O novo argumento de Trump para anexar a Groenlândia — e ele faz sentido?
No Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump deu mais um motivo para os EUA adquirirem o território, além das suas preocupações com segurança nacional e a importância de manter a ilha na esfera de influência americana.
O presidente americano, Donald Trump, apresentou nesta quarta-feira (21/1) seus argumentos a líderes globais no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, sobre por que os Estados Unidos deveriam adquirir a Groenlândia.
Alguns pontos, como suas preocupações com a segurança nacional e a localização da ilha na esfera de influência americana no Hemisfério Ocidental, já eram conhecidos.
A novidade, no entanto, foi sua afirmação de que os EUA detinham o controle da ilha — e têm direito a ela — devido aos seus esforços para defender o território durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), após a invasão da Dinamarca pela Alemanha.
"Nós já a possuíamos, mas a devolvemos à Dinamarca depois da Segunda Guerra Mundial", disse ele.
Os EUA "deveriam tê-la mantido", afirmou.
Atualmente, a Groenlândia é um território autônomo que faz parte do reino da Dinamarca desde 1814.
O novo argumento de Trump faz sentido?
A Groenlândia é a maior ilha do mundo, considerando-se a Austrália como continente. Localizada sobretudo dentro do Círculo Polar Ártico, tem cerca de três quartos do seu território cobertos permanentemente por uma camada de gelo.
Com uma população de aproximadamente 56 mil habitantes, é o território menos densamente povoado do planeta.
Em 1933, um tribunal internacional — um predecessor da Corte Internacional de Justiça, o principal órgão judicial das Nações Unidas — decidiu que a Groenlândia pertencia à Dinamarca, rejeitando uma reivindicação concorrente da Noruega.
Em 1941 — durante a Segunda Guerra Mundial — os EUA e a Dinamarca assinaram um acordo que permitia aos EUA defender a Groenlândia para impedir que a Alemanha nazista a conquistasse.
Isso levou à construção de bases americanas na ilha, bem como ao envio de tropas americanas.
No entanto, o acordo não envolvia uma transferência de soberania, o que significa que a Groenlândia nunca se tornou território americano.
No ano seguinte ao término da Guerra, o então Secretário de Estado dos EUA, James Byrnes, ofereceu-se para comprar a ilha por US$ 100 milhões em barras de ouro, o equivalente a cerca de US$ 1,5 bilhão (R$ 8 bilhões) hoje. A oferta foi recusada.
Portanto, os EUA nunca tiveram a posse da ilha para ela pudesse ser "devolvida" à Dinamarca, como disse Trump em seu discurso em Davos.
'Não vou usar força'
No discurso em Davos, Trump exigiu a abertura de "negociações imediatas" sobre sua intenção de adquirir a Groenlândia.
Disse ainda que não vai usar a força contra países aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) — aliança político-militar em vigor há mais de sete décadas entre países da América do Norte e da Europa — como a Dinamarca.
"Não preciso usar força, não quero usar força, não vou usar força."
No passado, Trump afirmou, sem provas, que o território está "coberto de navios russos e chineses por toda parte".
Sua localização entre a América do Norte e o Ártico torna a ilha estrategicamente posicionada para sistemas de alerta precoce em caso de ataques com mísseis e para o monitoramento de embarcações na região.
Porém, segundo os acordos vigentes com a Dinamarca, os EUA podem enviar quantas tropas quiserem para a Groenlândia.
Os EUA já mantêm mais de cem militares permanentemente locados em sua base de Pituffik, no extremo-noroeste da Groenlândia.
A base de Pituffik existe desde a Segunda Guerra. Tropas americanas se deslocaram para a ilha para estabelecer estações de rádio e postos militares, quando os nazistas ocuparam a Dinamarca durante o conflito.
E a Dinamarca e a Groenlândia, após uma recente visita a Washington para negociações, sinalizaram abertura para o envio de mais tropas americanas para o território no futuro.
Segundo Trump, a Groenlândia é "um país vasto, quase desabitado e não desenvolvido, que está indefeso".
"Apenas os EUA podem proteger essa enorme massa de terra, esse gigantesco bloco de gelo, desenvolvê-lo e melhorá-lo", disse Trump em Davos.
Trump afirmou que quer o território para o projeto do "maior domo de ouro já construído". O "domo de ouro" é um projeto do governo americano para proteger o país de mísseis lançados da Terra ou do espaço, inspirado no "domo de ferro" de Israel.
Trump também negou no discurso que seu interesse seja em minerais de terras raras na Groenlândia.
"O que importa é a segurança nacional estratégica e a segurança internacional", disse o republicano.
O novo argumento de Trump surge em momento de tensão entre EUA e Europa devido ao interesse americano no território.
No sábado (17/1), o presidente dos EUA impôs novas tarifas sobre a Dinamarca e outros sete países europeus que se opõem ao seu plano de aquisição.
Com o discuso em Davos, Trump acabou com qualquer esperança de líderes europeus sobre um alívio na tensão da crise da Groenlândia, analisa Nick Beake, correspondente da BBC na Europa.
Mas, pontua Beale, deverá haver algum alívio pelo fato de o presidente americano ter prometido não usar força militar.