"Lutem pela democracia", diz Merkel em meio a avanço da ultradireita no leste alemão
Em uma rara manifestação pública, a ex-chanceler Angela Merkel convocou os alemães a defenderem a democracia diante do avanço do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD). A declaração ocorre às vésperas de eleições estaduais no leste do país, com destaque para a Saxônia-Anhalt, onde a legenda extremista lidera as pesquisas com 40% das intenções de voto e pode conquistar um governo regional inédito desde 1945. Merkel alertou que o avanço da sigla se tornou um fenômeno nacional.
A uma semana de eleição estadual crucial no leste alemão, que pode abrir caminho para primeiro governo local da AfD, ex-chanceler federal pede "coragem" para "defender a democracia"."Precisamos lutar com firmeza por esta democracia", disse na noite de sábado (29/08) Angela Merkel, ex-chanceler federal da Alemanha, a uma semana de uma eleição estadual que pode ter profundo impacto no país e abrir caminho para que o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) conquiste seu primeiro governo regional - um feito inédito para uma legenda alemã de tal matiz política desde o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.
"Acredito que agora, mais uma vez - algo que não precisávamos fazer há muitas décadas -, devemos realmente lutar com firmeza por esta democracia, simplesmente defendê-la, ter um pouco de coragem, honrar a nossa palavra e dizer que esta é uma maneira maravilhosa de viver", disse Merkel, durante um evento em Berlim, no que foi encarado pela imprensa alemã como uma rara intervenção da ex-chanceler em assuntos políticos da Alemanha desde a sua saída do governo em dezembro de 2021, após 16 anos no poder.
Merkel mencionou especificamente a AfD, que caminha para conquistar 40% dos votos, segundo pesquisas, na eleição estadual do estado da Saxônia-Anhalt, de três milhões de habitantes e no leste alemão, região onde a conservadora Merkel cresceu.
Na sua fala, Merkel enfatizou que a maioria dos alemães não vota na AfD nacionalmente - na última eleição federal, em 2025, o partido obteve 20,8% dos votos nacionais. Merkel observou que a AfD é muito forte nos territórios da antiga Alemanha Oriental, mas que o partido também ganhou força na antiga Alemanha Ocidental. "Tornou-se um fenômeno que abrange toda a Alemanha", observou Merkel, apontando que a AfD também obteve ganhos eleitorais em pleitos estaduais nos estados ocidentais de Baden-Württemberg e da Renânia-Palatinado.
Os resultados eleitorais deste ano confirmam isso. Em Baden-Württemberg, a AfD obteve 18,8% dos votos em março, quase dobrando seu resultado anterior. Duas semanas depois, alcançou 19,5% na Renânia-Palatinado — o melhor resultado do partido em uma eleição estadual no oeste do país.
Críticas de Merkel à campanha eleitoral na Saxônia-Anhalt
A AfD conseguiu, em certa medida, "dominar todas as nossas conversas, da manhã à noite", disse Merkel em relação à Saxônia-Anhalt. As pessoas já nem sabem o que os outros partidos realmente propõem, acrescentou ela.
Ela já havia argumentado de forma semelhante em outra fala pública em maio, defendendo que os outros partidos deveriam se definir menos pela forma como se distinguem da AfD e, em vez disso, falar mais claramente sobre o que eles próprios desejam.
AfD no topo das pesquisas
A eleição na Saxônia-Anhalt está prevista para o próximo domingo, 6 de setembro. Uma pesquisa da emissora ZDF, divulgada em 28 de agosto, aponta que a AfD aparece com 40% das intenções de voto no estado, enquanto a conservadora União Democrata Cristã (CDU) — o partido de Merkel e do atual chanceler federal Friedrich Merz - registra 23%. Em seguida, aparecem o partido A Esquerda (13%), o Partido Social-Democrata (9%), os Verdes (6%) e s Liberais Democratas e o populista de esquerda BSW (com 3% cada).
O diretório da AfD na Saxônia-Anhalt é classificado pela agência de inteligência interna do estado como uma organização "extremista de direita confirmada" por posições de bandeiras consideradas incompatíveis com princípios democráticos e a Constituição alemã.
O partido defende deportações em massa de imigrantes, o fim de políticas de diversidade e multiculturalismo, além de atacar iniciativas voltadas à memória do Holocausto e ao enfrentamento do passado nazista alemão. Na Saxônia-Anhalt, entidades e atores culturais temem sofrer censura e perseguição caso o partido chegue efetivamente ao poder.
O candidato ao governo do estado, Ulrich Siegmund, pode se tornar o primeiro chefe de governo estadual de seu partido.
No entanto, ao serem questionados sobre quem prefeririam ver liderando o estado, 48% dos entrevistados citaram o atual governador e conservador Sven Schulze, da CDU, enquanto 32% mencionaram Siegmund. Schulze assumiu o cargo apenas em janeiro, sucedendo Reiner Haseloff, que deixou a função antecipadamente após liderar o governo por quase 15 anos.
AfD deve obter mais ganhos em mais duas eleições estaduais em setembro
Além da Saxônia-Anhalt em 6 de setembro, outros dois estados vão às urnas eleger novos governos em 20 de setembro: a cidade-estado de Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, também no leste alemão.
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, um estado de perfil semelhante ao da Saxônia-Anhalt, a AfD, segundo pesquisa Insa divulgada na primeira quinzena de agosto, aparece com 36% das intenções de voto. A legenda aparece à frente do Partido Social-Democrata (SPD, de centro-esquerda), que tem 29%. Já a CDU conta com 10%. Em 2021, no último pleito no estado, a AfD obteve 16,7% dos votos.
Em Berlim, a AfD aparece com 18% das intenções de voto, com potencial de dobrar o apoio de 9,1% obtido no último pleito, em 2023. O partido, porém, aparece atrás da legenda A Esquerda, que deve obter 22%, segundo pesquisa Forsa divulgada em 22 de agosto. A AfD também aparece empatada com a CDU, que também tem 18% das intenções.
Trajetória da AfD
Fundada em 2013, inicialmente como uma sigla eurocética de tendência mais liberal, a AfD rapidamente passou a pender para a ultradireita, especialmente após a crise dos refugiados de 2015-2016 durante o governo Merkel. Com posições radicalmente anti-imigração, membros que se destacam na imprensa por falas incendiárias ou racistas, a legenda é rotineiramente acusada de abrigar neonazistas e já teve várias de suas alas colocada sob vigilância policial por suspeita de extremismo.
A AfD é especialmente forte nos estados do leste, que compunham a antiga Alemanha Oriental comunista. Nos últimos anos, políticos da sigla que têm seus redutos nessa área adotaram posições pró-Rússia, anti-sanções e contra ajuda militar ocidental à Ucrânia. O partido também tem conexões com a extrema-direita mundial. Em 2021, uma de suas deputadas, Beatrix von Storch, foi recebida pelo então presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
jps (dpa, ots, DW)
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