Índia: apesar de proibição, 'Partido dos Baratas' protesta em Nova Délhi por demissão de ministro
O "Partido do Povo das Baratas" (Cockroach Janata Party, CJP), nascido online, convocou uma marcha até a Assembleia em Nova Délhi para exigir a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan. A polícia avançou contra os manifestantes com golpes de cassetete na praça onde eles estavam reunidos e dispersou os manifestantes. No dia anterior, as autoridades indianas haviam declarado a marcha ilegal e mobilizado um grande efetivo para proteger o Parlamento e outros prédios públicos.
Abdoollah Earally, correspondente da RFI em Nova Délhi
Desde o começo do dia, o clima esteve tenso na capital indiana. Jovens avançaram em pequenos grupos, desafiando a proibição de protestar decretada pela polícia já no domingo (19). Entre eles, muitos exibem cartazes pedindo a saída do ministro da Educação, após as fraudes massivas nos últimos exames nacionais. Impulsionado por uma geração Z muito presente nas ruas, o movimento se insere em uma onda de contestação que já dura um mês.
Entre esses manifestantes está Arya, de 21 anos, determinado a ser ouvido. "Estou aqui pela causa. Quero que algo mude", disse ele. "Não sei exatamente o quê, mas só quero que mude, porque este governo não funciona."
Por volta das 11 horas, o protesto se transformou em confronto. Em grande número, as forças de segurança dispararam bombas de gás lacrimogêneo e depois avançaram com cassetetes contra os manifestantes, perto da esplanada da capital onde eles estavam reunidos.
'Ninguém nos escuta'
Atul, jovem engenheiro, denuncia uma mobilização ignorada. "Ninguém nos escuta. Veja: há milhares de pessoas, principalmente estudantes. Queremos justiça. E este é só um protesto; se você viajar pelo país, há muitos outros."
O fundador do Partido das Baratas, Abhijeet Dipke, foi detido. O cenário urbano ficou praticamente todo bloqueado, sobretudo nos arredores do Parlamento, onde fileiras de barreiras policiais cortavam as avenidas e paralisavam o trânsito. Mesmo assim, os manifestantes garantem que continuarão mobilizados. "Não podemos mais sair daqui. Eles instalaram todas essas barreiras, mas não vamos parar. Isto aqui é a Índia. É o país de Mahatma Gandhi", afirma Himanshi.
Desde a tarde desta segunda-feira, o bairro do Parlamento permaneceu totalmente isolado. O movimento afirma, por ora, que vai manter a mobilização.
O clima ficou ainda mais pesado após a retirada brusca, no sábado (18), do ativista Sonam Wangchuk, de 59 anos, do local do protesto. Segundo a polícia, ele foi levado a um hospital da capital, conforme decisão judicial, devido à "deterioração de seu estado de saúde".
A indignação da geração Z varreu o medo da repressão. Os manifestantes são hoje muito mais numerosos do que no início do movimento: a polícia estima cerca de 8 mil pessoas, contra algumas centenas há um mês. Em maio, uma fraude levou à anulação de um exame realizado por mais de dois milhões de candidatos a vagas em cursos de medicina. Segundo a imprensa local, essa decisão provocou o suicídio de vários participantes.
A resiliência da baratas
O "Partido das Baratas", adotou esse símbolo inusitado para representar a resiliência e a capacidade de sobrevivência dos mais pobres, comparando-os à resistência das baratas. Nas últimas semanas, seus membros multiplicaram protestos em diversas cidades do país e atraíram muitos jovens que já não aceitam sair da universidade sem conseguir emprego, apesar do forte crescimento econômico da Índia.
"O primeiro-ministro Narendra Modi não demonstrou, até agora, grande preocupação com a juventude do país", lamentou nesta segunda-feira a manifestante Shubhi Rao, de 16 anos, que protestava com cinco colegas. "Nosso país merece um governo que se importe com o que os jovens têm a dizer e esteja disposto a corrigir seus erros", reforçou Sumit Kumar, de 18 anos, que espera "contribuir para a mudança" com sua presença.
Com a abertura da sessão parlamentar nesta segunda-feira, o líder da oposição na Câmara Alta, Mallikarjun Kharge, criticou o uso da força pela polícia para dispersar os manifestantes. "O governo tenta usar a força para silenciá-los", disse na tribuna. "Estamos falando do futuro de centenas de milhares de nossos jovens."
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