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Irã diz que Estreito de Ormuz está fechado até que o bloqueio dos EUA seja suspenso, enquanto navios relatam ataques

Trump afirmou que o Irã não pode "chantagear" os EUA com ameaças relacionadas à hidrovia, que Teerã bloqueia efetivamente há quase dois meses, causando a disparada dos preços globais da energia.

18 abr 2026 - 14h48
(atualizado às 19h43)
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Mulheres seguram rifles durante uma manifestação pró-governo do Dia do Exército Nacional, na sexta-feira (17/4) em Teerã
Mulheres seguram rifles durante uma manifestação pró-governo do Dia do Exército Nacional, na sexta-feira (17/4) em Teerã
Foto: Foto de Majid Saeedi/Getty Images / BBC News Brasil

O Estreito de Ormuz foi fechado novamente na noite deste sábado (18/4), após ter sido brevemente aberto pelo Irã na sexta-feira. Segundo a Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica, a rota permanecerá fechada até que os Estados Unidos suspendam o bloqueio aos portos iranianos.

O fechamento ocorreu após relatos de que embarcações dentro ou próximas ao estreito, incluindo um petroleiro, foram alvejadas por Teerã neste sábado.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o Irã não pode "chantagear" os EUA com ameaças relacionadas à hidrovia, que Teerã bloqueia efetivamente há quase dois meses, causando a disparada dos preços globais da energia.

Por meio de um comunicado, a Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica alertou que "nenhuma embarcação deve se mover de sua ancoragem no Golfo Pérsico ou no Mar de Omã".

"A aproximação ao Estreito de Ormuz será considerada cooperação com o inimigo, e a embarcação infratora será alvejada", diz o comunicado.

Durante a escalada da crise, o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou que as forças navais iranianas estão prontas para fazerem "os inimigos provarem o gosto de novas derrotas".

A mensagem foi divulgada neste sábado por veículos estatais, por ocasião do Dia do Exército, mas não faz menção direta nem ao Estreito de Ormuz, nem às negociações com os Estados Unidos.

Na sexta, Trump afirmou que o bloqueio naval aos portos iranianos continuará até que um acordo de paz seja firmado entre os dois países. O cessar-fogo de duas semanas atualmente em vigor expira em 22 de abril.

Os EUA disseram ter impedido a entrada de 23 navios desde que iniciaram o bloqueio em 13 de abril.

Para o Conselho Supremo de Segurança Nacional (CSSN) do Irã, a ação dos EUA configura uma violação do acordo de cessar-fogo.

Sobre as negociações para pôr fim à guerra, o CSSN disse que novas propostas foram apresentadas pelos EUA, e que Teerã está "atualmente analisando". As negociações de paz realizadas no início deste mês terminaram sem um acordo.

"Estamos tendo conversas muito boas. Está indo muito bem", disse Trump sobre o andamento das negociações com Teerã no sábado.

Reviravolta

Autoridades iranianas afirmam que o fechamento ocorre porque os EUA "não cumpriram sua parte" no entendimento mais recente, ao manter o bloqueio de navios com destino ou origem em portos iranianos. Em comunicado, autoridades iranianas classificaram o bloqueio americano como "pirataria" e "roubo marítimo".

A medida representa uma reviravolta em relação ao que havia sido anunciado poucas horas antes. Na sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o estreito permaneceria "completamente aberto" para navios comerciais durante o período de cessar-fogo.

Minutos depois, Trump agradeceu a declaração, mas deixou claro que o bloqueio americano continuaria "até que um acordo com o Irã esteja 100% concluído".

A situação atual contrasta diretamente com o discurso da Casa Branca, que havia indicado uma normalização rápida do tráfego marítimo na região, e a troca de mensagens marcou o início de uma sequência de declarações desencontradas entre Washington e Teerã.

Ainda na sexta, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, acusou Trump de fazer "sete afirmações falsas em uma hora" e indicou que, com a continuidade do bloqueio, o estreito não permaneceria aberto.

Na manhã de sábado, a situação voltou a mudar, com o fechamento, novamente, da rota marítima.

Os iranianos afirmam que a situação voltou ao estado de alguns dias atrás, com o estreito sob controle estrito das forças armadas do país.

Um petroleiro no Estreito de Ormuz relatou ter sido abordado e alvejado por duas lanchas operadas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, segundo as Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO).

O incidente ocorreu a cerca de 37 km a nordeste de Omã, e o navio e sua tripulação estão a salvo. Em outro episódio, ao menos dois navios mercantes relataram terem sido atingidos por disparos enquanto tentavam cruzar a rota, de acordo com fontes ouvidas pela agência Reuters.

Mulheres iranianas seguram fotos do líder supremo iraniano, o aiatolá Mojtaba Khamenei, em protesto anti-EUA e anti-Israel na sexta-feira
Mulheres iranianas seguram fotos do líder supremo iraniano, o aiatolá Mojtaba Khamenei, em protesto anti-EUA e anti-Israel na sexta-feira
Foto: Abedin Taherkenareh/ EPA/Shutterstock / BBC News Brasil

Dados do site de monitoramento MarineTraffic indicam que alguns petroleiros chegaram a cruzar o estreito nas primeiras horas do sábado. No entanto, após os novos anúncios, várias embarcações parecem ter alterado suas rotas. Um dos casos é o do petroleiro Minerva Evropi, de bandeira grega, que teria feito um retorno em direção ao porto de origem.

O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, por onde passa uma parcela significativa do petróleo global. Qualquer interrupção no fluxo de navios na região tende a gerar volatilidade nos mercados internacionais.

A escalada ocorre em meio a negociações frágeis entre EUA e Irã. Trump afirmou recentemente que Teerã teria "concordado com tudo", incluindo a remoção de urânio enriquecido do país — alegação negada por autoridades iranianas.

O presidente americano também sugeriu que um acordo histórico com Teerã poderia estar próximo — avaliação que não se confirma com a nova decisão iraniana.

Para a correspondente internacional da BBC, Lyse Doucet, o cenário atual é marcado por uma "avalanche de declarações contraditórias", refletindo negociações ainda longe de um consenso.

Apesar da retórica intensa, não há, até o momento, sinais de confronto direto na região. Um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah no Líbano parece estar sendo mantido, o que pode ajudar a evitar uma escalada maior — embora incidentes isolados ainda tenham sido registrados.

No terreno, a situação interna do Irã também chama atenção.

Um apagão digital imposto pelo governo já dura 50 dias, segundo a organização NetBlocks, isolando o país da internet global. O acesso alternativo, via sistemas como o Starlink, tem custo elevado — cerca de US$ 6 por gigabyte — em um país onde o salário médio mensal gira entre US$ 200 e US$ 300. O uso dessas conexões pode levar a penas de até dois anos de prisão.

Ao mesmo tempo, o Irã começou a reabrir parcialmente seu espaço aéreo, com a retomada gradual de voos internacionais em partes do território, após semanas de fechamento devido aos ataques envolvendo forças americanas e israelenses.

Ainda assim, há expectativa de que uma segunda rodada de negociações possa ocorrer, após uma primeira reunião maratona entre representantes dos dois países no Paquistão, no fim de semana passado, que terminou sem acordo.

O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou que o país está "determinado a monitorar e controlar" o trânsito no Estreito de Ormuz até o fim definitivo da guerra e o estabelecimento de uma paz duradoura na região.

Segundo o órgão, isso incluirá a coleta de informações das embarcações, a emissão de certificados de trânsito e a cobrança de taxas.

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