre outras cidades.

O uso generalizado de detenções, gás lacrimogêneo e equipamentos de controle de distúrbios contra adolescentes tem provocado indignação entre pais e professores.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, que defendeu um uso proporcional da força, anunciou a suspensão do uso de granadas de efeito moral após um manifestante de 15 anos ter tido uma mão amputada em circunstâncias ainda não esclarecidas.

Nesta quarta-feira, 86% dos estabelecimentos de ensino reabriram suas portas, segundo números provisórios do Ministério da Educação.

Em Paris, várias escolas ainda estavam bloqueadas na manhã desta quarta-feira por estudantes do ensino médio, com lixeiras impedindo o acesso aos prédios. A universidade Sciences Po Paris também estava bloqueada por uma barricada.

A União Sindical dos Estudantes Secundaristas e a União Estudantil convocaram novas manifestações para esta quinta-feira em Paris e em outras cidades.

Qual a origem dos protestos?

Iniciado em 17 de setembro na região parisiense, o movimento de estudantes que reivindica mais recursos para suas escolas expandiu-se gradualmente, em meio a um clima social tenso, de deterioração dos serviços públicos, e a pouco mais de seis meses da eleição presidencial.

O pano de fundo é o mal-estar criado pelo projeto orçamentário para 2027 do governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, criticado por incluir medidas de austeridade que o governo justifica com a elevada dívida do país, de 119% do PIB, e a pressão que os títulos franceses sofrem nos mercados financeiros.

O que os estudantes reivindicam?

Os manifestantes rejeitam os cortes no setor público e exigem melhorias na educação. Eles denunciam a falta de condições adequadas nas escolas, salas de aula superlotadas e a não substituição de professores ausentes, especialmente nos bairros populares, além da insuficiência de recursos destinados à educação.

Eles atribuem as más condições de aprendizagem ao agravamento do desempenho da França no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), cujos resultados vêm caindo mais rapidamente do que a média da organização desde 2015.

Lecornu reconheceu como legítimas as reivindicações dos estudantes franceses, mas também descreveu os protestos como as manifestações estudantis mais violentas das últimas décadas.

Quem se solidarizou com os estudantes?

Pais, professores e sindicatos aderiram às manifestações em Paris e em outras cidades durante o dia nacional de mobilização desta terça-feira.

Em apoio ao movimento, cinco sindicatos de professores também convocaram uma jornada de greve e manifestações, denunciando as "respostas tardias" do governo, consideradas "desconectadas da realidade".

A central sindical CGT, a segunda maior da França, afirmou que apoiará o chamado dos sindicatos estudantis para novas manifestações de rua nesta quinta-feira.

A preocupação do governo é que os protestos, impulsionados pelos altos preços dos combustíveis e pelo custo de vida, se espalhem para outros setores e deem origem a algo semelhante a uma segunda onda dos Coletes Amarelos, movimento que elevou as tensões sociais na França em 2019.

Qual a reação do governo francês?

Lecornu condenou nesta terça-feira, na Assembleia Nacional, a violência ocorrida à margem das manifestações e refutou a existência de qualquer "repressão policial".

"Incendiar uma escola secundária não melhora a situação das instalações escolares" e "linchar um professor não melhora a taxa de substituição de professores", argumentou.

"Tudo o que pudermos corrigir, nós corrigiremos", prometeu. O chefe do governo anunciou igualmente a suspensão das aulas nas escolas secundárias até o fim da semana e a sua substituição por jornadas de debate e assembleias de diálogo.

Macron convocou na noite desta terça-feira vários de seus ministros para formular uma resposta à crise. Além de Lecornu, participaram da reunião o ministro do Interior, Laurent Nuñez, e o ministro da Educação, Édouard Geffray.

Segundo Nuñez, em entrevista à emissora RTL, Macron pediu moderação durante a reunião de crise. O presidente teria solicitado que se demonstrasse empatia e que fosse explicado à população que a polícia intervém em casos de violência grave.

De que o governo acusou a oposição de esquerda?

Na Assembleia Nacional, nesta terça-feira, Lecornu acusou a LFI, de Jean-Luc Mélenchon, de incentivar a violência nas manifestações com objetivos eleitorais e de adotar uma postura ambígua na condenação aos numerosos atos violentos registrados nos protestos estudantis.

Ele lembrou a participação de um deputado da LFI em alguns bloqueios de escolas de ensino médio e declarações do prefeito de Saint-Denis, no início do movimento, que, segundo ele, teriam "legitimado a violência".

Para Lecornu, trata-se de manter uma postura ambígua diante da condenação da violência dentro de um projeto político voltado para as eleições presidenciais, que consistiria em "semear o caos" até a disputa, prevista para o primeiro semestre de 2027.

Houve violência?

Desde o início dos protestos, no final de setembro, pelo menos 215 estudantes e cerca de 85 professores ficaram feridos, entre eles 34 diretores de escola, além de 715 agentes de segurança, segundo o balanço apresentado por Lecornu.

No final do protesto realizado na capital na semana passada, ocorreram confrontos entre manifestantes e forças de segurança, com lançamento de objetos, uso de gás lacrimogêneo, granadas e fogos de artifício.

O comando da polícia metropolitana relatou a presença de "300 indivíduos hostis" e informou que 12 pessoas foram detidas. A situação tornou-se tensa quando os manifestantes começaram a lançar objetos, pedras e cones de sinalização contra os policiais, que responderam com gás lacrimogêneo, enquanto parte dos manifestantes gritava "todo mundo odeia a polícia!".

Organizações de direitos humanos, estudantes e opositores políticos acusaram a polícia francesa de usar força desproporcional durante a onda de protestos estudantis iniciada há mais de duas semanas.

Diversos advogados que representam adolescentes detidos afirmam que eles sofreram violência física e insultos durante a custódia policial.

Ainoha Pascual, advogada de três menores em Paris, afirmou que eles ficaram aterrorizados. Segundo ela, "uma grande maioria chega à custódia ferida", após receber golpes de cassetete ou ser arrastada pelo chão.

Quais os casos mais notórios de violência?

Em Tours, na semana passada, um estudante do ensino médio de 16 anos perdeu a visão de um olho durante o bloqueio de uma escola secundária, após ser atingido por um projétil cuja origem está sendo investigada.

As autoridades investigam um incidente registrado num vídeo que mostra um policial à paisana aparentemente tocando o cabelo e o peito de uma jovem que havia sido detida em Metz.

O Ministério Público denunciou por agressão o policial que disparou o lançador de granadas responsável por ferir gravemente no rosto um estudante de 14 anos durante um bloqueio estudantil em Saint-Ouen-l'Aumône, no departamento de Val-d'Oise. O adolescente sofreu dupla fratura no maxilar após ser atingido por uma granada de gás lacrimogêneo a uma distância tão curta que perdeu vários dentes.

O ministro da Educação classificou como "uma tragédia" outro caso, o de um estudante de 15 anos que teve a mão amputada por uma explosão durante um confronto ocorrido nesta segunda-feira em Lens, no norte do país. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, declarou haver uma "grande possibilidade" de que uma granada de efeito moral tenha causado a mutilação, e há versões conflitantes sobre as circunstâncias.

Diante disso, ele anunciou nesta quarta-feira a suspensão do uso de granadas de efeito moral nas operações de policiamento dos protestos estudantis.

"Foram necessárias várias crianças mutiladas para o resto da vida para que Nuñez desistisse de usar granadas contra estudantes do ensino médio", declarou Manuel Bompard, coordenador nacional da LFI.

Nuñez também anunciou, em entrevista à rádio RTL, a abertura de 18 investigações conduzidas pela corregedoria da polícia.

Há detidos?

Os números mais recentes do Ministério do Interior indicam que, desde 28 de setembro, 6.547 pessoas foram detidas, a maioria menores de idade. Somente nesta terça-feira foram registradas 488 detenções em todo o território francês.

Há reações no exterior?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o islã e uma "imigração em massa fora de controle" estão na origem do movimento.

"O que está acontecendo na França nada mais é do que o resultado de uma imigração em massa fora de controle. Não se trata das escolas, trata-se do islã querendo assumir o controle de um país que já foi grande!", escreveu Trump em sua rede social, Truth Social.

Há protestos em outros países europeus?

Como sinal de que os protestos na França podem estimular mobilizações em outras partes da Europa, onde os orçamentos públicos enfrentam pressões devido às sucessivas crises do custo de vida e da energia, estudantes em algumas regiões da Bélgica iniciaram ações semelhantes.

Na cidade belga de Liège, na região francófona da Valônia, pelo menos 107 pessoas foram detidas em conexão com protestos estudantis neste mês, informou a agência de notícias Belga.

Os professores também estão em greve. Em Portugal, a principal federação sindical do setor, a Fenprof, iniciou em meados de setembro uma greve por tempo indeterminado contra o excesso de horas extras, recusando-se a realizar qualquer trabalho não remunerado além das 35 horas semanais previstas em lei.

"As causas profundas dos protestos na França refletem problemas familiares a professores e estudantes de outros países: deterioração das condições das escolas, escassez de professores, excesso de carga de trabalho e aumento das desigualdades no acesso à educação", afirmou a Fenprof.

Na Espanha, os sindicatos de professores também têm protestado contra as condições das escolas públicas. Professores de Madri planejam uma greve em 14 de outubro para pressionar por reivindicações que incluem redução da jornada de trabalho, turmas menores e aumento salarial.

as/md (AFP, AP, Reuters, Lusa, EFE)

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