Hezbollah e ministro de Israel consideram "um grande erro" acordo para a paz no Líbano
O líder do movimento xiita libanês Hezbollah descreveu o acordo-quadro entre o Líbano e Israel, assinado na sexta-feira (26) em Washington e destinado a uma "paz duradoura", como um "grave erro". Horas depois, o ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, usou os mesmos termos para definir o texto, aumentando as dúvidas sobre a validade do acordo.
Neste sábado (27), Israel realizou novos ataques no sul do Líbano, matando uma pessoa. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, anunciou uma "permanência prolongada" do exército israelense no país vizinho.
"O acordo é humilhante, vergonhoso e representa uma renúncia à soberania", criticou o líder do Hezbollah, Naim Qassem, em um comunicado, acusando as autoridades libanesas de "legitimar a continuidade da ocupação [israelense] por muitos anos, podendo até levar à anexação dessas terras".
"Este acordo é nulo e sem efeito. São os termos do memorando de entendimento (...) que devem ser implementados", acrescentou Qassem, referindo-se ao texto assinado em 17 de junho por Washington e Teerã, que pede o fim dos combates no Líbano.
Divergências no governo israelense
O ministro da Segurança Nacional de Israel, figura da extrema-direita no país, também classificou o texto como um "grande erro" e descartou confiar no Líbano sobre o desarmamento do Hezbollah. "Enquanto permanecemos atualmente na maior parte do território [libanês], o Estado libanês não desarmará o Hezbollah", afirmou Ben Gvir em seu canal no Telegram. Considerando que o governo libanês inclui "ministros do Hezbollah, não se pode confiar que o Líbano confiscará as armas" do grupo, e que "apenas soldados israelenses" as destruirão, sublinhou ele.
Já o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, saudou o acordo, que ele descreveu como "um golpe contra o Irã e o Hezbollah". "Concluímos um acordo histórico para o Estado de Israel, após negociações diretas" com o Líbano, disse, em uma coletiva de imprensa.
O exército libanês prometeu não tolerar "qualquer violação da segurança ou ameaça à paz civil", após um protesto na capital libanesa realizado por apoiadores do Hezbollah contrários ao acordo. Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, os ataques israelenses de sábado mataram uma pessoa na cidade de Nabatieh al-Fawqa, no sul do país, que foi alvo de bombardeios aéreos e ataques com drones, de acordo com a agência oficial NNA.
Mais cedo, o exército israelense havia anunciado que atacara "suspeitos de terrorismo" que ameaçavam suas tropas na região.
Primeiros passos
O Líbano foi arrastado para a guerra em 2 de março, depois que o Hezbollah disparou foguetes contra Israel em apoio a grupos palestinos ao Irã, que enfrentava uma ofensiva israelense. Israel retaliou com intensos ataques aéreos e uma invasão terrestre no sul do Líbano, onde suas tropas ocupam vastas áreas de território e causam grande destruição em casas e outros prédios.
Um cessar-fogo alcançado em 17 de abril não conseguiu acabar com os combates entre Israel e Hezbollah, embora a violência tenha diminuído desde o memorando de entendimento entre Irã e Estados Unidos, concluído na semana passada.
"O primeiro-ministro e eu ordenamos" o exército a preparar-se para uma permanência prolongada na zona de segurança", disse Katz em um vídeo, referindo-se à faixa de território de cerca de dez quilômetros de largura ocupada por Israel. O ministro enfatizou que "o princípio importante estabelecido" pelo texto "é que não haverá redistribuição de tropas, nem retirada, até que" o Hezbollah "seja desarmado em todo o Líbano".
O acordo delineia um plano para transferir gradualmente o controle de zonas-piloto no sul do país para o exército libanês, com o objetivo final de permitir o retorno dos civis.
O acordo, alcançado após cinco rodadas de negociações em Washington, representa um "primeiro passo" para restaurar a soberania do Líbano, livre de "ocupação", "subordinação" ou "tutela", afirmou o presidente libanês, Joseph Aoun, na sexta-feira.
No sábado, a França declarou-se "pronta para contribuir" com a implementação do acordo, defendendo que ele "abra caminho para a recuperação total da soberania libanesa". A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, saudou um passo "crucial" para a desescalada na região e afirmou que a UE está pronta para "apoiar" esse caminho rumo a uma "estabilidade regional duradoura".
Com AFP
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