Luso-brasileiros estão entre os vencedores do 'Concurso Sardinhas' de Lisboa
Os artistas conquistaram o júri da competição que reuniu trabalhos de 66 países, como Brasil, Moçambique, Dinamarca, Canadá, Chile e Austrália
Fábia Belém, correspondente da RFI em Lisboa
A sardinha está para os Santos Populares em Portugal assim como o milho para as festas juninas no Brasil. E, neste ano, há dois talentos luso-brasileiros ajudando a dar cara nova ao peixe: o carioca Eduardo Ferrão e Letícia Amaral de Araújo, natural de Belo Horizonte. Eles são dois dos cinco vencedores da 16ª edição do "Concurso Sardinhas" de Lisboa, que neste ano recebeu 3.128 desenhos, enviados por 1.762 autores de 66 países. O resultado surpreendeu Letícia e Eduardo.
"Quando chegou o e-mail [com o resultado], eu até tive que conferir algumas vezes. Eu não sabia se era golpe ou coisa do tipo, né? Para ver se era sério mesmo. E eu fiquei super satisfeito, porque é um concurso que acho muito bonito", conta o designer gráfico.
A notícia, que chegou por meio de uma ligação telefônica, foi recebida por Letícia com surpresa e felicidade. Ela também explica que, por retratar na sardinha uma cena tipicamente portuguesa, havia o receio de cometer algum equívoco. No entanto, a aprovação do júri português afastou qualquer dúvida. "Achei que [o resultado] validou a minha ideia", afirma a designer.
O concurso foi criado em 2011 pela EGEAC, empresa pública que promove ações culturais em Lisboa. O objetivo dos organizadores é estimular a participação e a criação artística, desafiando amadores e profissionais das artes a criar novas roupagens para a sardinha. As propostas vencedoras são utilizadas como imagem da campanha visual das tradicionais festas dos santos populares, equivalentes às festas juninas no Brasil.
'Bolo de arroz'
Para participar da competição, Eduardo Ferrão se inspirou no projeto "O Último Bolo de Arroz de Lisboa", lançado por uma associação de moradores que busca proteger, valorizar e dar visibilidade a cafés e pastelarias que fazem parte da história dos bairros. Chamou a atenção do designer gráfico a notícia de que muitos desses estabelecimentos tradicionais estão fechando as portas devido ao aumento do preço dos aluguéis e das matérias-primas, além de estarem sendo substituídos por comércios voltados a turistas e moradores estrangeiros com alto poder aquisitivo.
Quando leu sobre o assunto, ele não teve dúvidas. "Foi como uma revelação, sabe? E aí a ideia estava ali", relembra. A "Bolo de Arroz", assinada pelo luso-brasileiro, molda o famoso doce português no formato de sardinha. A ilustração destaca a textura fofa da massa, a icônica crosta de açúcar no topo e a base envolta na clássica cinta de papel vegetal.
"Fico realmente esperando que [a minha ilustração] abra o apetite das pessoas, sabe? Assim que passarem por uma pastelaria, peçam um bolo de arroz", pede o carioca, que espera que sua criação também possa ajudar a manter o bolo de arroz e sua receita tradicional nas pastelarias portuguesas.
"O Telefone das Coscusvilheiras"
Na sardinha, a que deu o nome de "O Telefone das Coscuvilheiras", Letícia Amaral de Araújo recorreu ao bom humor ao fazer uma leitura de uma cena cotidiana: a coscuvilhice de quem fica à janela ou na sacada dos apartamentos a fofocar e até a monitorar a vida alheia. "Este exagero visual não busca realismo, mas sim evidenciar um comportamento social reconhecível: o prazer na conversa e na construção coletiva de histórias", destaca a EGEAC na descrição oficial do projeto.
A ilustração da mineira destaca duas varandas tradicionais com uma senhora em cada lado a estender roupa na espinha dorsal da sardinha, que ganha nova vida como um varal e um "telefone de lata" ao mesmo tempo. Uma cena que resgata os conhecidos telefones de copinho ou de barbante das brincadeiras infantis. "E essas duas senhoras estão a se comunicar por meio de um telefone de lata, que eu fiz essa analogia com o varal", explica Letícia.
Sardinhas de Lisboa
Além das sardinhas "Bolo de Arroz" e "O Telefone das Coscuvilheiras", também conquistaram o júri da competição as ilustrações portuguesas "Sardinha Guitarrista" e "Patrimônio Fragmentado" e a "Tomatazo", do Uruguai. O autor de cada uma delas ganhou um prêmio em dinheiro no valor de 1.500 euros (quase R$ 9 mil na cotação atual). A maior recompensa para os vencedores, contudo, é ter as sardinhas exibidas nos ônibus e no metrô da capital, nos painéis publicitários e nas decorações dos arraiais.
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Eduardo Ferrão, que vive na cidade do Rio de Janeiro, pensa até em ir a Lisboa para não perder a festa. "Eu ainda estou considerando isso, se pego semana que vem um voo. Enfim, vamos ver. É um evento muito relevante para a cidade, e eu gostaria muito de fazer parte desse momento", confessa.
Letícia, que mora há seis anos em Lisboa, já teve a chance de ver o resultado de seu trabalho e testemunhar a reação das pessoas. "Foi muito interessante. Eu fiquei mais como espectadora, vendo as pessoas com a sardinha na mão, conversando nesse contexto popular das festas, e senti uma sensação de orgulho", disse.
Ícone pop
O Concurso Sardinha celebra um dos mais populares símbolos da identidade do país. Alimento básico das comunidades pesqueiras e de quem vivia e trabalhava no campo, a sardinha se tornou uma das marcas da capital portuguesa, uma espécie de ícone pop, estampada em roupas, acessórios e peças de decoração. E é no pico do verão deste lado do atlântico, que ela chega ao ponto para ser consumida. O preparo é nas grelhas ao ar livre às portas das casas e tascas.
Para a designer mineira Letícia, que assim como Eduardo, gosta de sardinha, a partir de agora, a iguaria vai ter "esse gostinho especial, essa memória afetiva que vai ficar pra sempre".
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