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Nacionalismo "não termina bem", adverte Merkel

7 jun 2026 - 17h41
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Em entrevista a jornal alemão, ex-premiê alerta contra ascensão do nacionalismo na Europa. E admite que decisão de acolher refugiados em 2015 impulsionou a ultradireitista AfD, atual líder nas pesquisas.Uma das líderes democráticas mais longevas do pós-guerra, a ex-chanceler federal da Alemanha Angela Merkel reconheceu que sua decisão de manter as portas do país abertas durante a crise de refugiados de 2015 impulsionou o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD).

A sigla, que elegeu a segunda maior bancada no Parlamento em 2025 e hoje promove abertamente a "remigração" de cidadãos indesejados - agenda que pôs a AfD em rota de colisão com a Constituição alemã -, atualmente lidera todas as pesquisas de intenção de voto.

"Claro que minha decisão contribuiu para que a intenção de voto da AfD voltasse a subir", concedeu Merkel em entrevista publicada na edição deste domingo (07/06) do jornal alemão Frankfurter Allgemeine.

Embora tenha reconhecido "problemas com a migração ilegal", a ex-premiê argumentou que teria sido "inútil" tentar barrar os refugiados à força.

E frisou que, quando deixou o governo, em 2021, a intenção de voto na AfD oscilava entre 10% e 11%. Hoje, esse índice chega a 29% - e está a uma distância considerável do bloco conservador União Democrata Cristã (CDU)/União Social Cristã (CSU), outrora liderado por Merkel e hoje sob a batuta do chanceler federal Friedrich Merz, seu rival.

"Penso que a briga dentro da União contra minha decisão não foi exatamente útil em conter a AfD", alfinetou Merkel.

"Não podemos permitir isso. Isso não termina bem"

Merkel, que governou a Alemanha por 16 anos, de 2005 a 2021, disse que os outros partidos não deveriam deixar a AfD pautar o tom e os temas de suas agendas. E alertou contra a ascensão do nacionalismo na Europa e na Alemanha como resposta aos desafios da globalização.

"Não podemos permitir isso. Conhecemos isso da história. Isso não termina bem", disse, no que soou como uma referência velada à Alemanha nazista.

Merkel sobre queixas de Merz no governo: "Ninguém o obrigou a fazer esse trabalho"

Ao mesmo tempo, a ex-premiê reconheceu que o governo de Merz não tem um trabalho fácil. "Como todos os problemas podem ser resolvidos em uma época em que os Estados Unidos adotam uma política completamente nova em relação à Europa, em que há uma guerra entre Ucrânia e Rússia, em que transformações tecnológicas, especialmente a inteligência artificial, avançam na vida de todos nós?"

Ainda assim, ela não parece se compadecer de seu colega de partido, que recentemente se queixou sobre ser o chefe de governo alemão mais hostilizado nas redes sociais. "Eu sempre me orientei por Helmut Kohl", disse, citando o padrinho político e ex-chanceler federal que governou a Alemanha de 1982 a 1998. "Ele dizia que ninguém o obrigou a fazer esse trabalho."

No fim de semana, Merz invocou a célebre frase de Merkel proferida durante a crise de refugiados de 2015 para motivar seus correligionários a seguir adiante com as reformas planejadas para o sistema de seguridade social. "Nós vamos conseguir, podemos conseguir, se todos permanecermos unidos e voltarmos a acreditar uns nos outros", disse num evento partidário em Mecklenburg-Pomerânia Ocidental.

Se ela acha que Merz tem razão e seu governo conseguirá aprovar as reformas? "Sim", respondeu Merkel, lacônica.

Mea culpa sobre papel dos europeus na Otan

A ex-premiê também disse que os países europeus da Otan não fizeram o suficiente para se rearmar nos últimos cerca de 12 anos, o que classificou como falha clara.

A fala ecoa uma crítica recorrente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que lidera a aliança militar.

Em 2014, países-membros se comprometeram a destinar 2% do Produto Interno Bruto à defesa - promessa que a maioria dos europeus só cumpriria muitos anos mais tarde, em 2024.

"Olhando para trás, não fomos rápidos o suficiente", admite Merkel. "Isso já irritava o presidente Trump naquela época. Tínhamos um ponto fraco."

A própria Merkel conviveu com Trump durante a primeira passagem dele pela Casa Branca, de 2017 a 2021. E explica assim seu estilo "difícil" de governo: "Ele não consegue imaginar que, na política, não apenas um lado, mas ambos os lados podem ganhar. Pode ter a ver com sua carreira como empresário do ramo imobiliário [...]. 'Um terreno só pode ser de uma pessoa. Quando outra pessoa o consegue, eu perdi'."

ra (DW, ots)

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