Paris: Luiz Martins imprime vestígios do 'homem primário' brasileiro em porcelana icônica de Limoges
O artista visual Luiz Martins apresenta, a partir deste sábado (6), em Paris, a exposição "Nhorinhá", na Galeria Ricardo Fernandes. Nascido em Machacalis (MG), o artista reúne pinturas, esculturas e instalações para discutir a história do Brasil sob uma perspectiva pós-colonial, com foco nos vestígios do "homem primário" brasileiro. A mostra propõe reescrever narrativas coloniais ao intervir em objetos franceses e tensionar conceitos como memória, território e identidade.
Luiz Martins abre a exposição a partir de um título que carrega uma referência literária de peso no cânone brasileiro. "Esse nome vem do livro [Grande] Sertão Veredas, do Guimarães Rosa, e quando eu trabalho um projeto, eu sempre procuro colocar títulos que despertam curiosidade nas pessoas", afirma o artista. A escolha dialoga com a tradição do escritor mineiro de criar palavras e deslocar sentidos, ao mesmo tempo em que Martins articula esse gesto com sua própria pesquisa: "o Guimarães Rosa foi um grande criador de palavras. E aí, juntando 'Nhorinhá' com a minha pesquisa de arqueologia e antropologia, criamos esse projeto", diz o artista visual.
A mostra apresenta um conjunto híbrido de linguagens, articulado em torno da ideia de confronto histórico. "Essa exposição foi pensada pelo Ricardo Fernandes e, desde 2025, a gente trabalha junto, e nesse projeto nós trouxemos pintura, escultura e instalação, trabalhando sempre essa questão relacionada do colonizador e do colonizado", afirma Martins. O galerista, radicado na capital francesa, tem ampliado a presença de artistas brasileiros contemporâneos no circuito parisiense, historicamente influente na legitimação internacional da arte.
"Alma de escultor"
O trânsito entre linguagens também reflete a própria formação do artista. "Acho que eu nasci com a alma de escultor, com o tridimensional. Eu sou uma pessoa criada na terra, no barro, lá em Minas, lá em Machacalis", afirma. Para ele, a escultura permite uma relação física que a pintura não alcança: "o que a escultura, a massa, me permite, que a pintura não dá, é sentir, é sentir a força da terra, sentir a força da matéria", diz Martins, ao explicar a centralidade da materialidade em sua obra.
O contexto de origem do artista aparece como elemento estruturante da produção. Nascido em território ligado ao povo indígena Maxakali, Martins trabalha a partir de um espaço que preserva língua e tradições orais, inserido em uma memória que atravessa dimensões indígenas, afro-brasileiras e pós-coloniais. Essa complexidade territorial se traduz em uma abordagem que recusa a narrativa oficial da história brasileira.
"Eu sou um artista que quer falar da minha própria história. Eu quero ser sujeito da minha própria história, vendo que o Brasil é contado a partir da visão do colonizador", afirma. Para ele, o apagamento do período anterior a 1500 continua estruturando o imaginário histórico do país. "O estado não nos permite conhecer a história do Brasil antes disso. E o que eu procuro é mostrar que falar da minha história é falar do meu povo, do meu território", diz Martins.
Reescrever a história brasileira
A dimensão política da obra aparece de forma direta na pesquisa do artista. "Nada mais significante para mim do que falar desse homem primário brasileiro, algo que nos foi negado desde sempre", afirma. Ao recorrer à arqueologia e à antropologia, Martins tenta reconstruir uma narrativa que antecede a colonização europeia, deslocando o eixo da história nacional.
A abordagem ganha forma concreta em uma das principais instalações da exposição, construída a partir de objetos franceses. "Quando o Ricardo e eu pensamos nesse projeto, a gente pensou como desenvolver um trabalho estando nesse território, que foi um país colonizador", afirma. O artista se define como um "arqueólogo da cidade", buscando materiais que dialoguem com o contexto local.
Foi nesse processo que surgiram os pratos de Limoges, tradicional porcelana francesa do início do século 20.
"Eu saí pelas ruas de Paris garimpando, buscando essa matéria", diz. A escolha do objeto carrega tanto valor simbólico quanto histórico, já que "a porcelana é associada à tradição europeia e à circulação de bens culturais durante o período colonial".
Ao intervir nos objetos, o artista propõe uma inversão narrativa. "Quando eu pego essa matéria e faço uma intervenção, eu estou trabalhando uma questão que para mim é muito importante politicamente, que é fazer um apagamento da memória do colonizador e sobrepor a história do meu povo", afirma. A operação se aproxima da ideia modernista de antropofagia, reinterpretada em chave contemporânea.
Martins vai além da representação do indígena contemporâneo e busca referências mais profundas. "Eu não procuro fazer uma transposição do indígena contemporâneo brasileiro. Eu vou mais atrás, em busca dos vestígios do homem primário brasileiro de 20 mil, 10 mil anos atrás", diz. O artista defende a ideia de que o território brasileiro possui uma história milenar anterior à colonização europeia.
"Quando temos um líder, uma religião e um meio de sustento, nós temos uma sociedade", afirma, ao descrever o que considera os elementos constitutivos dessas formações antigas. Para ele, esse reconhecimento implica uma revisão profunda da narrativa nacional. "O Brasil precisa reescrever a sua história. O Brasil não foi descoberto, foi invadido", diz.
Crítica decolonial
A crítica se estende à dimensão demográfica e histórica da colonização. "Quando os europeus chegaram no Brasil, existia mais de 5 milhões de habitantes", afirma Martins. Segundo ele, houve um processo violento de extermínio: "houve um grande genocídio brasileiro, que matou muito mais de 2 milhões de pessoas", diz, ao justificar a urgência de revisão histórica que orienta sua obra.
Essa perspectiva também se apoia em referências culturais brasileiras. Para Martins, há registros dessa continuidade em sítios arqueológicos no país, especialmente em cavernas com inscrições e pinturas rupestres. O contraste com a Europa aparece no plano visual. "Os vestígios arqueológicos deixados por esse indivíduo são totalmente diferentes, no sentido gráfico e visual, dos encontrados na Europa, como nas cavernas de Lascaux, por exemplo", afirma. A comparação reforça a singularidade das culturas pré-coloniais brasileiras, muitas vezes invisibilizadas.
Ao sintetizar a exposição em uma única imagem, Martins aponta diretamente para a instalação dos pratos. "É a instalação dos pratos", afirma, ao destacar o caráter central da obra dentro do conjunto apresentado em Paris. A instalação se organiza com as porcelanas dispostas de forma ritualística. "É quase como uma mesa posta. É uma antropofagia ao inverso", explica.
"Eu estou mostrando uma história sendo apagada e reescrita a partir desses vestígios", afirma. Martins ressalta que a intervenção não busca desrespeitar a tradição do objeto: "eu não estou procurando ser radical, estou tentando politicamente e artisticamente fazer o prato como suporte para receber a minha história", conclui.
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