Wagner Moura estreia em maior encontro de artes cênicas do mundo ao lado de destaques da cena brasileira
Entre 4 e 25 de julho, o 80º Festival de Avignon recebe Wagner Moura, vencedor do prêmio de Melhor Ator em Cannes, Globo de Ouro e indicado ao Oscar por O Agente Secreto. Com carreira teatral iniciada em Salvador, sua cidade natal, ele estreia agora no maior encontro de artes cênicas do mundo, ao lado da premiada Christiane Jatahy em Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo, enquanto outra brasileira, Carolina Bianchi, revelação de 2023, encena Uma Luz Cordial e a trilogia Cadela Força.
Márcia Bechara, da RFI em Paris
A 80ª edição do Festival de Avignon, maior encontro de artes cênicas do mundo, abre suas portas neste verão europeu com uma constelação de nomes brasileiros em momentos de destaque, seguindo o anúncio oficial da programação feita pelo diretor geral do evento, o português Tiago Rodrigues, nesta quinta-feira (9), no Théâtre du Rond-Point, em Paris.
A peça gráfica que ilustra o cartaz oficial de 2026 traz um enorme ponto de interrogação para destacar a importância de questionar o mundo por meio da arte. O tema surgiu "de uma forma bastante livre", conta Tiago Rodrigues. "Num mundo em que estamos cercados de respostas ruins — poucas, mas na maioria dos casos más: respostas violentas, simplistas ou pouco informadas — queremos fazer as boas perguntas. Perguntas às vezes complexas, feitas com prazer, cheias de dúvida, capazes de abrir espaço para o debate em vez de gerar mais violência", pontuou.
Entre os destaques brasileiros, Christiane Jatahy, ao lado de Wagner Moura, estreia Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo no palco principal, enquanto Carolina Bianchi retorna ao festival após o sucesso de 2023 para apresentar Uma Luz Cordial, terceiro capítulo da trilogia Cadela Força, e oferece ao público uma maratona de 10 horas com a apresentação completa da trilogia na Ópera de Avignon.
Figura tarimbada no evento, Christiane Jatahy é uma das diretoras mais prestigiadas da cena contemporânea internacional e faz este ano seu grande retorno ao Festival de Avignon. Com uma carreira marcada por adaptações inovadoras e experimentações cênicas radicais, Jatahy já participou de diversas edições do festival e foi premiada em 2022 com o Leão de Ouro do Festival de Veneza pelo conjunto de sua obra.
Carolina Bianchi, Leão de Prata no Festival de Veneza de 2025, retorna ao evento após o sucesso de 2023 para apresentar Uma Luz Cordial, terceiro capítulo da trilogia Cadela Força, que atravessa os limites entre teatro, performance e literatura, abordando violência, memória traumática e relações de poder, permeada por incursões muito pessoais na história da arte.
Além da estreia da nova peça, Bianchi propõe ao público uma maratona de 10 horas com a apresentação completa da trilogia na Ópera de Avignon, reunindo os capítulos anteriores. Entre eles, A Noiva e o Boa Noite Cinderela, peça que questiona o público com o inferno dos feminicídios e estupros em que se testam os limites da performance e do teatro por meio da ingestão da droga associada a esses crimes.
O segundo capítulo, Brotherhood, também chega ao palco, abordando o poder misterioso das alianças masculinas e questionando toda a complexidade que envolve o amor incondicional aos "gênios" masculinos na história da arte e do teatro. Sua trajetória em Avignon a posiciona como uma das criadoras mais instigantes da cena contemporânea internacional.
"O retorno a Avignon é, de fato, emocionante, sobretudo por encerrar a trilogia. Chegar em julho para estrear o último capítulo, cujo primeiro foi apresentado em 2023, depois de muitos anos de trabalho, marca a conclusão de um ciclo que envolveu estudos e investigação profunda para realizar essas três peças", disse Bianchi em entrevista para a RFI.
"Essa apresentação celebra o encerramento da trilogia, mas também propõe uma nova desorganização: colocar as peças em sequência e observar como se influenciam mutuamente. Começar com Boa Noite, Cinderela e perceber sua repercussão até o último minuto revela consequências para o corpo, para o espaço e para todos nós. É um grande estudo, e estou muito feliz de realizar essa empreitada, de mergulhar ainda mais fundo no trabalho que desenvolvemos ao longo desses anos", analisa Bianchi.
Violência da escritura e da literatura
"O terceiro capítulo apresenta um eu que escreve já destroçado e recorre a alter egos para continuar e concluir o trabalho. Também aparecem autoras que admiro, como Hilda Hilst e Emily Dickinson, incorporadas à peça para materializar essa multiplicidade de vozes", declarou a encenadora e atriz.
"A violência dessa última peça está muito ligada ao processo de criação: é a violência da escritura e da literatura, que não conhece os limites da violência do teatro. Inclui também a questão da morte, esse espaço entre o sono e a morte que atravessa toda a trilogia", conclui.
A direção geral de Tiago Rodrigues, à frente do festival desde 2023, organiza a edição 2026 em torno da língua convidada, o coreano, reforçando o caráter internacional e a diversidade cultural do evento. Mais do que uma escolha geográfica, a curadoria propõe uma abertura para novas cartografias do teatro contemporâneo, com cerca de 20% da programação dedicada a artistas ligados à cena coreana, ausente do festival há mais de duas décadas.
"É a quarta língua que convidamos para o Festival de Avignon", sublinhou Rodrigues. "Começamos com o inglês, depois com o espanhol, duas línguas globais, mas de origem europeia. Então começamos a explorar línguas asiáticas, que poderiam ser interessantes de propor, e percebemos que a língua coreana, embora falada apenas em uma península, também exerce uma espécie de soft power por meio do K-pop, da música popular e dos K-dramas, séries televisivas coreanas muito populares em todo o mundo", finalizou.
O Festival de Avignon mantém em 2026 seu caráter internacional, reunindo 47 espetáculos no IN, a programação oficial do evento, em contraste com o OFF, que opera como festival paralelo, mais livre, com experimentação e circulação ampla. No IN, estão programadas 300 apresentações, incluindo 30 criações inéditas, que representam 64% da programação oficial.
A edição ainda oferece 80 debates e encontros, envolvendo 49 artistas de 10 países diferentes. Pela primeira vez na história do festival, a maioria dos artistas do IN é feminina, enquanto 67% dos participantes estreiam como novatos no festival. Mais de 136 mil ingressos estão à venda, refletindo a dimensão global e o alcance do evento.
O Festival OFF de Avignon celebra 60 anos em 2026, mantendo seu papel histórico como espaço de experimentação e visibilidade internacional. Com mais de 1.700 espetáculos e cerca de 27 mil apresentações, o OFF transforma a cidade inteira em palco e já consagrou o Brasil em 2025 como país homenageado, reunindo dezenas de companhias e consolidando a presença brasileira no cenário global. Essa memória histórica contextualiza e enriquece a participação dos artistas brasileiros no IN, reforçando sua visibilidade e reconhecimento internacional.
Lia Rodrigues coordena projeto com jovens artistas
Entre os destaques brasileiros do Festival de Avignon 2026, a encenadora e coreógrafa brasileira Lia Rodrigues assume papel de artista convidada à frente do projeto Transmission Impossible, um programa internacional que já se consolidou como laboratório de verão do festival. Criado em parceria com a Fundação Hermès dentro do programa Artistes dans la Cité, o projeto propõe uma imersão completa de jovens artistas em formação ou recém-formados em artes cênicas, oferecendo acesso privilegiado a espetáculos, ensaios e encontros com os criadores da programação oficial.
Neste ano, Lia Rodrigues sucede Mathilde Monnier na coordenação artística, trazendo sua experiência como coreógrafa e educadora. Desde 2011, Rodrigues lidera a Escola Livre de Dança da Maré, na favela da Maré, desenvolvendo uma "pedagogia mutante" que foge dos padrões convencionais de ensino, integrando prática, reflexão e criação comunitária.
Em 2026, 55 jovens artistas de diversas nacionalidades — Coreia do Sul, Espanha, França, Lituânia, Suíça, Taiwan, Brasil, Portugal — participam da nova turma do programa, incluindo 12 estudantes da Escola Livre de Dança da Maré. Lia Rodrigues também se apoia em uma equipe de colaboradores próximos, como Calixto Neto, Cristina Moura, Dani Lima e Silvia Soter, para cocriar experiências de aprendizagem e tentativas artísticas, estimulando a construção de comunidades criativas dentro do festival.
O programa não é apenas um espaço pedagógico: ele funciona como um laboratório vivo, integrando masterclasses, fóruns de discussão e percursos de espetáculos, promovendo um diálogo intenso entre artistas em formação e profissionais da 80ª edição do Festival de Avignon.
Ingressos
A bilheteria do Festival de Avignon 2026 começa em etapas para acomodar o grande volume de procura e garantir uma experiência de compra mais fluida: a inscrição para reservar um intervalo de compra online abriu em 24 de março, e a venda por faixas de horário acontece de 13 a 18 de abril, com cada comprador recebendo um link e duas horas para efetuar a compra dentro de sua janela específica — esse sistema ajuda a evitar a saturação do site oficial.
Os preços dos ingressos variam conforme o espetáculo, mas tradicionalmente a programação oficial do festival cobra valores entre cerca de €10 e €45 (entre R$ 60 e R$ 270) por apresentação, com categorias distintas de acordo com o tamanho do espetáculo e a localização das poltronas; há também ofertas de tarifas reduzidas, geralmente entre €7 e €25 (entre R$ 41 e R$ 150), para públicos jovens, estudantes, pessoas com menos de 26 anos ou em situação de desemprego, mediante apresentação dos comprovantes exigidos pela organização.