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O papel estratégico da Groenlândia na disputa entre EUA, China, Rússia e Otan pelo Ártico

Com localização privilegiada e diante do avanço militar da Rússia no Ártico, Groenlândia ganha importância estratégica para EUA e Otan.

6 fev 2026 - 15h28
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O navio HDMS Ejnar Mikkelsen da Marinha Dinamarquesa patrulha em 20 de janeiro de 2026 perto de Nuuk, na Groenlândia
O navio HDMS Ejnar Mikkelsen da Marinha Dinamarquesa patrulha em 20 de janeiro de 2026 perto de Nuuk, na Groenlândia
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Uma ilha em que uma camada de gelo com até 3 quilômetros de espessura cobre mais de 80% do terreno. Durante a maior parte do ano, o gelo marinho se agarra à costa, tornando-a inacessível a embarcações.

Foi ali também onde foi registrada a temperatura mais fria da história no Hemisfério Norte: - 69,6 ºC em 1991.

A Groenlândia não é exatamente um destino comum para a maioria das pessoas, tampouco é considerada um lugar muito procurado para se viver. Mas está atualmente no centro das discussões das maiores potências globais sobre segurança nacional.

A ilha de 56 mil habitantes se tornou um importante personagem da geopolítica desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que "não há volta atrás" em suas ameaças de assumir o controle do território.

Nesta semana, o vice-presidente americano, JD Vance, disse que os aliados europeus dos EUA fizeram mais concessões nas negociações em relação à Groenlândia do que admitem publicamente.

"Definitivamente, conseguimos muito mais do que inicialmente", disse Vance, sem dar maiores detalhes.

Ele sugeriu que a "estrutura de um futuro acordo" — apresentada por Trump no mês passado — seria benéfica para os EUA.

Muito antes de o republicano assumir a Casa Branca pela primeira vez, em 2017, o Ártico já era uma zona de muitas disputas. Durante a Guerra Fria, o Polo Norte se tornou uma potencial rota de mísseis e União Soviética e EUA expandiram suas operações militares na região.

Mas segundo especialistas, a região voltou aos radares, especialmente das potências ocidentais da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que agora se organizam para fazer frente ao crescimento militar da Rússia no Ártico.

Moscou possui algo entre 30 e 40 bases na região e usa uma cidade no extremo norte de seu território como sede da sua maior e mais poderosa força naval, a Frota do Norte.

Mas como — e por que — essa ilha inóspita que atualmente faz parte da Dinamarca alcançou essa posição de protagonista da geopolítica mundial?

Da colonização nórdica às ameaças de Trump

Exploradores e colonizadores nórdicos chegaram à Groenlândia pela primeira vez no final do século 10. Acredita-se que o nome da ilha, que faz referência a "terras verdes", tenha sido dado pelo explorador viking Erik, o Vermelho, para tornar o local mais atraente para os colonizadores, que chegaram alguns anos depois.

Nos séculos 14 e 15, os assentamentos nórdicos praticamente desapareceram, provavelmente devido à queda significativa das temperaturas provocada pelo fenômeno conhecido como Pequena Era Glacial.

Em 1721, porém, colonizadores dinamarqueses voltaram ao local e começaram a se estabelecer perto do que hoje é a capital, Nuuk: foi assim que a Groenlândia se tornou território dinamarquês.

Em 1953, após anos como uma colônia, a Groenlândia foi oficialmente incorporada ao Reino da Dinamarca e seus habitantes tornaram-se cidadãos dinamarqueses. Em 1979, após um referendo, a ilha ganhou o status de território autônomo.

Os poderes do governo local foram ainda expandidos trinta anos depois, após outra votação popular, abrindo caminho para discussões mais consolidadas sobre a independência da Dinamarca.

Pesquisas de opinião realizadas nos últimos anos indicam um padrão bastante consistente em que algo em torno de 70% a 85% da população diz querer a independência. Mas apesar da grande maioria dos partidos no Parlamento também apoiarem a causa, as discussões avançaram lentamente nos últimos anos.

Imagem de cerca de 1700 de uma colônia na Groenlândia
Imagem de cerca de 1700 de uma colônia na Groenlândia
Foto: Hulton Archive/Getty Images / BBC News Brasil

As declarações de Donald Trump sobre os Estados Unidos tomarem o controle da ilha, porém, fizeram que o tema ganhasse status internacional.

Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, na semana passada, o americano disse que "não usará força" para adquirir a Groenlândia — em uma declaração que contrastou com a ideia expressada por ele no passado, quando chegou a dizer que conquistaria seu objetivo "de um jeito ou de outro".

Agora, Washington negocia as bases para um acordo de cooperação em segurança no Ártico com a Otan.

Ainda se sabe muito pouco sobre o entendimento, mas segundo informações divulgadas pelo jornal The New York Times, uma das ideias em discussão inclui a cessão pela Dinamarca da soberania sobre pequenas áreas da Groenlândia, onde os Estados Unidos construiriam bases militares.

Para defender a posse da Groenlândia, Trump mencionou a ameaça de navios russos e chineses em volta da ilha. Mas a Dinamarca afirma que "hoje" esta ameaça não existe.

Sobre essa questão, os aliados da Otan tentaram tranquilizar os Estados Unidos de que eles irão aumentar a segurança no Ártico. E o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, afirma que o acordo que está sendo discutido também exigirá esta contribuição.

Segundo especialistas, contudo, o interesse que a organização e seus membros têm demonstrado no acordo e no tema fortalece a ideia de que o Ártico é cada vez mais importante para seus membros.

Soldado dinamarquês em um posto de controle no porto de Nuuk, Groenlândia
Soldado dinamarquês em um posto de controle no porto de Nuuk, Groenlândia
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Minérios e localização estratégica

Mas por quê?

A primeira resposta para essa pergunta está nos recursos naturais. Segundo estimativas, a ilha abriga grandes reservas de minérios muito cobiçados, como níquel, lítio, cobre e grafite.

Como grande parte desse território é inexplorado e está sob gelo, ninguém sabe exatamente o que há ali. Mas estudos sugerem que a Groenlândia tem depósitos de 38 dos materiais considerados críticos por União Europeia e Estados Unidos.

A ilha também teria potencial de abrigar até um quarto das reservas globais de terras-raras — minérios que são componentes essenciais para indústrias modernas como as de veículos elétricos.

Trump nega qualquer interesse nos minerais da Groenlândia, mas especialistas afirmam que o acesso a esses componentes ajudaria os Estados Unidos a competir com seu maior adversário comercial atual: a China.

"Por um lado, essa questão toda se resume aos minerais críticos, e para os Estados Unidos, a dependência de importações desses minerais, como grafite e zinco, é de quase 100%. E o país vê a Groenlândia como uma forma de obter esses minerais e reduzir a dependência da China", afirmou Gabriella Gricius, pesquisadora do Instituto Ártico, em entrevista ao podcast Newscast, da BBC.

Mas algo que Trump vem apontando com bastante clareza é o papel estratégico da Groenlândia do ponto de vista de segurança. A posição geográfica da ilha, entre Europa, América do Norte e Rússia, faz com que seja um excelente ponto para os Estados Unidos instalarem interceptores de mísseis.

Os americanos já possuem uma base militar ali, que serve de posto de observação. E um acordo assinado na década de 1950 estabelece que Washington pode construir instalações militares na ilha para proteger a região.

Mas Trump alegou que a ilha é "vital" para o Domo de Ouro, um escudo antimísseis que ele quer construir até o fim do seu mandato.

Arte sobre o Domo de Ouro
Arte sobre o Domo de Ouro
Foto: BBC News Brasil

Mas não é só isso. A Groenlândia — ou, nesse caso, a Dinamarca — é apenas um dos oito países que possuem território no Círculo Polar Ártico. Canadá, Islândia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia e os próprios Estados Unidos também controlam áreas por ali.

E alguns países do Ártico estão mais próximos do que muitos imaginam. Os Estados Unidos e a Rússia, por exemplo, são vizinhos, com o Alasca e o nordeste da Sibéria separados pelo Estreito de Bering, que tem cerca de 85 km em seu ponto mais estreito — uma distância menor do que a entre as cidades de São Paulo e Campinas.

A situação se complica ainda mais quando analisada do ponto de vista das zonas de influência globais e da disputa entre Estados Unidos, China e Rússia.

A invasão da Ucrânia pelas forças russas em 2022 reacendeu as rivalidades da Guerra Fria na região. Em questão de meses, a Finlândia e a Suécia entraram pra Otan. E como um território da Dinamarca, a Groenlândia também faz parte da organização.

Ou seja, o mapa do Ártico está dividido: de um lado, Rússia. Do outro, países da Otan.

"O fato de a Groenlândia estar situada em uma parte muito importante do Ártico em termos de preocupações com a segurança, especialmente com a crescente militarização da região, coloca-a numa posição central entre os interesses da Otan e da Rússia", afirma Marc Lanteigne, professor da Universidade Ártica da Noruega, Tromsø.

O especialista em segurança no Ártico afirma ainda que a ilha fica próxima a uma rota marítima de grande importância, conhecida como Lacuna de GIUK. A passagem fica entre a Groenlândia, a Islândia e o Reino Unido, e navios ou submarinos que viajam do Ártico para o Oceano Atlântico geralmente passam por ela.

Durante a 2ª Guerra Mundial, sua importância foi um dos motivos que levaram os EUA a estabelecer uma base militar na Groenlândia para combater os submarinos nazistas. Na Guerra Fria e até os dias atuais, esse ponto estratégico é utilizado pela Otan para instalação de sistemas de vigilância subaquática para monitorar submarinos.

E com o derretimento do gelo na região, a expectativa é que novas possibilidades de rotas na região se abram no futuro.

"Grande parte do gelo marinho que antes dificultava o transporte marítimo na Groenlândia e arredores desapareceu. Assim, grande parte do Ártico está começando a se abrir para uso marítimo, tanto civil quanto, potencialmente, militar", afirma Lanteigne.

"A preocupação é que esta área precise de muito mais monitoramento. Há grande receio de que navios russos e, potencialmente, chineses no futuro, possam utilizar essas rotas."

Mapa mostra localização da Lacuna GIUK entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido
Mapa mostra localização da Lacuna GIUK entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido
Foto: BBC News Brasil

Presença russa e chinesa no Ártico

Não há qualquer indício de que a Rússia ou a China tenham presença militar na Groenlândia em si, diferentemente do que Trump alega. Os próprios governos dinamarquês e groenlandês confirmaram a informação.

"A Rússia não tem interesses militares perto da Groenlândia, que é patrulhada extensivamente por navios dinamarqueses e de outros países da Otan. Seria extremamente difícil para um navio militar russo se aproximar sorrateiramente da ilha — e a relação custo-benefício de uma ação seria muito baixa", opina Marc Lanteigne.

Mas os dois países colaboram intensamente no Ártico, especialmente em projetos de extração de gás natural.

A Rússia também é o país com maior território e controle de águas na região, abrangendo 53% do litoral do Oceano Ártico. Aproximadamente 2,5 milhões de russos vivem ali, representando quase metade da população que vive no Ártico em todo o mundo.

Durante a Guerra Fria, o Polo Norte se tornou uma potencial rota de mísseis e União Soviética e EUA expandiram suas operações militares na região: na foto, soldados da URSS durante um exercício de treinamento nos arredores de Murmansk, Rússia, em 1988
Durante a Guerra Fria, o Polo Norte se tornou uma potencial rota de mísseis e União Soviética e EUA expandiram suas operações militares na região: na foto, soldados da URSS durante um exercício de treinamento nos arredores de Murmansk, Rússia, em 1988
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Além disso, Moscou possui dezenas de instalações militares na sua costa leste — algo em torno de 30 e 40, segundo diversas fontes.

Desde o início dos anos 2000, Vladimir Putin comanda uma espécie de revitalização militar e econômica dessa área. Em 2020, foi inaugurado o que ele diz ser o posto militar mais ao norte do planeta, numa ilhada chamada Terra de Alexandra.

A base Trevo Ártico abriga até 150 militares, incluindo uma unidade de defesa aérea.

O principal ativo militar da Rússia, a Frota do Norte, também está sediada na região, em Severomorsk. A frota é considerada a maior e mais poderosa força naval do país, com navios convencionais e uma frota de submarinos estratégicos que transporta a maior parte das ogivas nucleares da Marinha Russa.

Base Trevo Árticol: Design especial foi utilizado para suportar as condições climáticas severas
Base Trevo Árticol: Design especial foi utilizado para suportar as condições climáticas severas
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Toda essa presença ajuda a explicar a corrida dos Estados Unidos e da Otan por um plano mais robusto de defesa por ali.

Somado a isso, autoridades do governo e das forças militares russas já disseram que estariam dispostos a enfrentar as forças ocidentais no Ártico, caso fosse necessário, traçando paralelos com a situação na Ucrânia.

"A Rússia não permitirá que ninguém a prive de seu futuro. Provamos isso em Donbas [na Ucrânia] e provaremos no Ártico, se necessário", declarou Andrei Khapochkin, senador da região de Sakhalin, no Extremo Oriente russo, em um artigo para o jornal governamental Rossiyskaya Gazeta, publicado em novembro.

Rússia e China também já realizaram exercícios militares conjuntos no Ártico, mas segundo Marc Lanteigne, da Universidade Ártica da Noruega, Tromsø, "elas são apenas para exibição".

"A Rússia certamente está desenvolvendo sua capacidade militar no Ártico, mas grande parte de sua atividade tem ocorrido nas proximidades da região de Barents, Noruega, ou no Pacífico, perto do Alasca", diz.

Mas especialistas afirmam também que as próprias ameaças dos Estados Unidos sobre a Groenlândia podem incentivar Moscou, e eventualmente Pequim, a expandir ainda mais sua presença e influência na região.

"Se um país acredita que pode tomar qualquer coisa que beneficia sua segurança, por que não faríamos o mesmo, se acreditássemos que isso beneficia a nossa segurança?", disse Konstantin Remchukov, editor-chefe da Nezavisimaya Gazeta, em entrevista à BBC News.

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