Israel promete manter ataques ao Hezbollah, enquanto líderes alertam para risco ao cessar-fogo
Após ataques aéreos mortais no Líbano, Israel reiterou nesta quinta-feira (9) sua determinação de atacar o Hezbollah e pediu a evacuação de subúrbios no sul do país vizinho, em uma escalada que gerou preocupação internacional e levou países como Alemanha, Rússia e membros da União Europeia a alertar para o risco de comprometimento da trégua negociada entre Estados Unidos e Irã.
Depois de cinco semanas de guerra no Oriente Médio, o cessar-fogo, agora em seu segundo dia, pareceu trazer algum alívio, sem relatos de bombardeios no Irã ou no Golfo.
Em Teerã e outras cidades, milhares de iranianos se reuniram para marcar o 40º dia desde o assassinato do ex-líder supremo Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro por um ataque israelense-americano. Apesar de seu "martírio", o aiatolá Khamenei "está vivo, está nos observando e está orando por cada um de nós", disse à AFP a estudante Nastaran Safai, de 24 anos, acrescentando que a guerra terminou em uma "vitória" para o Irã.
Em Israel, locais sagrados e escolas reabriram, com a maioria das restrições relacionadas ao estado de emergência suspensas.
Em Jerusalém Oriental, no Monte do Templo, um jovem fiel, Hamza al-Afghani, compartilhou sua alegria "indescritível".
Líbano em luto
Já no Líbano, em luto, a atmosfera é bem diferente. Em Beirute, equipes de resgate ainda buscam vítimas dos ataques realizados simultaneamente por Israel em diversas áreas na quarta-feira (8), que deixaram mais de 200 mortos e mil feridos.
"Continuaremos a atacar o Hezbollah onde for necessário, até que tenhamos totalmente restabelecido a segurança para os moradores do norte de Israel", declarou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Nesta quinta-feira, o exército israelense voltou a pedir que moradores de vários bairros no sul de Beirute evacuassem o local devido a novos bombardeios.
A ONU alertou que esses ataques representam um "grave perigo para o cessar-fogo e para os esforços em prol de uma paz duradoura", às vésperas das negociações planejadas entre o Irã e os Estados Unidos no Paquistão.
Seguindo os passos de Paris e Londres, a Alta Representante da União Europeia para as Relações Exteriores e a Política de Segurança, Kaja Kallas, também enfatizou que a trégua de duas semanas acordada entre Washington e Teerã deve "incluir o Líbano".
Essa posição também foi expressa pela Rússia. "Moscou presume que esses acordos (...) têm uma dimensão regional e se estendem, em particular, ao Líbano", declarou o Ministério das Relações Exteriores da Rússia, em um comunicado. A porta-voz Maria Zakharova condenou a ofensiva israelense no Líbano, afirmando que ela "ameaça descarrilar o processo de negociação que estava começando a tomar forma".
O Líbano "não deve ser usado como bode expiatório por um governo (israelense) incomodado com o cessar-fogo alcançado entre os Estados Unidos e o Irã", disse, por sua vez, o ministro das Relações Exteriores francês, Jean‑Noël Barrot.
A Turquia também pediu inclusão do Líbano no acordo de cessar-fogo.
Alemanha retoma negociações com Teerã
Para o chanceler alemão Friedrich Merz, o "processo de paz" entre os EUA e o Irã, que visa pôr fim à guerra no Oriente Médio, pode fracassar devido à ofensiva israelense no Líbano, conforme declarou nesta quinta-feira. No entanto, a Alemanha é um dos aliados europeus mais fiéis de Israel.
"Estamos particularmente preocupados com a situação no sul do Líbano. A brutalidade com que Israel está travando a guerra ali pode comprometer todo o processo de paz, e isso não pode acontecer", disse Mertz a jornalistas.
Friedrich Merz enfatizou que, assim como outros líderes, havia pedido ao governo israelense na quarta-feira que "cessasse a escalada de seus ataques". Após a entrada em vigor do cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã na noite de terça-feira (7), Israel afirmou que o Líbano não estava abrangido pelo acordo e, desde então, intensificou seus ataques contra o Hezbollah.
Friedrich Merz também anunciou hoje a retomada das negociações entre a Alemanha e o Irã. "Após um longo silêncio, motivado por razões sérias de nossa parte, o governo alemão está retomando as negociações com Teerã. Fazemos isso em consulta com os Estados Unidos e nossos parceiros europeus", disse ele.
"Queremos pôr um fim rápido à escalada militar que está desestabilizando cada vez mais o Oriente Médio, favorecendo cada vez mais a Rússia e gerando incerteza em escala global", acrescentou. O líder alemão enfatizou que não deseja que a guerra no Oriente Médio tensione ainda mais as relações entre os Estados Unidos e seus parceiros europeus da Otan.
"Não quero uma divisão dentro da Otan. A Aliança Atlântica é uma garantidora de nossa segurança, particularmente na Europa. Devemos continuar mantendo a calma", disse Mertz, um dia após uma reunião em Washington entre Donald Trump e Mark Rutte, secretário-geral da Otan, na qual o republicano disse que os Estados Unidos foram abandonados por seus parceiros, que haviam "virado as costas" para os Estados Unidos na guerra contra o Irã.
Após a pressão internacional, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ordenou a abertura de "negociações diretas" com o Líbano. "Após repetidos pedidos do Líbano para a abertura de negociações diretas com Israel, instruí o gabinete ontem (quarta-feira) a iniciar negociações diretas com o Líbano o mais breve possível", anunciou. "As negociações se concentrarão no desarmamento do Hezbollah e no estabelecimento de relações pacíficas entre Israel e o Líbano", explicou.
(Com AFP)