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'Serra Pelada, 1986': imagem de Sebastião Salgado marca homenagem da RFI aos 200 anos da fotografia

Che Guevara, Praça da Paz Celestial, Serra Pelada. No projeto global que celebra os 200 anos da fotografia, cada redação da Rádio França Internacional escolheu uma imagem capaz de condensar um país e suas rupturas. O Brasil elegeu "Mina de Ouro de Serra Pelada, Estado do Pará, Brasil, 1986", de Sebastião Salgado, incluída pelo The New York Times entre as fotos que definem a modernidade.

14 set 2026 - 06h39
(atualizado às 06h51)
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Resumo
Para celebrar o bicentenário da fotografia em 2026, a RFI lançou a série "O Mundo em Imagens", reunindo 18 registros marcantes indicados por suas redações. A filial brasileira selecionou a clássica foto de Sebastião Salgado sobre o garimpo de Serra Pelada, feita em 1986. Conhecida como "Formigueiro Humano", a obra sintetiza temas urgentes como desigualdade e exploração, servindo de tributo ao legado do fotógrafo como testemunha histórica e símbolo da fotografia documental contemporânea.

Em 2026, a França celebra o bicentenário da primeira fotografia conhecida, realizada por Nicéphore Niépce. Para marcar os 200 anos desse gesto inaugural, a RFI lança a série O Mundo em Imagens: 18 cliques no total, escolhidos por cada uma das redações da emissora, reunidos para investigar como a fotografia continua moldando a compreensão do presente, revelando conflitos, iluminando memórias e abrindo novas maneiras de enxergar o real.

Nicéphore Niépce é considerado o pai da fotografia porque foi o primeiro a conseguir fixar permanentemente uma imagem produzida pela luz. Em 1826 ou 1827, em Saint‑Loup‑de‑Varennes (centro), ele realiza Vista da Janela em Le Gras, o registro mais antigo que chegou até nós. Obcecado pela ideia de automatizar a visão humana, Niépce trabalhava com heliografia, usando betume da Judeia que endurecia ao sol - processo que exigia horas de exposição. Em carta ao irmão, ele resume sua ambição com uma frase que atravessa dois séculos:

"A luz desenha sozinha."

Sua descoberta abriu caminho para a parceria com Louis Daguerre e inaugurou uma revolução cultural, científica e política que transformou a memória, o jornalismo, a arte e a forma como o mundo se vê.

Sebastião Salgado, a escolha da redação brasileira

A imagem escolhida pela redação brasileira da Rádio França Internacional para o projeto que celebra os 200 anos da fotografia é um ponto de inflexão na maneira como o Brasil foi retratado no fim do século 20. "Mina de Ouro de Serra Pelada, Estado do Pará, Brasil, 1986", de Sebastião Salgado, tornou-se uma das imagens mais reconhecidas da fotografia documental contemporânea.

A força da cena desta imagem icônica, conhecida popularmente como "Formigueiro Humano", não está apenas na escala monumental do garimpo, mas na capacidade de revelar, num único quadro, a engrenagem social que sustentou uma época.

A cratera amazônica, vista de cima, parece um organismo vivo. Homens comprimidos em degraus improvisados sobem e descem sem parar, carregando sacos, ferramentas e expectativas. O enquadramento escolhido por Sebastião Salgado elimina o horizonte e aprisiona o olhar dentro da mina, obrigando o espectador a percorrer a massa de trabalhadores como se estivesse diante de uma máquina humana.

A crítica internacional consagrou a imagem como símbolo da relação entre trabalho, corpo e economia num período marcado por transições políticas e pela promessa de enriquecimento rápido. Em 2023, o jornal  The New York Times a incluiu entre as 25 fotografias que definem a modernidade desde 1955 - reconhecimento que reforça seu impacto global.

A série Serra Pelada ocupa um lugar decisivo na trajetória de Salgado. Ao longo de quase 50 anos, o fotógrafo construiu uma obra que colocou a experiência humana no centro de seu projeto, aproximando-se de trabalhadores, migrantes, refugiados e comunidades invisibilizadas pela lógica econômica global. A convivência prolongada com os garimpeiros moldou sua compreensão sobre o papel da fotografia como testemunho e crítica. A cratera é a metáfora decisiva de um país que buscava ascensão, enquanto enfrentava desigualdades estruturais.

O projeto da RFI para os 200 anos da fotografia reúne 18 redações, cada uma delas responsável por escolher uma imagem que represente seu país ou sua zona geográfica e dialogue com questões universais.

De Che Guevara a Fela Kuti, a série em homenagem ao bicentenário da fotografia é composta por 18 imagens consideradas históricas.
De Che Guevara a Fela Kuti, a série em homenagem ao bicentenário da fotografia é composta por 18 imagens consideradas históricas.
Foto: RFI

De Nadia Comaneci a Che Guevara: imagens que marcaram o mundo

O mosaico de imagens revela um panorama contundente da experiência humana registrada ao longo de dois séculos. A redacação vietnamita, por exemplo, escolheu a foto "A Jovem com a Flor", que mostra Jane Rose Kasmir, 17 anos, oferecendo um crisântemo diante das baionetas durante um protesto de pacifistas contra a guerra do Vietnã. A fotografia deu um rosto à resistência.

Já a redação romena escolheu uma imagem que não pertence à guerra nem à política, mas à ideia de perfeição: Nadia Comaneci em Montreal, 1976, no instante em que o placar eletrônico, incapaz de registrar o primeiro 10 da história olímpica, exibiu um "1.00". A fotografia, que captura a serenidade quase impossível de uma adolescente diante de um feito que reconfigurou o esporte mundial, lembra que a busca humana por excelência também é documento histórico.

A redação chinesa retorna à figura solitária do manifestante diante dos tanques na Praça da Paz Celestial, em 1989, lembrando que a imagem continua sendo uma das poucas formas de memória pública sobre um episódio que o Estado tenta apagar. A redação de língua espanhola revisita a imagem icônica de Che Guevara feita por Alberto Korda, talvez o retrato político mais difundido do século 20, destacando como a fotografia pode transformar um indivíduo em símbolo global de resistência - e de consumo pop.

Nesse conjunto composto por 18 imagens, a escolha brasileira de Serra Pelada se insere com naturalidade: cada redação da RFI procurou trazer uma ferida, uma revelação ou um ponto de ruptura imortalizado pela fotografia, e a cratera amazônica de Salgado dialoga com todas elas ao expor, sem filtros, a engrenagem humana que sustenta a história da modernidade. A escolha brasileira sintetiza temas que permanecem atuais como desigualdade, exploração, impacto ambiental, economia globalizada e a persistência de formas de trabalho insalubres.

A última entrevista que Sebastião Salgado concedeu à redação brasileira da RFI, em março de 2026, aconteceu durante a retrospectiva no centro cultural Les Franciscaines, no norte da França. Ali, o fotógrafo se emocionou, revisitou sua trajetória, e refletiu sobre ética, memória e responsabilidade, discutindo o papel da fotografia documental num mundo saturado de imagens.   

"O dia mais feliz da minha vida foi quando completei 80 anos... Simplesmente porque eu estava aqui. Eu não estava morto. Quantos amigos perdi, éramos todos amigos durante quatro anos em Goma [,na República Democrática do Congo], quatro fotógrafos foram assassinados, eu estava lá. Então para mim, estar vivo com 80 anos, é um privilégio enorme", confessou o artista brasileiro na abertura da retrospectiva, dois meses antes de sua morte, em 23 de maio de 2025.

A homenagem da RFI Brasil devolve ao público a chance de olhar para a Serra Pelada do fotógrafo brasileiro com a atenção que a imagem exige: como crítica social e memória coletiva, mas também como um convite para imaginar se ainda é possível construir um futuro em que o trabalho não seja um mero sinônimo de sobrevivência, à beira do abismo.

* Para conferir as imagens escolhidas pelas outras línguas da RFI para a celebração dos 200 anos da fotografia, acompanhe diariamente nossas redes sociais.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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