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Gaza: sistema de saúde em colapso condena gestantes a uma luta pela sobrevivência

Enquanto as discussões sobre a reconstrução da Faixa de Gaza permanecem paralisadas, o sistema de saúde do enclave continua a desmoronar. Com hospitais destruídos, escassez de medicamentos e praticamente nenhum acompanhamento pré-natal, mulheres grávidas lutam para ter acesso a cuidados, enquanto os próprios médicos não escapam de serem alvos da guerra.

28 jul 2026 - 10h55
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Rami El Meghari, correspondente da RFI em Gaza

Gaza agora conta com apenas oito instalações de saúde em funcionamento, das 35 que possuía antes da guerra. Neste cenário caótico, pacientes gestantes vivem nove meses de gravidez que são um calvário.

"No início, quase não recebi cuidados. Fomos transferidas de um lugar para outro. Eu ia às consultas quando conseguia. No começo da gravidez, houve fome. Melhorou gradualmente, com as vitaminas que o médico me receitou", relata Lina Ayad, que recentemente deu à luz à pequena Doaa em um hospital no centro de Gaza, um dos últimos ainda em funcionamento.

No leito ao lado, outra paciente também teve que lidar com uma gestação marcada por privações. "Eu ia a pé buscar suplementos alimentares para o bebê. Porque não comíamos frutas nem verduras. Meu marido não trabalha. Foi exaustivo, mas Deus seja louvado", conta ela.

Desde o início da guerra, os casos de aborto espontâneo e de natimortos aumentaram drasticamente. Para o Dr. Raed Al-Saoudi, chefe do setor de obstetrícia do Hospital Al-Awda, em Jabalia, no norte de Gaza, o principal desafio é evitar que os casos se agravem. 

"Tentamos chegar a essas mulheres indo até os campos com nossas clínicas móveis. Gostaríamos de contar com apoio para a saúde reprodutiva e sexual no hospital. Isso inclui equipamentos e materiais de laboratório, medicamentos, antibióticos, suplementos alimentares, vitaminas e apoio logístico", explica.

"Atacaram nossa humanidade"

Além das maternidades e de todo o sistema de saúde de Gaza estarem em ruínas, nem os próprios médicos são poupados pela guerra. Diretor do Hospital Al-Awda, o Dr. Ahmad Mhanna foi preso em outubro de 2023, mantido incomunicável e torturado em Israel. Ele só foi liberado e pôde retornar para casa após 22 meses de detenção.

"Eu era o diretor deste hospital e me apresentei como tal. Não tenho nenhuma ligação com, e não apoio, nenhuma organização política. Minha principal vocação é humanitária: cuidar das pessoas", diz à RFI o anestesiologista e especialista em terapia intensiva, rebatendo as acusações de terrorismo feitas pelo exército israelense.

Ahmed Mhanna foi detido por Israel na base militar de Sde Teiman, sem acusação formal ou julgamento, sob a lei de "combatentes ilegais", um regime semelhante à detenção administrativa.

"Eles atacaram nosso moral e nossa humanidade, nos torturando física e psicologicamente de todas as maneiras imagináveis", relembra o médico. Ele ainda sofre com sequelas, incluindo dores articulares e pesadelos.

Ao retornar da prisão, em 13 de outubro de 2025, o Dr. Mhanna testemunhou a imensa destruição em Gaza: a devastação de cidades e hospitais, incluindo o seu próprio, na parte norte. Além das vidas perdidas nos bombardeios israelenses ou na fome que assolava a região, o sistema de saúde do enclave palestino havia entrado em um colapso ainda maior.

"A situação tornou-se catastrófica e alarmante. Epidemias se espalharam e procedimentos cirúrgicos complexos estão severamente limitados. Pelo menos 18 mil pacientes que deveriam estar recebendo tratamentos avançados, indisponíveis na Faixa de Gaza, aguardam permissão para deixar o território e acessá-los", detalha o médico. 

"Cirurgias cardíacas e procedimentos vasculares especializados estão suspensos devido à fuga de especialistas, à escassez de recursos e à falta de infraestrutura cirúrgica e salas de operação resultante da redução no número de leitos de UTI", explica.

O hospital Al-Awda, na Faixa de Gaza, em 29 de maio de 2025, antes da ordem de evacuação emitida pelo exército israelense.
O hospital Al-Awda, na Faixa de Gaza, em 29 de maio de 2025, antes da ordem de evacuação emitida pelo exército israelense.
Foto: RFI

ONGs tentam minimizar perdas

Para tentar aliviar os danos, ONGs atuam no apoio aos hospitais e pacientes. Ahmed Mhanna trabalha também para a associação Al-Awda.

Terceira maior provedora de serviços de saúde na Faixa de Gaza, a associação oferece atendimento gratuito aos pacientes com a ajuda de instituições internacionais. Mas os recursos são limitados e nada pode substituir serviços de saúde adequados, ressalta o Dr. Mhanna.

"Se não houver ajuda, se os pacientes não forem transferidos para centros de saúde especializados para tratamento, ou se o sistema de saúde em Gaza não for rapidamente estabelecido e fortalecido, perderemos centenas, senão milhares, que sofrem de insuficiência renal e outras doenças crônicas", alerta o profissional.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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