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Imagens da Ucrânia indicam uso de míssil de cruzeiro pela Rússia em meio a colapso do pacto nuclear

26 fev 2026 - 11h14
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Imagens de destroços de ataques russos na Ucrânia indicam que Moscou usou um míssil de cruzeiro ‌cujo desenvolvimento levou o presidente dos EUA, Donald Trump, a abandonar um acordo nuclear histórico em seu primeiro mandato, disseram dois especialistas, confirmando informações anteriores da Reuters.

Os especialistas basearam sua análise em imagens de fragmentos do míssil com capacidade nuclear, fornecidas à Reuters por três fontes da polícia ucraniana. Essa é a primeira evidência visual publicada até o momento que corrobora o uso da arma pela Rússia.

Seu uso dezenas de vezes na Ucrânia é um exemplo de como a estrutura de controle de armas nucleares que emergiu da Guerra Fria desmoronou nos últimos anos. Este mês marcou o vencimento do Novo ⁠START, o tratado nuclear que impunha limites às armas estratégicas dos EUA e da Rússia.

O desenvolvimento do míssil 9M729 pela Rússia levou Trump a abandonar em ‌2019 o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês), então um pilar do controle de armas nucleares. A alegação era de que o míssil lançado do solo poderia voar muito além do limite permitido de 500km (310 milhas).

Em um comunicado escrito divulgado em novembro, a Procuradoria-Geral da Ucrânia ‌informou à Reuters que um dos mísseis 9M729 disparados pela Rússia em 5 de outubro ‌do ano passado percorreu mais de 1.200km.

FRAGMENTOS ENCONTRADOS

O ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andrii Sybiha, e fontes disseram à Reuters em outubro que ⁠a Rússia disparou o míssil 9M729 contra a Ucrânia duas vezes em 2022 e 23 vezes entre agosto e outubro do ano passado. Esses foram os primeiros usos de combate conhecidos do míssil em qualquer lugar do mundo.

A Rússia disparou pelo menos mais quatro mísseis contra a Ucrânia em 17 de fevereiro, segundo uma fonte policial, sendo esta a primeira vez que esses casos foram relatados. A fonte acrescentou que também houve outros usos desde outubro.

"As imagens realmente parecem mostrar o 9M729. Além das marcas, os destroços são semelhantes aos de outros mísseis de cruzeiro relacionados ao 9M729", disse Jeffrey Lewis, distinto acadêmico ‌de Segurança Global no Middlebury College, em Vermont.

Analistas da Janes, uma empresa de inteligência de defesa sediada no Reino Unido, disseram à Reuters que havia uma grande ‌probabilidade de os destroços mostrados nas dez imagens ⁠terem vindo do míssil 9M729 lançado do ⁠solo.

Fontes policiais disseram que as imagens mostram fragmentos recuperados nas regiões de Zhytomyr, Lviv, Khmelnytskyi e Vinnytsia, todas no oeste da Ucrânia.

A Reuters não conseguiu verificar onde e ⁠quando as fotografias dos fragmentos foram tiradas.

Uma das peças possui o número de série 0274, ‌enquanto outras trazem a marcação 9M729. Em outro ‌caso, um repórter da Reuters viu um fragmento com a marcação 9M729, mas foi solicitado por um agente da lei ucraniano a não fotografá-lo para publicação.

O Ministério da Defesa da Rússia não respondeu ao pedido de comentário para este artigo.

PREOCUPAÇÕES NA EUROPA

A Rússia reconheceu a existência do míssil, mas negou que ele violasse o tratado de 1987 e afirmou que ele poderia voar até a distância permitida.

Um dos mísseis 9M729 disparados ⁠pela Rússia em 5 de outubro atingiu uma casa na vila de Lapaiivka, perto de Lviv, resultando na morte de cinco civis, informou o Ministério Público da Ucrânia em comunicado -- a mais de 1.200km do ponto de onde foi disparado.

O uso dos mísseis está sendo investigado em oito regiões diferentes, acrescentou.

O Tratado INF proibiu especificamente mísseis lançados do solo com alcance superior a 500km, porque seus lançadores são mais fáceis de ocultar, tornando-os uma ameaça potencial maior do que aviões de guerra ou navios equipados com mísseis que são monitorados ‌pelas forças armadas.

Desde novembro de 2024, a Rússia também atacou a Ucrânia duas vezes com o Oreshnik, um novo míssil balístico terrestre de alcance intermediário que também teria sido proibido pelo Tratado INF.

Tanto o míssil 9M729 quanto o Oreshnik podem transportar uma ogiva nuclear ou convencional, e seu alcance ⁠coloca as capitais europeias ao seu alcance.

De acordo com o site Missile Threat, produzido pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, o míssil 9M729 tem um alcance de 2.500km.

Vários países da Otan na Europa estão agora tentando comprar ou desenvolver suas próprias armas de longo alcance e ataque profundo para reduzir a diferença em suas capacidades de dissuasão com a Rússia.

Alguns governos europeus temem que os EUA não estejam mais comprometidos com a proteção da Europa. Washington afirmou aos europeus que eles devem assumir a responsabilidade principal pela defesa convencional do continente.

Em agosto passado, a Rússia afirmou que não imporia mais limites aos locais onde implantaria mísseis de alcance intermediário capazes de transportar ogivas nucleares.

POR QUE A RÚSSIA DISPAROU?

Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, há quatro anos, a Rússia lançou milhares de drones e mísseis contra o país. Mais recentemente, durante o inverno mais rigoroso da guerra, os ataques foram direcionados à infraestrutura de energia e aquecimento da Ucrânia.

Não ficou claro por que a Rússia estava usando o míssil 9M729.

Lewis, o analista de mísseis, disse ser surpreendente que a Rússia estivesse disposta a perder informações sensíveis ao usar o míssil com capacidade nuclear na Ucrânia, o que permite que especialistas militares estudem seu desempenho em combate e examinem fragmentos da arma.

"A Rússia pode ter um estoque relativamente pequeno de mísseis de cruzeiro sofisticados e, portanto, está disposta a recorrer ao seu estoque de longo alcance", afirmou.

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