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Imigrantes contam horror do trajeto à Europa: "Não é humano"

"Vomitaram em cima de mim, dentro das minhas roupas". Imigrantes que sobreviveram aos naufrágios no Mediterrâneo relatam momentos de desespero

29 abr 2015 - 09h12
(atualizado às 12h08)
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Imigrante etíope tira piolhos de outra adolescente. Meninas podem ter sido aliciadas por redes de prostituição
Imigrante etíope tira piolhos de outra adolescente. Meninas podem ter sido aliciadas por redes de prostituição
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

A travessia do norte da África para a Itália é a etapa mais perigosa da viagem, mas não a última - para quem sai dela vivo. Naquele dia, o mar estava calmo. Madhi Isaac, todavia, olhava perplexo o Mediterrâneo. Lembrava dos mortos e parecia não acreditar que sobreviveu à travessia. “Não é algo que um ser humano possa enfrentar. Estamos arriscando nossa vida”, diz Madhi, 40 anos. Ele deixou o Benin, na região ocidental da África, há sete meses. Atravessou a pé, às vezes de carona, o Níger e parte do Sahara até chegar a Trípoli, na Líbia.

“Eu paguei duas vezes. Paguei para que não me empurrassem (para fora do barco) e paguei a outro homem 1,4 mil dinares (cerca de R$ 3,2 mil) para vir de Trípoli até aqui. Quando entramos no barco, cristãos e muçulmanos, começamos a rezar para que chegássemos. Deus ouviu nossas preces: chegamos”.

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"Não é humano, diz imigrante resgatado em alto mar na Itália:

Nas contas de Madhi, a travessia da Líbia para a Itália levou cerca de 15 horas, até que foi resgatado em alto mar junto com outros 60 imigrantes. “Se eu tivesse um futuro no meu país eu não sairia de lá. Eu teria ficado no meu país para construir meu futuro. Mas no Benin não há futuro. Eu tive que encontrar uma solução fora do Benin, é por isso que eu vim”.

Outro sobrevivente, Gibrail Sowe, de 22 anos, do Gâmbia, também justifica a travessia mortal. “Não é fácil. A vida é colocada em risco. Tudo se resume à pobreza. Você não vai conseguir nada ficando lá”.

Itália: sobrevivente de naufrágio justifica a travessia mortal:

Madhi e Gibrail estão em um abrigo improvisado em um ginásio em Pellaro, na Calábria, para onde parte dos sobreviventes dos últimos naufrágios foram encaminhados. Eles sofreram com sarna e piolhos e não podem seguir viagem até que estejam completamente curados. Ambos pretendem entrar com o pedido de asilo político na Itália.

No mesmo abrigo, está Nahom Aron, de 21 anos, da Eritreia. Depois de ser resgatado, ficou dois dias embarcado em um navio da marinha italiana. Durante a travessia, ficou a maior parte do tempo no porão do barco.

“Faltava ar, era muito quente. Vomitaram em cima de mim, dentro das minhas roupas. É muito difícil recordar isso”.

Nahom sonha em ir para a Suíça, aonde teria amigos e parentes. Quando perguntei como pagou, concretamente, os atravessadores, uma vez que havia dito que não tinha dinheiro, falou  em “blood money” e “black market”, e se afastou. “Quando cheguei a Trípoli, os árabes deixaram que eu ligasse para meus parentes e pude embarcar”, afirmou.

Missionária brasileira ajuda imigrantes após naufrágio:

Na linha de frente da acolhida aos imigrantes, está a missionária brasileira Maria Helena Aparecida. Com mais de 40 anos de experiência na missão com imigrantes, não hesita ao afirmar que hoje o tráfico de seres humanos é mais rentável que o de drogas e armas. “Se algo não for feito na origem, será uma catástrofe”, disse a religiosa.

Na semana passada, a União Europeia anunciou mais verbas para a execução da Operação Triton de vigilância e resgate dentro dos limites europeus do Mediterrâneo. Os grandes desafios para a Itália continuam sendo os primeiros socorros aos sobreviventes e o encaminhamento deles à estruturas onde possam permanecer até que a situação legal seja resolvida. 

Sobreviventes dos últimos naufrágios estão em um abrigo improvisado em um ginásio em Pellaro, na Calábria
Sobreviventes dos últimos naufrágios estão em um abrigo improvisado em um ginásio em Pellaro, na Calábria
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Contudo, estes abrigos de emergência já não são suficientes, principalmente na Sicília e na Calábria, principais portos do sul da Itália. As duas regiões estão entre as que mais sofrem com a crise econômica. Em Reggio Calábria, é cada vez mais comum encontrar imigrantes africanos pelas ruas, pendido esmolas nos semáforos, nas portas de supermercados e igrejas. 

Um voluntário no centro de acolhimento de Pellaro disse que desde 2013, quando o fluxo imigratório se intensificou, acumula centenas de horas-extra de trabalho que não foram pagas. Mesmo assim, não deixa de trabalhar junto aos imigrantes. 

Com o verão chegando e as condições meteorológicas favoráveis, as preocupações aumentam na Itália. Inevitavelmente, novos barcos de imigrantes zarparão da costa do norte da África em direção à Europa. “E nós estaremos aqui, esperando por eles”, afirmou a missionária brasileira.

Fonte: Especial para Terra
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