Impopularidade e derrotas eleitorais pressionam Merz
Com apenas 10% de aprovação e após derrotas eleitorais para a extrema-direita da AfD, o chanceler alemão Friedrich Merz enfrenta forte crise interna na CDU. Seu estilo de comunicação e impopulares reformas na previdência geram críticas e pedidos por sua substituição. Contudo, nomes como Markus Söder e Hendrik Wüst enfrentam entraves para assumir, mantendo a ausência de um sucessor viável. Sob apoio dos governadores governistas, Merz rejeita renunciar e busca reafirmar sua liderança partidária.
Após derrota esmagadora da CDU para a AfD na eleição da Saxônia-Anhalt, conservadores questionam se atual chanceler alemão deve continuar liderando o governo. Mas não há reais alternativas.No início desta semana, o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, estava em Rovaniemi, na Finlândia, quase 1.800 quilômetros ao norte de Berlim, para debater temas como matérias-primas, geopolítica, segurança e mudança climática com outros líderes europeus.
Mas o tema que o acompanhou, mesmo tão longe da agitação política da capital alemã, foram os rumores e debates sobre sua saída do governo. Há semanas que o partido dele, a conservadora União Democrata Cristã (CDU), discute se Merz ainda é a pessoa certa para ocupar o cargo de chefe de governo da Alemanha - apenas um ano e meio após a posse, em maio de 2025.
Apenas 10% dos alemães estão satisfeitos com o trabalho dele, mostrou uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (15/09), e a CDU, partido do chanceler, sofreu uma derrota esmagadora na recente eleição estadual da Saxônia-Anhalt.
E uma nova derrota significativa ameaça ocorrer em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental no próximo domingo. O partido do chanceler federal aparece com apenas 7% das intenções de voto. Até mesmo a possibilidade de não superar a cláusula de barreira de 5% já não pode mais ser descartada. Tudo indica que esse será o pior resultado já obtido pela CDU em eleições estaduais.
Problemas na comunicação
A eleição realizada no início do mês na Saxônia-Anhalt foi vencida pela Alternativa para a Alemanha (AfD), um partido classificado pelo serviço de proteção da Constituição daquele estado no centro da Alemanha como "comprovadamente extremista de direita" e que tem tirado votos dos conservadores.
Merz havia prometido, antes de assumir o cargo, reduzir pela metade a votação da AfD. Em vez disso, quem teve seus índices reduzidos pela metade foi o partido dele. E em Berlim a pergunta que se faz é: a culpa disso é de Merz e de seu estilo áspero de comunicação? De sua dificuldade em explicar reformas importantes, como a das aposentadorias?
Mesmo integrantes do governo falam abertamente sobre a insatisfação popular com o governo de Merz. "Acredito que surgiu a impressão, para muitas pessoas, de que o chanceler, e também nós como União Democrata Cristã, não demonstramos a empatia necessária. E isso precisa mudar", declarou a ministra da Educação, Karin Prien (CDU), à emissora ARD.
De fato, uma crítica frequente é que Merz muitas vezes demonstra falta de empatia e autocontrole. A planejada reforma das aposentadorias representa cortes duros para muitas pessoas, mas o chanceler costuma demonstrar impaciência ao falar sobre o assunto.
Ainda em julho, Merz disse publicamente que a opção de muitos alemães pela "semana de quatro dias e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal" poderia colocar em risco a prosperidade do país. Assim, afirmam os críticos do chanceler, fica difícil implementar reformas duras.
Mesmo a CDU critica o chanceler
Quando microfones e câmeras estão desligados, representantes do governo se expressam de forma bem mais dura. Muitos políticos governistas dizem que a perda de confiança no chanceler é praticamente irreversível e torna necessária uma troca de líder.
A ala social do partido, a CDA, declarou fracassada a linha política defendida pelo chanceler e exigiu uma mudança de rumo. Já o candidato a governador em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Daniel Peters, claramente se distanciou de Merz numa entrevista devido à insatisfação dos eleitores locais com o governo federal. "Estamos travando aqui uma luta pela sobrevivência", resumiu à emissora Welt TV.
Dois candidatos: Söder e Wüst
Mas quem poderia suceder Merz? Um dos nomes cogitados é o do líder da União Social Cristã (CSU) e governador da Baviera, Markus Söder. Porém, ele costuma alfinetar não apenas os adversários, mas também a própria CDU, o que dificulta sua aceitação. A CSU é o partido conservador que só existe na Baviera, ao passo que a CDU atua nos demais 15 estados do país. No Bundestag, ambas formam uma bancada conjunta.
Outro possível candidato seria Hendrik Wüst, governador da Renânia do Norte-Vestfália, o estado mais populoso da Alemanha. Há mais de quatro anos ele lidera de forma relativamente tranquila e eficiente uma coalizão da CDU com o Partido Verde, mas até agora demonstrou pouca vontade de se mudar para Berlim.
Além disso, um fator importante pesa contra essa hipótese: em abril do próximo ano haverá eleição estadual na Renânia do Norte-Vestfália, e Wüst pretende buscar a reeleição.
"Desistir não é uma opção"
Do ponto de vista formal, uma troca de chanceler não seria difícil, desde que ocorresse de forma consensual. Após a renúncia de um chanceler, o Bundestag (Parlamento) pode eleger um sucessor por maioria simples.
Mas contra a vontade do ocupante do cargo, isso só é possível por meio de um chamado "voto de desconfiança". Nesse cenário, Wüst ou Söder teriam de desafiar Merz abertamente, algo que atualmente parece inimaginável.
Assim, no momento não há de fato uma opção a Merz. Além disso, o chanceler não é conhecido por desistir facilmente. "Desistir não é uma opção para mim", enfatizou depois da derrota na Saxônia-Anhalt. Ele lembrou que foi eleito para governar por quatro anos e quer provar que seu governo é capaz de implementar reformas.
Segundo notícias veiculadas na imprensa alemã, Merz convocou a CDU para uma reunião na noite do próximo domingo, após a divulgação dos resultados das eleições estaduais. Lá pretende colocar aos líderes do partido uma questão direta: ele ainda conta com a confiança de seu partido ou não?
Nesta quarta-feira, os oito governadores da CDU manifestaram apoio a Merz. Numa declaração conjunta, afirmaram que a Alemanha precisa agora "mais do que nunca de estabilidade" e que o caminho para reconquistar a confiança da população "não passa pelo debates sobre pessoas".
Também o líder da bancada da CDU/CSU no Bundestag, Thorsten Frei, assegurou ao chanceler o apoio dos parlamentares dos dois partidos.
A seriedade com que Merz encara a situação fica evidente em sua agenda para a próxima semana: o chanceler cancelou uma viagem longa e previamente confirmada que faria para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. "Ao contrário do planejado, ele não viajará para Nova York, pois sua presença em Berlim é necessária", disseram membros do governo.
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